quinta-feira, 21 de março de 2013

[comemorando] 21 de março [1]...

... a primavera e o dia mundial da árvore.

A primavera (também a "da vida") é uma bonita estação. O sol, embora envergonhado, teima em se impor e o verde é uma realidade, onde já despontam milhares de cores das mais diversas plantas. 
Recordar a primavera de Vivaldi sabe sempre bem.





Lembrar que a árvore é nossa companheira indispensável é também importante, como lhe é importante a água que a alimenta e que, também para nós, é vida. Mesmo representada numa pequena gotinha.





Porque qualquer relação com livros e leituras não é mera coincidência.

[comemorando] 21 de março...

... dia mundial da poesia.
Sobre poesia, muito se poderia dizer. Sobre poesia, já está (quase) tudo dito, escrito, cantado... ou talvez não. Tudo depende do conceito de poesia.


Se eu gosto de poesia?
Gosto de gente, bicho, plantas,
lugares,  chocolate, vinho, papos
amenos, amizade, amor. Acho
que a poesia está contida nisso tudo.
Drummond de Andrade


Como sugestão de leitura, deixamos 

- algumas flores de Florbela Espanca
Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo...
[...]
Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia... 


- palavras de um retirante , de João Cabral de Melo Neto

Canções, de António Botto, e

- a poesia mais bonita: a que escrevivemos no dia a dia.



[homenageando] Rafael Bordalo Pinheiro...


..., nascido a 21 de março de 1846.

Sobre si próprio: "Nunca cursei academias. Tenho o curso da Rua do Ouvidor...Cinco anos. Canto de ouvido".  O seu olhar crítico e malicioso leva-o à caricatura de uma vasta galeria de figurões políticos e sociais. 

A Google presta-lhe homenagem com um doodle que releva a criação que melhor o identifica: o Zé Povinho.

Personagem intemporal, desalinhado em energia, na retórica e na postura, o Zé Povinho desenha-se no traço grosseiro da robustez que caricatura o nosso colectivo.


Rindo ou gesticulando em descaramentos, intervém ora vitimizando-se e submetendo-se, ora como alerta de consciências não libertas de preconceitos. Entre a boémia e o laicismo, a actualidade de Seu Zé Povinho não se esgota naquilo que configura a sua personalidade popular; pelo contrário, transborda da tipificação para a excelência do pretexto que aponta ao comentário e à crítica. Não poupando nada, nem ninguém, não se contém em sarcasmos perante os factos políticos sociais e institucionais. 

A sua intervenção opinativa na vida do país revela-se miticamente como reflexo de desejos, sentimentos e necessidades que se descobrem pela praxis. Controversa e metafórica, a figura do Zé Povinho cresce na ambiguidade que se joga entre o cinismo social e a revolta genuína. Decorre da impotência que se denuncia no manguito e que exorciza com a sabedoria popular o acto de cruzar os braços. 

De apelido Povinho, diminutivo de todos nós, Seu Zé nasce com respeito contraditório do que está para além de senhor (Seu) e do que está aquém do diminutivo dobrado (Zé e Povinho). Rapidamente se torna familiar perdendo o trato deferente e incorporando o todo das características tipificadoras das gentes portuguesas. Deformado e deformador impõe-se com o vigor que o eco da popularidade nacional lhe confere. Com argúcia desvenda a injustiça e o grotesco, mas é, no entanto, com paciência e submissão que digere o seu próprio destino. 


quarta-feira, 20 de março de 2013

Depois de ler...

... desafiámos os alunos a escrever sobre os livros que leram, a partir de / para além de uma lista.
Este Boletim da Biblioteca está particularmente recheado de impressões, imagens, sensações e, sobretudo, crescimento e aprendizagem. Porque é este o poder do livro e da leitura.

A book is the most effective weapon against intolerance and ignorance.

Lyndon Baines Johnson


quinta-feira, 14 de março de 2013

pedaços de mar d'aquém e d'além

Mar.

Sedutor que nos beija o corpo com a mesma suavidade com que enrola na areia. Cruel rebenta nas rochas com a mesma dor com que nos bate na alma.

Mar.

Escrito, dito, cantado... sempre profundamente sentido, e em pedaços (re)lido.


Leonor Campos de Melo

Myebook - pedaços de mar d'aquém e d'além - click here to open my ebook

segunda-feira, 11 de março de 2013

na semana da leitura...

... aqui ficam propostas / sugestões de leitura: livros, audiolivros, dvd's... um pouco das muitas novidades que vão chegando à Biblioteca Escolar Clara Póvoa.



Boas leituras!

quarta-feira, 6 de março de 2013

vai acontecer...


..., de 11 a 15 de março, a Semana da Leitura

O Mar vai ser tema para exposições, escritas, leituras, conversas, música, viagens por rotas de vida e perspetivas de futuro, partilha de experiências e vivências num Mar que também é da Vida.

No dia 15 de março, pelas 21:30, terá lugar um Sarau Literário e Musical, no Auditório da Biblioteca Municipal, com entrada livre.
Esperamos por si.





Pode consultar aqui informação mais detalhada.

sábado, 2 de março de 2013

pelos caminhos das ciências...



...VIDA.
Complexidade. Desordem. Caos. Integração. Sensibilidade. Sonho. Self...
Conceito de definição difícil, tem sido, ao longo da existência humana, motivo e alvo de busca tão intensa quanto polémica. Têm sido inúmeros os cientistas (das ciências exatas e das ciências humanas) a perseguir a compreensão, ao mais ínfimo detalhe, do conteúdo holístico desse vocábulo de apenas quatro letras: V-I-D-A
Rosalind Franklin entende que "Science and everyday life cannot and should not be separated. Science, for me, gives a partial explanation of life. In so far as it goes, it is based on fact, experience, and experiment. . .". Rosalind foi pioneira da Biologia Molecular, pois, através da difração dos raios X, concluiu que o DNA (ácido desoxirribonucleico, composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos e alguns vírus, e cujo principal papel é armazenar informação genética) tinha forma helicoidal. Foi precioso este contributo para a compreensão da VIDA, pois permitiu que, a 7 de março de 1953, James WatsonFrancis Crick tenham descoberto a estrutura da molécula do DNA, o que lhes valeu o Prémio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1962.


Neste livro, Watson resume os principais acontecimentos que marcaram a biologia, desde os experimentos pioneiros de Mendel e da busca pela eugenia, até às pesquisas mais recentes sobre o funcionamento da molécula de DNA e a intervenção genética. E mostra como a interferência no genoma de outros organismos abre as portas não só para a biotecnologia e para o advento dos transgénicos, mas também para a terapia génica e a medicina do futuro e as consequentes implicações éticas.


Outras tentativas de compreensão de VIDA surgem no livro A Serpente Cósmica, o ADN e a Origem do saber.

Ao estudar a ecologia de um povo indígena da Amazónia peruana, o antropólogo Jeremy Narby vê-se confrontado com um enigma: os índios, cujos conhecimentos botânicos espantam os cientistas, explicam-lhe invariavelmente que o seu saber provém das alucinações induzidas por certas plantas.

«Eis, portanto, pessoas sem microscópios electrónicos nem formação em bioquímica que escolhem as folhas de um arbusto entre as cerca de oitenta mil espécies amazónicas de plantas superiores, contendo uma hormona cerebral precisa, que combinam com uma substância que bloqueia a acção de uma enzima precisa do aparelho digestivo, encontrada numa liana, a fim de modificar deliberadamente o seu estado de consciência.
É como se conhecessem as propriedades moleculares das plantas e a arte de as combinar.[...]
Tal como as serpentes mitológicas, o ADN é um mestre de transformação: as instruções contidas no ADN são responsáveis pelo ar que respiramos, a paisagem que vemos e a espantosa diversidade dos seres vivos da qual fazemos parte. Em quatro mil milhões de anos, o ADN desmultiplicou-se num número incalculável de espécies diferentes, enquanto permanecia rigorosamente o mesmo.»

Aqui se pode compreender um pouco mais sobre a anatomia e estrutura do DNA.

O DNA desempenha um papel cada vez mais importante na sociedade e no mundo em que vivemos. Conhecêmo-lo, também, em algumas séries televisivas. Deixamos, então, uma proposta de interação com situações em que o DNA é crucial: sob a supervisão do DR. Gil Grissom aceda aqui e ajude um dos agentes CSI a desvendar um caso enigmático.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

[homenageando] José Afonso...



... no dia em se completam 26 anos da sua partida.

Quaisquer palavras em sua homenagem ficarão sempre aquém das que nos deixou, mensagens de consciência alerta e verticalidade.
Poeta de intervenção, defensor da liberdade, cantor de belos poemas que na alma nos soam na sua voz singular, recordamo-lo em


e também em



Porque «há homens que obrigam todos os outros a reverem-se por dentro!»

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

dos números à simbologia de saber / sabor popular



Vivemos rodeados de símbolos.
Resíduos de mistérios, crenças ou rituais antigos, os símbolos vivem e convivem connosco nas interpretações e relações que, intencional ou inconscientemente, estabelecemos entre imagens, gestos, objetos, números... e a realidade que nos invade a mente e a vida.
Enraizados na cultura e na sociedade onde crescemos e nos construímos, os símbolos afetam-nos ou não, consoante a nossa capacidade de discernimento e racionalização. Sem nos deixarmos inebriar pela milenar carga fantástica e mágica que, muitas vezes, transportam, podemos permitir que nos seduzam, que nos estimulem a sensibilidade e a imaginação e nos sugiram leituras e interpretações das experiências e vivências quotidianas capazes de harmonizar o interior de cada um de nós.
Talvez tenha sido este aspeto que os manteve vivos na memória coletiva, na voz e no saber popular. Entre os muitos símbolos que povoam a nossa cultura, quisemos dar particular relevo à simbologia dos números.
Sem pretender qualquer exploração exaustiva quer dos números com maior ocorrência, quer da sua interpretação simbólica, escolhemos 
- o número 2, símbolo de oposição / conflito, é o número de todas as ambivalências. Simboliza o dualismo, por antagonia (uma rivalidade, uma oposição) ou por reforço (uma imagem dupla multiplica o seu valor simbólico);
o número 7, universalmente o símbolo de uma totalidade em movimento (ideia implícita, também nos seus múltiplos e derivados). Considerado o número da conclusão cíclica e da sua renovação (sete dias tem o ciclo semanal, sete são os graus da perfeição...), o 7 comporta uma ansiedade pelo facto de indicar a passagem do conhecido para o desconhecido: a um ciclo que se encerra, o que se seguirá? Dele dizia Hipócrates que, "pelas suas virtudes escondidas, mantém no ser todas as coisas; dá vida e movimento";
e o número 1000, que possui  um significado paradisíaco, é a imortalidade da felicidade: os dias da árvore da vida eram de mil anos; mil anos viveriam os justos; Adão deveria ter vivido mil anos... se não tivesse pecado.
Foram, talvez, interpretações como estas, ou muitas outras possíveis, que mantiveram os números tradicionalmente presentes na expressão de sentimentos mais íntimos ou nas críticas mais brejeiras.






As quadras foram gentilmente cedidas pelo professor Paulo Melo, que as selecionou de entre as inúmeras que integram o seu trabalho de recolha e compilação.

                                                                                                                                                                 Para saber mais sobre símbolos e mitos, da nossa ou de outras culturas, visite a BritannicaEncyclopedia ou consulte o  Dicionário dos Símbolos.



domingo, 17 de fevereiro de 2013

mudam-se os tempos, "mudam-se as tabuadas"




Quem se recorda desta imagem?
Era com esta ferramenta de aprendizagem (um livrinho pequenino, em papel) que os mais pequenos eram iniciados nas operações de adição, subtração, multiplicação e divisão. A principal (e a que mais atormentava alunos e professores) era a tabuada da multiplicação. Todavia, sabê-la era (e continua a ser) muito útil quer na aprendizagem escolar, quer na vida para além da escola.

E o método para a aprender?
Sim, era através da memorização, tão apoiada na cantilena ritmada. E, quem melhor a soubesse, mais facilmente se via livre de problemas como estes:





Mudaram os tempos, mudaram os métodos e até os suportes dos recursos e das ferramentas de aprendizagem são in/discutivelmente mais interessantes. Embora a tabuada mantenha o seu lugar cativo na aprendizagem, cantada ou nem por isso, os contextos de aprendizagem, num mundo cada vez mais digital, são também apoiados por sedutoras aplicações digitais a que o fascínio dos mais jovens não resiste. E se essa tecnologia os acompanha diariamente, por que não aproveitar-lhe as potencialidades para provocar aprendizagem?





É uma aplicação gratuita para iPhone e iPad, que favorece a aprendizagem da tabuada e desenvolve o cálculo mental.
A aplicação está construída na lógica de gameplay e está estruturada em 11 níveis de dificuldade, o que torna mais desafiante a resolução de problemas.




Porque aprender matemática também pode ser divertido!





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

em dia de namorar...



... recordamos os lenços de namorados, lindíssimas obras de arte saídas das mãos de hábeis moçoilas, pinturas a agulha e linha de mil cores, expressão de sentimentos sinceros e cuja pureza da linguagem descura um ou outro erro ortográfico. Porque o importante era oferecer o lenço ao rapaz, rezando, ao santo da devoção, para que ele o usasse, ao pescoço ou no bolso, com a ponta de fora.






Fica, ainda, como sugestão

1 - o "Namoro", de Sérgio Godinho







2 - "Amo-te Para Sempre", um conto de Fernando Alvim (publicação do Diário de Notícias)





















3 - "Um Romance", um conto de Rui Zink, (publicação do Diário de Notícias).





















E, como a janela das serenatas de outrora é agora outra, convém continuar a ter cuidado com as quedas...

Happy Valentine's Day!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

[outras] leituras...



... de viagens por histórias e memórias de encantar,
... de momentos de fantasia e sonho,
... de personagens mágicas,
... de imaginação livre,
... de criatividade sem limites...

que vale sempre a pena [revi]ver...




... porque o livro continua a ter o poder de fazer sonhar!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Safer Internet Day 2013 - ser cidadão digital



Vivemos, hoje, entre mundos tão diferentes quanto interligados.
Clicando nos ligamos e desligamos, fazemos um like, partilhamos informação (pessoal ou alheia), twitamos, blogamos, facebookamos...  Assim mesmo, tal e qual. E já não (sobre)vivemos sem a tecnologia digital, sem os modern media. Pois é: somos cidadãos digitais. 
Mas seremos mesmo? Será que que SOMOS no mundo online com a responsabilidade e a consciência necessárias à segurança, à privacidade, à intimidade que tanto prezamos na sociedade e no mundo offline?

Hoje (5 de fevereiro) comemora-se o Dia Europeu da Internet Mais Segura 2013, sob o tema “Direitos e deveres online: liga-te, mas com respeito”.

A BE Clara Póvoa assinala a data, lembrando as dez principais regras da Netiquette e alguns princípios de cidadania digital:
• utiliza as TIC para te relacionares com os outros de forma positiva;
• utiliza as TIC  com honestidade, integridade e ética;
• respeita a privacidade e a liberdade de expressão no mundo digital;
• promove os valores da cidadania digital.



Fica, também, a sugestão do ebook

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

[homenageando] Rosa Parks


Se fosse viva, completaria hoje (4 de fevereiro) 100 anos. E, certamente, que os celebraria com a mesma verticalidade de princípios com que, no dia 1 de dezembro de 1955, se recusou a ceder, a um passageiro branco, o seu lugar no autocarro em que ambos viajavam. Como ela própria referiu, "People always say that I didn't give up my seat because I was tired... the only tired I was was tired of giving in".

Conheça melhor uma das pioneiras na defesa dos Direitos Humanos na enciclopédia Biography

Aqui fica uma pequena animação sobre a história de Rosa Parks.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

[divulgando] trabalhos de alunos


O triângulo de Pascal é famoso, em matemática, pelas sua simetria e suas relações escondidas.
As muitas ligações do triângulo de Pascal com outros ramos da matemática tornam-no um venerável objeto matemático, cujas origens remontam ao século XIII, pois já nesta altura era conhecido pelos sábios chineses.

O triângulo de Pascal é conteúdo do 12.º ano, da disciplina de matemática, integrado no tema PROBABILIDADES E COMBINATÓRIA, a propósito do cálculo combinatório: Combinações (exemplo de uma técnica de contagem) e suas propriedades

O que ensinam, então, os professores aos alunos?


Triângulo de Pascal





E aqui ficam alguns resultados da aprendizagem:


Triângulo de Pascal [trabalhos de alunos]

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"e-Contos" de autores portugueses


Já está completa a coleção dos contos de autores portugueses que o Diário de Notícias disponibilizou, ao longo de quatro meses, na sua biblioteca digital .
São 31 sugestões de leitura que a BE Clara Póvoa lhe deixa e a que pode aceder na estante mesmo aqui ao lado. Qualquer que seja o dispositivo ou o formato (pdf, ePub - para tablet / e-reader -, ou mobi - smartphone), deixamos-lhe, como sempre, 

VOTOS DE BOAS LEITURAS!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

letras e números: a eterna sedução?...





Embora tenham evoluído por caminhos significativamente diferentes, parece que a escrita e os números são contemporâneos de nascimento. Talvez por isso se defenda que a matemática ensina também a escrever, quando se pretende que a concisão, a clareza e a precisão sejam qualidades de estilo. Isto, porque a linguagem matemática exige uma ginástica mental extremamente intensa. Talvez por isso, também, é que existem matemáticos apaixonados pela escrita literária, como Blaise Pascal, Henri Poincaré ou Charles L. Dogson, este último mais conhecido por Lewis Carrol, pseudónimo sob o qual escreveu Alice no País das Maravilhas (Alice's adventures in wonderland) [navegue aqui pelo manuscrito original].
Mas, se existem matemáticos fascinados pelas letras, o inverso não é menos verdade. O escritor Paul Valery possuía uma excelente cultura matemática, Dostoyevski e Stendhall também revelam, em algumas obras, paixão pela senhora dos números, Jorge Luis Borges incorpora conceitos e raciocínios matemáticos em alguns dos seus contos.

«A Biblioteca existe ab aeterno. [...] O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos. [...]
O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas.
[...]  não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado postulam que em lugares remotos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar - o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites esquecem que os abrange o número possível de livros. Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.»

Embora possa ser entendido como uma metáfora da Sociedade da Informação, o conto A Biblioteca de Babel é, na verdade, uma soberba metáfora, na qual mundo e literatura se confundem numa suprema representação em imagens e conceitos matemáticos: um mundo impregnado de uma linguagem simbólica à espera de ser interpretada, a realidade representada numa imensa Biblioteca, plena de livros à espera de serem decifrados (pela tal ginástica mental extremamente intensa, que naturalmente existem em cada um de nós...).

E, como sugestões de leitura, aqui fica um contador com títulos que não resistiram aos números...



domingo, 20 de janeiro de 2013

poesia matemática: uma [quase] bonita história de amor

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

                          Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

números e [in]conceito de infinito... ou o olhar de "um outro universo"


Thales, Anaximandro, Anaxímenes... de Mileto, "substância primordial", "indeterminado", "começo e origem do existente", "infinito", Heraclito, "devir", "harmonia dos contrários", Pitágoras, relações entre números", "ordenação matemática do Cosmos"... um percurso histórico na busca do [in]conceito de infinito?

Aqui fica mais uma bonita discussão sobre o assunto:


O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. [...] Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.
Vou definir isto da maneira em que se definem as coisas indefiníveis – pela cobardia do exemplo. Uma das coisas que mais nitidamente nos sacodem na comparação de nós com os gregos é a ausência de conceito de infinito, a repugnância de infinito, entre os gregos. Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo inconceito. Vou contar, creio que com grande exactidão, a conversa assombrosa em que mo revelou.
Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de "O Guardador de Rebanhos", que não sei quem lhe tinha chamado em tempos "poeta materialista". Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse-lhe, contudo, que não era absurda de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
"Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião e portanto sem desculpa nenhuma."
Fiquei atónito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
"Mas isso a que v. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?"
E eu, desnorteado. "Mas v. não concebe o espaço como infinito? v. não pode conceber o espaço como infinito?"
"Não concebo nada como infinito. Como é que eu hei-de conceber qualquer coisa como infinito?"
"Homem", disse eu, "suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba... "
"Porquê?" disse o meu mestre Caeiro.
Fiquei num terramoto mental. "Suponha que acaba", gritei. "O que há depois?"
"Se acaba, depois não há nada", respondeu.
Este género de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.
"Mas v. concebe isso?" deixei cair por fim.
"Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer, e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?"
Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.
"Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número - 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior... "
"Mas isso são só números", protestou o meu mestre Caeiro.
E depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância:
"O que é o 34 na Realidade?"
Álvaro de Campos