quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
"e-Contos" de autores portugueses
Já está completa a coleção dos contos de autores portugueses que o Diário de Notícias disponibilizou, ao longo de quatro meses, na sua biblioteca digital .
São 31 sugestões de leitura que a BE Clara Póvoa lhe deixa e a que pode aceder na estante mesmo aqui ao lado. Qualquer que seja o dispositivo ou o formato (pdf, ePub - para tablet / e-reader -, ou mobi - smartphone), deixamos-lhe, como sempre,
VOTOS DE BOAS LEITURAS!
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
letras e números: a eterna sedução?...
Embora tenham
evoluído por caminhos significativamente diferentes, parece que a escrita e os
números são contemporâneos de nascimento. Talvez por isso se defenda que a
matemática ensina também a escrever, quando se pretende que a concisão, a
clareza e a precisão sejam qualidades de estilo. Isto, porque a linguagem
matemática exige uma ginástica mental extremamente intensa. Talvez por isso,
também, é que existem matemáticos apaixonados pela escrita literária, como
Blaise Pascal, Henri Poincaré ou Charles L. Dogson, este último mais conhecido
por Lewis Carrol, pseudónimo sob o qual escreveu Alice no País das Maravilhas
(Alice's adventures in wonderland) [navegue aqui pelo manuscrito original].
Mas, se existem
matemáticos fascinados pelas letras, o inverso não é menos verdade. O escritor
Paul Valery possuía uma excelente cultura matemática, Dostoyevski e Stendhall
também revelam, em algumas obras, paixão pela senhora dos números, Jorge Luis
Borges incorpora conceitos e raciocínios matemáticos em alguns dos seus contos.
«A Biblioteca existe
ab aeterno. [...] O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou
dos demiurgos malévolos. [...]
O universo (que
outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez
infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro,
cercados por balaustradas baixíssimas.
[...]
não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam
limitado postulam que em lugares remotos os corredores e escadas e hexágonos
podem inconcebivelmente cessar - o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem
limites esquecem que os abrange o número possível de livros. Atrevo-me a
insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica.
Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim
dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada,
seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante
esperança.»
Embora possa ser
entendido como uma metáfora da Sociedade da Informação, o conto A Biblioteca de Babel é, na verdade, uma soberba metáfora, na qual mundo e literatura se confundem
numa suprema representação em imagens e conceitos matemáticos: um mundo
impregnado de uma linguagem simbólica à espera de ser interpretada, a realidade
representada numa imensa Biblioteca, plena de livros à espera de serem
decifrados (pela tal ginástica mental extremamente intensa, que naturalmente existem em cada um de nós...).
E, como sugestões de leitura, aqui fica um contador com títulos que não resistiram aos números...
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matemática
domingo, 20 de janeiro de 2013
poesia matemática: uma [quase] bonita história de amor
Poesia Matemática
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
números e [in]conceito de infinito... ou o olhar de "um outro universo"
Thales, Anaximandro, Anaxímenes... de Mileto, "substância primordial", "indeterminado", "começo e origem do existente", "infinito", Heraclito, "devir", "harmonia dos contrários", Pitágoras, relações entre números", "ordenação matemática do Cosmos"... um percurso histórico na busca do [in]conceito de infinito?
Aqui fica mais uma bonita discussão sobre o assunto:
O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. [...] Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.
Vou definir isto da maneira em que se definem as coisas indefiníveis – pela cobardia do exemplo. Uma das coisas que mais nitidamente nos sacodem na comparação de nós com os gregos é a ausência de conceito de infinito, a repugnância de infinito, entre os gregos. Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo inconceito. Vou contar, creio que com grande exactidão, a conversa assombrosa em que mo revelou.
Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de "O Guardador de Rebanhos", que não sei quem lhe tinha chamado em tempos "poeta materialista". Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse-lhe, contudo, que não era absurda de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
"Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião e portanto sem desculpa nenhuma."
Fiquei atónito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
"Mas isso a que v. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?"
E eu, desnorteado. "Mas v. não concebe o espaço como infinito? v. não pode conceber o espaço como infinito?"
"Não concebo nada como infinito. Como é que eu hei-de conceber qualquer coisa como infinito?"
"Homem", disse eu, "suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba... "
"Porquê?" disse o meu mestre Caeiro.
Fiquei num terramoto mental. "Suponha que acaba", gritei. "O que há depois?"
"Se acaba, depois não há nada", respondeu.
Este género de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.
"Mas v. concebe isso?" deixei cair por fim.
"Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer, e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?"
Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.
"Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número - 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior... "
"Mas isso são só números", protestou o meu mestre Caeiro.
E depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância:
"O que é o 34 na Realidade?"
Álvaro de Campos
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domingo, 13 de janeiro de 2013
janeiro, a ler [também] matemática
Se
não receio o erro é porque estou sempre disposto a corrigi-lo
Bento de Jesus Caraça
Começamos o dia com
a tormenta dos números: lá estão eles cravados no visor do despertador ("Já???!!!"),
continuam, depois, no fim dos ponteiros do relógio, na voz da rádio que nos
acompanha a caminho do trabalho, no mostrador do relógio do automóvel, este
parado por uma fila de que aquele não se compadece... e, sem darmos conta,
passamos o dia às voltas com números.
«Se o homem vivesse
isolado, sem vida de relação com os outros homens, a necessidade da contagem
diminuiria, mas não desapareceria de todo; a sucessão dos dias, a
determinação aproximada das quantidades de alimentos com que se sustentar e aos
seus, pôr-lhe-iam problemas que exigiriam contagens mais ou menos rudimentares.
Mas, à medida que a
vida social vai aumentando de intensidade, isto é, que se tornam mais
desenvolvidas as relações dos homens uns com os outros, a contagem impõe-se
como uma necessidade cada vez mais importante e mais urgente».
Afinal, mesmo sem
querermos, andamos sempre acompanhados pela matemática, essa senhora que tanta
dor de cabeça causa a alunos, educadores, pais... mas que a todos é
absolutamente essencial.
A Bilbioteca Escolar
ClaraPóvoa propõe, no início de 2013, que, em janeiro, também se leia
matemática. E começámos por escolher um matemático português: Bento de Jesus Caraça.
Homem de sólidas
convicções ideológicas, desenvolveu uma intensa actividade política em acções
contra o regime ditatorial de Oliveira Salazar (1889-1970). Além da carreira
académica brilhante, sobre ele diz Sebastião Silva que foi também «um
matemático humanista, que procurou humanizar o ensino da matemática, procurando integrá-lo
no complexo cultural da sua época e tornando-o fascinante» e apresentando a
matemática «com uma linguagem nova». São dele as palavras do excerto supra,
insertas no livro Conceitos fundamentais de matemática, cuja linguagem simples e clara seduz o leitor, convidando-o
a aventurar-se na descoberta do aparecimento dos números naturais
«[...] a maneira
como a contagem se faz; para pequenas coleções de objetos, é habitual contar-se
pelos dedos, e este facto teve grande influência no aparecimento dos números;
não é verdade que o nome dígito, que
designa os números naturais de 1 a 9, vem do latim
digitus que significa dedo? Mas há mais: - a base do nosso sistema de
numeração é 10, número de dedos das duas mãos. Nos povos primitivos de hoje,
essa influência é tão grande que, em certos nomes de números, figuram partes do
corpo humano - alguns dizem duas mãos em
vez de 10, um homem completo em vez de
20 (significando que, depois de esgotar os dedos das mãos, se conta com os dos
pés), etc.»;
na verificação de
que «as leis matemáticas traduzem a harmonia universal», seja no campo da
geometria, com o célebre teorema de Pitágoras,
seja no domínio da música, onde Pitágoras registou triunfos não menos notáveis
«Por experiências
feitas no monocórdio [instrumento com uma corda só e um cavalete móvel que
permite, deslocando-o, dividir a corda em dois segmentos na razão que se
quiser], ele verificou que os comprimentos das cordas que, com igual tensão,
dão notas em intervalo de oitavas, estão
entre si na razão de 2 para 1; em intervalo de quinta,
na razão de 3 para 2; em intervalo de quarta,
na razão de 4 para 3. Como Pitágoras deve ter vibrado de entusiasmo ao
verificar como até as relações de coisa tão subtil e incorpórea como o som - a
matéria, por excelência, da harmonia - se traduziam em relações numéricas
simples!».
Alguns dos seus escritos originais podem ser acedidos aqui.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
a ler...
... Os Miseráveis, de Victor Hugo. Um clássico de
convicção, humanismo e coragem.
Com a França de meados do século XIX como pano de fundo, Os
Miseráveis é um romance social marcado por uma vasta análise de
costumes, revelando uma grande complexidade tanto ao nível da escrita,
como da própria intriga, misturando-se intimamente realismo e romantismo.
Num contexto histórico que cobre o período entre a batalha
de Waterloo e as barricadas de Paris, Vítor Hugo apresenta-nos a história de
Jean Valjean, um popular prisioneiro condenado por ter roubado um pão e cuja
pena será agravada por tentativa de evasão. Em vez de ser reeducado pela
justiça humana para a vida civil, é endurecido no mal.
Esta história imbuída de misticismo e maravilhoso é, antes de mais, uma denúncia de todo o tipo de injustiças, espelhando, de forma exemplar, as contradições e grandezas daquele século.
... no cinema, já está em exibição o filme, numa adaptação
do célebre musical baseado na obra homónima do escritor Victor Hugo. A
dimensão social do romance, dos desgraçados da vida que lutam contra tudo e
todos por um futuro melhor, proporciona momentos de reflexão, num tempo
que parece querer trazer de volta, ao velho continente, a miséria da Europa
do século XIX.
Do enlenco destacam-se nomes como Hugh Jackman, Russell
Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen
que dão voz a bonitos temas musicais: “I Dreamed a Dream”, “Bring Him
Home”, “One Day More” e “On My Own”.
Livro recomendado no Plano Nacional de Leitura para os 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade, destinado a leitura autónoma.
Pode aceder aos 5 volumes do livro original aqui (.pdf ), ou fazer download do audiobook a partir daqui .
Qualquer que seja o formato, votos de boas leituras!
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Natal, tempo de contar e encantar
O Ser Humano desde
sempre gostou de contar e há hábitos que dificilmente se perdem, e ainda bem.
Em épocas de mais calma e tranquilidade, ao quentinho da lareira ou no
aconchego da família, os mais velhos continuam a gostar de lembrar histórias e
evocar memórias que deliciosamente povoam a imaginação da pequenada. Os contos
fantásticos continuam a fascinar os mais pequenos e são uma excelente
ferramenta educativa e formativa, de uso fácil e prazenteiro.
Porque o Natal
também é época de reunião e partilha, de contar e encantar, a Biblioteca
Escolar Clara Póvoa deixa algumas sugestões.
Hoje celebra-se o
200.º aniversário dos Contos de Grimm. A
Google apresenta um bonito doodle que,
através de uma sequência de imagens, conta a história d'O Capuchinho Vermelho.
Mas, como uma imagem
vale mais com mil palavras, propomos que conte e encante os pequeninos com as histórias d'O Capuchinho
Vermelho, d'O Ganso de Ouro, d'O Príncipe Sapo...

[clicar aqui, para aceder e ligar o som do PC]
Lembramos, ainda,
que a fábula continua a agradar ao imaginário infantil, e não só. Por isso,
sugerimos, também, as Fábulas de Esopo [pdf]
[clicar, para formato ePub]
E
divirtam-se com as atividades propostas para além dos contos, neste período de
FESTAS que se querem BOAS.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Natal, tempo de poesia
Natal também é tempo de poesia, qualquer que seja a cultura ou a fé, na figura de um Papai Noel às Avessas ou de um "Menino Jesus verdadeiro". Natal é tempo de reflexão e de Paz, de Justiça e Boa Vontade, é tempo de Alegria.
Revisitando Drummond de Andrade e Alberto Caeiro, aqui ficam dois bonitos poemas de Natal.
Papai Noel às Avessas
Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não
quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais
muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os
legumes.
Carlos Drummond de Andrade
Este poema foi publicado no livro "Alguma Poesia", Editora Pindorama, em1930, primeiro livro do autor.
Texto extraído de "Nova Reunião", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1983, pág. 24.
VIII
Num meio-dia de fim
de primavera
Tive um sonho como
uma fotografia.
Vi Jesus Cristo
descer à terra.
Veio pela encosta de
um monte
Tornado outra vez
menino,
A correr e a
rolar-se pela erva
E a arrancar flores
para as deitar fora
E a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais
para fingir
De segunda pessoa da
trindade.
[...]
Um dia que Deus
estava a dormir
E o Espírito Santo
andava a voar,
Ele foi à caixa dos
milagres e roubou três.
Com o primeiro fez
que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo
criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou
um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado
na cruz que há no céu
E serve de modelo às
outras.
Depois fugiu para o
sol
E desceu pelo
primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha
aldeia comigo.
É uma criança bonita
de riso e natural.
Limpa o nariz ao
braço direito,
Chapinha nas poças
de água,
Colhe as flores e
gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos
burros,
Rouba a fruta dos
pomares
E foge a chorar e a
gritar dos cães.
[...]
A mim ensinou-me
tudo.
Ensinou-me a olhar
para as coisas.
Aponta-me todas as
coisas que há nas flores.
Mostra-me como as
pedras são engraçadas
Quando a gente as
tem na mão
E olha devagar para
elas.
[...]
…………………………………………………
Ele mora comigo na
minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna
Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é
natural,
Ele é o divino que
sorri e que brinca.
E por isso é que eu
sei com toda a certeza
Que ele é o Menino
Jesus verdadeiro.
In O Guardador de Rebanhos
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando
Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
Cantando o Natal
De tradições também se faz a alma-memória de um Povo que fomos, somos e seremos.
Nesta época natalícia, de Festas que se desejam Boas, de Esperanças que se querem concretizadas, de Memórias que alimentam a alma e alentam a Vida, recordamos como e por que se canta(va) (n)o Natal.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
[homenagem] Biblioteca Escolar Clara Póvoa
Aconteceu, hoje, a
formalização pública da atribuição do nome Clara Póvoa à Biblioteca Escolar da
Escola Secundária do Agrupamento de Escolas FinisEsc, curiosamente (mas
sem qualquer intenção prévia), no mesmo dia em que se celebra o 120.º aniversário do bailado Quebra-Nozes, cuja personagem
principal também se chama Clara.
A professora
bibliotecária Clara Póvoa, a Clara, tal como a personagem, soube aproveitar bem
a magia do Quebra-Nozes que, em forma de
Vida, se lhe apresentou em Família, em Amor, em Amizade, em Trabalho, em
Humildade, em Sorrisos, em Coragem, em Doces...
E é justa a
homenagem, porque são muitos os sonhos
concretizados, são belas as imagens fixadas, é grande a obra que vemos.
Na nossa BE
permanece(rão)m lições e exemplos da vida que foi na Vida que é.
PARABÉNS, Clara!
[comemorações] 120.º aniversário do bailado "O Quebra-Nozes" (TCHAIKOVSKY)
Simplesmente lindo!
O doodle que a
Google apresenta hoje não podia ser mais bonito e oportuno.
O conto de natal de
Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, publicado em 1881, deu origem a um bailado com
música de Tchaikovski.
A ação decorre no
século XIX, na Europa Oriental, na casa de Jans Stahlbaum, que passa a noite de
Natal com a família e os amigos. Estes são aguardados com grande expectativa
por Clara, Louise e Fritz, filhos dos donos da casa, ansiosos por prendas.
Clara recebe do
padrinho, Drosselmeyer, o grande animador da festa, um lindo quebra-nozes em
forma de soldado. Os irmãos, com inveja, tiram-lhe o presente, acabando por
danificá-lo. O padrinho para consolar a afilhada, que ficara triste com o
sucedido, garante-lhe que tudo se resolverá.
Terminada a festa,
vão todos dormir. Clara acorda e vê que o Queba-Nozes ganhara vida. Como, na
sala, havia barulho de ratos, o soldadinho convoca os seus companheiros para
lutar contra eles e o seu rei. Depois de matar o rei, Quebra-Nozes
transforma-se num Príncipe e leva Clara a conhecer o Reino das Neves e o dos
Doces. Neste último, a Fada Açucarada organiza uma festa, onde dançam todas as
figuras do reino, em homenagem à menina. Por fim, Clara e o Príncipe regressam
a casa.
É uma forma bonita
de "contar" (n)o Natal, porque a magia encantatória da música clássica consegue trazer, a esta
época, a fantasia e o sonho.
O bailado completo pode ser visto aqui .
Deixamos um pouco do
bailado, no formato que os mais pequeninos gostam (um excerto da Disney Fantasy).
Bons contos, boas histórias e BOAS FESTAS!
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
[outras] leituras...
... a propósito de mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, desafiámos alunos a ler o mundo, à luz da DUDH.
Rabiscando leituras ou evocando cenas / acontecimentos de outrora de hoje, surgiram questões críticas a um mundo cada vez mais incoerente e incapaz de se equilibrar e de SER. Porque não chega apenas que se declare. É necessário, também, que se faça.
E é também por isso que insistimos na importância da(s) leitura(s), porque ela(s) desperta(m) consciência(s), constrói(em) o Ser e o Mundo.
Direitos do Homem?
Curiosamente, também neste dia a União Europeia recebeu o prémio Nobel da Paz, pelo papel na
transformação "de um continente de guerra em continente de paz"...
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Direitos Humanos
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
[pessoas] Ada Lovelace
Ada Augusta Byron King, Condessa de Lovelace (10 de Dezembro de 1815 - 27 de Novembro de 1852) é conhecida, sobretudo,
por ter escrito um programa que poderia utilizar a máquina
analítica de Charles Babbage.
Lady Lovelace, única
filha legítima do poeta britânico Lord Byron e sua esposa, Annabella,
é reconhecida como a primeira programadora
de toda a História. Durante o período em
que esteve envolvida com o projeto de Babbage, desenvolveu os algoritmos que permitiriam à
máquina computar
os valores de funções
matemáticas, além de publicar uma coleção de notas sobre a máquina
analítica.
Ada foi uma das
poucas pessoas que realmente entenderam os conceitos envolvidos no projeto de Babbage e, durante o processo de
tradução de uma publicação científica italiana sobre o projeto de Babbage, incluiu algumas notas
de tradução que constituem o primeiro programa escrito na história da
humanidade.
Em 1980, o
Departamento de Defesa dos EUA
registou a linguagem de programação Ada,
em sua homenagem.
sábado, 8 de dezembro de 2012
a ler...
... Anna Karenina, a épica história de amor, um clássico
de Leo Tolstoy.
Na Rússia do final
do século XIX, no seio da alta-sociedade e presa numa casamento sem amor, Anna
procura encontrar uma vida melhor, mas consegue apenas complicar a que já tem.
«Embora seja uma das
maiores histórias de amor da literatura mundial, Anna Karénina não é apenas um
romance de aventura. Verdadeiramente interessado por temas morais, Tolstoi era
um eterno preocupado com questões que são importantes para a humanidade em todas
as épocas. Bom, há uma questão moral em Anna Karénina, embora não aquela que o
leitor habitual possa crer que seja. Esta moral não é certamente o ter cometido
adultério, Anna pagou por isso (num sentido vago pode dizer-se que é esta a
moral do final de Madame Bovary). Não é isto, seguramente, por razões óbvias:
se Anna ficasse com Karenin e escondesse do mundo o seu affair, não pagaria por
isso primeiro com a felicidade e depois com a própria vida. Anna não foi
castigada pelo seu pecado (podia muito bem ter-se safado deste) nem por violar
as convenções da sociedade, muito temporais como aliás são todas as convenções
e sem ter nada a ver com as eternas exigências da moralidade. Qual era então a
«mensagem» moral que Tolstoi queria passar neste romance? Entendemo-la melhor
se olharmos o resto do livro e compararmos a história de Lévin e Kiti com a de
Vronski e Anna. O casamento de Lévin é baseado num conceito metafísico, não
apenas físico, do amor, na boa-vontade e no sacrifício, no respeito mútuo. A
aliança Anna-Vronski é fundada apenas no amor carnal e é aqui que reside a sua
ruína.»
Do Posfácio, por
Vladimir Nabokov
... no cinema, já está em exibição o filme, numa adaptação de Tom Stoppard (vencedor do Óscar de melhor argumento original em "A Paixão de Shakespeare"), com realização de Joe Wright e produção de Tim Bevan e Paul Webster.
Do enlenco de luxo destacam-se nomes como Keira Knightley, Jude Law, Kelly Macdonald, Matthew Macfadyen, Michelle Dockery, Aaron Johnson, Emily Watson, Olivia Williams, Ruth Wilson, Holliday Grainger...
Livro recomendado no Plano Nacional de Leitura, para os 10º, 11º e 12º anos de escolaridade, destinado a leitura autónoma.
Pode aceder ao livro aqui (.pdf ) ou aqui (.epub)
Qualquer que seja o formato, votos de boas leituras!
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Sabia que...
... a primeira mensagem
SMS («Short Message Service») foi
enviada, de um PC para um Orbitel 901, através
da rede Vodafone, no dia 3 de dezembro de 1992, no Reino Unido, por Neil
Papworth, um engenheiro de 22 anos, para o diretor da empresa de
telecomunicações britânica?
Pois é verdade! E o
texto dizia, simplesmente, "Merry
Christmas".
Da simples mensagem
pessoal à provocação de flash mobs, os
SMS rapidamente conquistaram um lugar de destaque na comunicação.
As camadas mais
jovens, fascinadas pela tecnologia,
aderiram espontaneamente a este
tipo de comunicação, adaptando o código linguístico à necessidade de aproveitar
ao máximo o limite de 160 carateres, inicialmente estabelecido para restringir
o número de dados a serem transmitidos, e criando uma variante linguística (além das abreviaturas e emoticons) com um já elevado grau de convencionalidade
de "regras".
As redes sociais
vieram possibilitar a extensão do conceito e já poucas dúvidas restam quanto ao
facto de os SMS estarem a a mudar a forma de escrever, e de pensar, de muitos
jovens.
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sexta-feira, 30 de novembro de 2012
"Sê plural como o universo!"
Liberto em múltiplo,
Fernando Pessoa viveu uma incessante [auto]interpretação do Ser. Fragmentou-se,
revelando as máscaras infinitas em que o ser humano se finge e se integra. E foi, talvez, essa coragem de revelar um
Caeiro simples, um Reis egoísta ou um Campos indisciplinado e turbulento, que sempre [co]existem em
cada um de nós, que o tornou esse Poeta maior da Literatura.
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo
e sinto, um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da
alcova em que sou atual destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de
noturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só-ela a paisagem daquele
outro mundo...
Outras vezes, este quarto estreito é apenas uma cinza
de bruma, no horizonte d'essa terra diversa... E há momentos em que o chão que
ali pisamos é esta alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher. . .
Um grande cansaço é um fogo negro que me consome. . . Uma grande ânsia passiva
é a vida que me estreita. . .
Ó felicidade baça...
Para
o conhecer um pouco melhor, aqui ficam sugestões de encontros com o Poeta,
desde o Cancioneiro, à
Mensagem, passando pel' O Banqueiro Anarquista, O Eu profundo e os outros Eus, Poesias Inéditas...
... e um bonito poema
Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
10
-
9
-
1930
In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa morreu a 30 de novembro de 1935, em Lisboa.
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quarta-feira, 21 de novembro de 2012
A caixa que mudou o mundo...
... tem hoje, dia 21, o seu Dia Mundial.
A pequena caixa mágica ligou-se, pela primeira vez em Portugal, em 1957. A preto e branco e apenas com um canal: a
RTP.
Atrevida, foi
entrando, de mansinho, nas nossas casas, nas nossas vidas, na nossa
mentalidade. Mais atrevida, ainda, depois de 1974, quando se nos abriu
abruptamente em janela para um mundo conhecido apenas de um punhado de nós. E
permitiu-nos crescer em conhecimento, construiu-nos rapidamente em democracia,
orientou-nos visões e leituras... Como
seríamos sem ela? Iguais? Melhores? Diferentes, certamente!
Muito da história da
Televisão em Portugal pode ser visitada no museu virtual. Aqui fica o nossoconvite.
Mas (re)lembramos
também três marcos de gerações, importantes na aprendizagem que a TV nos
proporcionou.
Gabriela
Rua Sésamo
Dragon Ball
Porque vale a pena lembrar.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012
16 de novembro...
... Dia Internacional da Tolerância.
Desafiámos a sensibilidade dos alunos à diferença, à compreensão, à aceitação... e ficou assim:
Desafiámos a sensibilidade dos alunos à diferença, à compreensão, à aceitação... e ficou assim:
E ficou muito bonito!
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Boletim Bilbiográfico n.º 40
A Biblioteca propõe, em colaboração com o Departamento de Línguas, uma lista de livros / sugestões para a realização da atividade curricular Contrato de leitura.
Boas escolhas e boas leituras!
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012
[comemorando] 150 anos de "Amor de Perdição" - 1
A Direção-Geral da Educação acaba de lançar o primeiro episódio da fotonovela digital Amor de perdição - uma fotonovela dos tempos modernos, para assinalar os 150 anos da edição da obra mais conhecida de Camilo Castelo Branco.
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