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terça-feira, 23 de abril de 2019

Aldeias


Já não há alegria a correr por entre as ruas das aldeias. Já não se ouvem os gritos de pais preocupados porque os seus filhos caíram numa vala e esmurraram os joelhos. Já não se veem meninos e meninas a conviver e a chatear a cabeça aos idosos que os observam, sentados naquelas cadeiras de madeira, mesmo à frente das suas casas. Aldeias já não são aldeias.

As crianças preferem, agora, passar os seus tempos livres no conforto das suas casas, longe de todo o tipo de perturbações que a Mãe Natureza lhes possa proporcionar. Coitados, não sabem o que perdem! Mas que culpa têm eles disso? Nenhuma, pois é da responsabilidade dos seus pais a educação que lhes é dada. Os papás é que decidiram dar-lhes telemóveis, computadores e “videogames” para as mãos, tendo eles apenas oito anos de velhice.

Há quem diga que até pode ser bom para as crianças passarem mais tempo em casa: passam mais tempo com a família, é menor o risco de ficarem com um braço partido e poupam a pouca paciência que resta aos velhos que fazem a sesta à porta de casa.
Também há quem diga (eu) que tal opinião não tem qualquer sentido: os pais trabalham durante o dia; logo, as crianças, desesperadas por alguma companhia e atenção, apegam-se à tecnologia. 

Além disto, faz parte da infância ter constantemente os joelhos esmurrados até porque o que não nos mata torna-nos mais fortes! Já para não referir o aborrecimento que os velhinhos vão sentir quando apenas tiverem as moscas e mosquitos como companhia.
A verdade é que, infelizmente, aldeias já não são aldeias.
Mariana Duque
(12.º CT3)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Andar suja?




Quando vejo uma criança suja, posso, imediatamente, deduzir que é uma criança feliz.

Quando era mais nova, ia com a minha avó e o meu primo para a terra dela, a tão conhecida “terra abaixo da ponte”. Esta é uma terra enorme atrás da minha casa onde passa um curso de água, ou melhor, uma vala, que foi uma excelente piscina onde não só nadávamos nós, como também nadavam os peixes de que eu tinha tanto medo. Íamos para lá duas vezes por semana e era diversão garantida. 

À segunda e à quinta-feira lá íamos nós regar aquela imensidão de alfaces e tomates e outras hortícolas, de que nunca consegui saber o nome. Lembro-me tão bem de quando ela ligava o motor e começava a água a chegar ao pé de mim vinda de todos os lados… De repente, parecia que estava numa festa de verão onde os convidados eram terra e água. Tanta terra e tanta água no meu cabelo e na minha roupa!...

Chegava a casa e quando a minha mãe me via, apetecia-lhe colocar-me toda na máquina de lavar. Mas quando chegava ela dizia-me sempre: 
- Ó Mariana, que trabalho é esse?!
E eu com uma doce face respondia-lhe de imediato:
- Mas, mãe, sou tão feliz assim!

E é verdade: era a pessoa mais feliz do mundo.

Estar sujo não significa que sejamos pobres ou que não nos preocupemos com a nossa saúde (imagino que todos aqueles grãos de terra tenham algum impacto na minha saúde). Significa, sim, no meu ponto de vista, ser puro e ser feliz. Estar sujo (do modo que referi) é sinónimo de liberdade: sentia-me tão livre a correr terra acima, terra abaixo com o meu primo; sentia-me feliz porque, se ganhasse essas corridas, não poria a mesa para o jantar. E eu ganhava quase sempre!...

Sentir-me assim é tão bom que se torna um sentimento inexplicável.
Mariana Moreira
(12.º CT1)

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Por detrás das palavras que escrevo estou eu


Naquele dia, às seis horas da manhã, não havia mais nada naquela praia deserta da Califórnia além de muito vento e um céu cinzento que cobria toda aquela zona e que se perdia no horizonte. Diana caminhava entre o nevoeiro e a sua respiração tornava-se cada vez mais pesada à medida que se aproximava da linha de costa, à medida que ficava mais perto de fazer o que viera ali fazer. As ondas embatiam com força contra as rochas por baixo de si e ela, naquele momento, viu quão vulnerável e pequena era comparada com a grandeza da natureza. Em seguida, tirou o papel que tinha colocado na algibeira, respirou fundo duas ou três vezes e começou:

         – Meu querido, muitas vezes, ao longo dos últimos meses, procurei escrever-te algo sólido e sincero sem que me faltassem as forças e me desfizesse (novamente) em lágrimas. Muitas foram as vezes em que, sentada no parapeito da minha janela, olhava para cima e procurava por ti, numa tentativa desesperada de te encontrar na estrela mais brilhante do céu. Queria ver-te, falar-te, queria que visses que sinto a tua falta e que lamento... lamento muito não te ter dito tudo o que queria por não ter tido coragem...
A voz sumiu-se e, à medida que o vento lhe despenteava os cabelos, uma lágrima rendida escorreu-lhe pela face. Quando, por fim, conseguiu, ergueu a cabeça e prosseguiu:

         – Sei que agora estas minhas palavras não passam de uma sombra do que te deveria ter dito e não disse. Estou consciente de que palavras não passam de palavras, mas estas simples inocentes armas podem ser o refúgio de muitos que não têm coragem suficiente para dizer o que querem dizer. Eu sempre fui contigo o tipo de rapariga que se esconde nas sombras das palavras que escreve e isso, mesmo que não se note, sempre me magoou. Por que haveria eu de ter receio de ti – umas das pessoas com mais significado para mim? Desculpa-me por isto. Desculpa por não me ter conseguido libertar desta sombra e, por isso, ter ficado presa a ti todo este tempo. Mas, a partir de hoje, não; a partir de hoje, deixo-te para finalmente ir, liberto-te para que possamos encontrar o caminho de volta a casa. Posso não te ver, procurar por ti no mais estrelado dos céus e não te encontrar, não conseguir distinguir o teu sorriso nas centenas de rostos que vejo todos os dias, mas sei, porém, que aonde quer que vá, tu vens comigo, que caminhas a meu lado a dar-me força a cada passo do caminho. Digo-te agora, (desculpa a demora), o meu derradeiro adeus; sem mágoas, sem conversas inacabadas e de coração leve. Vemo-nos em breve.

Dobrou o papel e deixou-o simplesmente tomar o seu rumo pela imensidão do céu.

Sabia que não era preciso dizer mais nada, que, às vezes, o melhor que podemos fazer é deixar que o silêncio se instale para que se possa ouvir a voz do coração. Depois caminhou de volta a casa e, enquanto o vento lhe puxava os cabelos para trás, Diana sorria porque, de certa forma, tinha a certeza de que a mensagem havia sido entregue, porque ele, onde quer que estivesse, já não a via como a menina indefesa que ele deixara, mas sim como uma senhora que já não precisava mais de se esconder em qualquer sombra.
Mariana Pina Camarneiro