quinta-feira, 13 de junho de 2013

[celebrando] 125...



... velas, no bolo de aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, que se celebra hoje, dia 13 de junho.
Integrada nas comemorações está a publicação do livro Fernando Pessoa & Ofélia Queiroz - Correspondência  amorosa completa, cuja organização é da responsabilidade de Richard Zenith, que integra 348 documentos, transcritos integralmente, dos  quais 156 são inéditos.

Então, como começou o namoro?

Ophélia Queiroz é admitida, com 19 anos, no escritório onde Fernando Pessoa trabalhava como colaborador. 

       Um dia faltou a luz no escritório. [...] O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o, e pô-lo em cima da minha secretária.
       Um pouco antes da hora da saída, atirou-em um bilhetinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique.» Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura, já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu, confesso, também lhe achava uma certa graça...
      Lembro-me que estava de pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia:«Oh, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até ao último extremo, acredita!»
       Fiquei perturbadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer palavra, beijou-me, beijou-me, apaixonadamente, como louco.
       Fui para casa [...]. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi escrever-lhe uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta [...]. Assim começámos o namoro. [1]

Eis a carta em questão, a primeira carta de amor de Fernando Pessoa.

Ophelinha:

       Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.
       Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação — creio eu — de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
       Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
       Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal — nem a si, nem a ninguém —, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
        Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.
      Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...
       Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.

1.3.1920.

Fernando Pessoa

[1]in Queiroz, C. (1936) Homenagem a Fernando Pessoa. Coimbra: Ed. Presença.

E foi assim, em verso, o despertar de uma verdadeira paixão amorosa.

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos,
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida,
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p'ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.
[...]

Fernando Pessoa


segunda-feira, 10 de junho de 2013

[comemorando] 10 de junho...

... dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

De Camões, conhecemos sofridos momentos de vida e bonitos poemas de amor. 

Não sei se me engana Helena,
se Maria, se Joana,
não sei qual delas me engana.

Üa diz que me quer bem,
outra jura que mo quer;
mas, em jura de mulher
quem crerá, se elas não crêm?
Não posso não crer a Helena,
a Maria, nem Joana,
mas não sei qual delas me engana.

Üa faz-me juramentos
que só meu amor estima;
a outra diz que se fina;
Joana, que bebe os ventos.
Se cuido que mente Helena,
também mentirá Joana;
mas quem mente, não me engana.
Luís de Camões 

Conhecemos, também, a sua obra maior: Os Lusíadas.

[ e-Pub (para ler no PC, utilize o Adobe Digital Editions);  Kindle ]

Em dia de Portugal e de Camões, será que ainda vale a pena (re)lembrar / (re)ler a obra em que o poeta canta a coragem de um povo que, em «perigos e guerras esforçados», passou «ainda além da Taprobana»?  Ainda valerá a pena ler Os Lusíadas? Sim, vale.
Homem culto, lúcido e consciente da época em que viveu, Camões soube glorificar a sua Pátria, relevando as raízes da raça que somos, os valores e princípios que nortearam todos aqueles que lutaram pela essência de SER Português, mas não sem deixar de expressar a dor sentida pela atitude dos seus contemporâneos e pelo estado em que se encontrava a sua Pátria: «metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Düa austera, apagada e vil tristeza».

Em dia de Portugal e de Camões, é importante registar que, no mar traiçoeiro da Vida, é também essa coragem, essa determinação, essa ânsia e o sonho de Além, registadas n' Os Lusíadas, que voltam a incitar à partida «por mares nunca de antes navegados», mesmo enfrentando ventos adversos, adamastores cruéis ou Bacos invejosos e traiçoeiros. 

Em dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, é importante lembrar que a Alma-Pátria, ainda que pelo mundo em pedaços repartida, será sempre em PORTUGUÊS, a Língua em que Camões escreveu quem fomos-somos-seremos e que nos une em qualquer ponto dos cinco continentes.

Em dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, leia / releia / relembre o Amor da "linda Inês", as deusas da "ilha fresca e bela", a sedutora beleza de Vénus, que intercede, junto de Júpiter, por amor "deste povo" que é seu... porque, de Amor e da Mulher, também se canta n' Os Lusíadas.
LM

sexta-feira, 7 de junho de 2013

a ler... em férias


        «Lá longe, a linha do azul líquido e límpido aguçava uma vontade infinita de viajar. O mar, tranquilo e liso ia e vinha em rolos de espuma fresca na orla de areia dourada.
        Através da vidraça, o sol teimava de carícias e afagos sedutores e a frescura da sala convidava à leitura e ao enleio na trama… da vida?! Há quantos anos conhecia Inês? “Sê bem-vinda!” rasgara um sorriso de sólida amizade e confiança por longas horas-dias de actividades e canseiras saboreadas na satisfação de realização pessoal e profissional… e o polegar atrevido abria sorrateiramente o livro esquecido no colo. Inadvertidamente, Luís António surge da página 157, tão elegante e glamuroso quanto irascível.
       Tinha de ser ele! Logo ele que tanto se parecia com… E por que insistia agora este também em atormentá-la? Afinal, nunca compreendera o seu propósito, nunca conseguira entender a origem daquela suspeita infundada, aquela discussão descabida...»

Leonor Campos de Melo



Aqui ficam sugestões de leitura para acompanhar as merecidas férias. Estes e outros livros podem ser requisitados na Biblioteca Escolar Clara Póvoa.

Boas Férias e Boas Leituras!


sexta-feira, 31 de maio de 2013

[divulgando trabalhos de alunos] saber ler, saber pensar...saber SER consciente

       A propósito dos conteúdos curriculares da disciplina de Economia C, os alunos da turma CSE, do 12.º ano, foram desafiados a realizar trabalhos sobre o estado do ambiente em Portugal.

       Aqui fica o resultado das pesquisas, das leituras, da observação do mundo, da aprendizagem...



quarta-feira, 22 de maio de 2013

flores... na pressa dos dias



O sol voltou.
Lá fora, radioso e acariciador, rouba-me qualquer réstia de vontade para cumprir a tarefa que tenho pela frente...
Vou colher flores!
Preciso delas, preciso de sol, preciso de ar.

São tão bonitas!
Como se chamam? Não sei. Apenas conheço as rosas.
Na pressa dos dias, o nome das flores não me interessa. Basta-me o aroma,  a beleza e a paleta das suas cores. Isto me basta para me lavar os olhos e alimentar a alma.  Isto me basta para continuar a fazer crescer outras flores que com estas diariamente (con)vivem...

Onde as colhi? Na escola, nos espaços em volta. E hoje, ao sol, estavam singularmente bonitas e sorridentes para quem as olhava...
LM




Para saber como cuidar de flores e plantas, fica a sugestão deste livro, que pode requisitar na BECP.




E fica a lembrança-sugestão de leitura de um Rio das Flores, para saborear ao sol.



quinta-feira, 16 de maio de 2013

[divulgando] Temos obrigações morais para com os mais pobres?



A Escola Secundária propôs-se ao concurso PORDATA, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o trabalho dinamizado pelos professores das disciplinas de Economia A e de Filosofia e subordinado ao tema Temos obrigações morais para com os mais pobres? 
Enquadrando as finalidades curriculares de ambas as disciplinas com os objetivos do concurso PORDATA, foi objetivo dos professores que os alunos usassem, de forma crítica e interpretativa, os dados estatísticos disponíveis na PORDATA, de forma a produzir um todo analítico coerente. O professor de Economia A orientou os alunos, sobretudo na identificação, seleção e análise da informação estatística que permitiu a caracterização do estado da pobreza em Portugal. A professora de Filosofia trabalhou com os alunos a construção de um esquema orientador e integrado do trabalho, que permitisse uma reflexão crítica e filosófica sobre os dados empíricos coligidos. Os trabalhos foram integrados processo de ensino e aprendizagem das disciplinas, responderam a objetivos programáticos, tanto no domínio das competências como no dos conteúdos, e foram incluídos na avaliação das disciplinas, tendo sido atribuída a mesma classificação nas duas disciplinas envolvidas,  em função de uma articulação dos critérios de avaliação específicos realizada pelos professores.
Das várias modalidades de trabalho proposto pelo concurso PORDATA, os professores selecionaram a modalidade de trabalho escrito, porque se coadunava melhor com os objetivos programáticos da disciplina de Filosofia (elaboração de um ensaio filosófico) e também porque o desenvolvimento de competências escritas continua a ser um dos objetivos a trabalhar com os alunos da turma. Uma vez avaliados os trabalhos, os professores decidiram propor a concurso o trabalho com melhor classificação. Assim, o trabalho das alunas Ana Oliveira e Inês Simões, da turma 11.º CSE, foi um dos trabalhos vencedores do concurso PORDATA. As alunas receberam os respetivos prémios (um tablet para cada uma) em Lisboa, numa cerimónia que decorreu na Escola Secundária Gil Vicente, em Lisboa, no dia 9 de maio, pelas 15:00 horas.
Disponibiliza-se aqui o trabalho das alunas em formato ebook.


Myebook - A Pobreza em Portugal: obrigação moral de combater a pobreza - click here to open my ebook

O que é a PORDATA?


De acordo com o texto de introdução, apresentado pela Diretora do Projeto PORDATA, esta base de dados é um serviço público, um projeto destinado a todos, pensado para um vasto número de utentes que comungam do interesse em conhecer, com confiança e rigor, mais sobre Portugal.
Os dados estão organizados em temas: quinze em Portugal, dez na Europa e doze nos Municípios. Cada um destes temas está subdividido em vários subtemas, que incluem múltiplas séries de dados estatísticos. Estes dados podem ser visualizados sob a forma de tabelas, para o todo ou parte do período de dados disponível. Podem, também, ser visualizados sob a forma de gráficos estáticos e dinâmicos ou, ainda, de mapas estáticos e dinâmicos na base dos Municípios. Há ainda a possibilidade de os dados serem transformados automaticamente em indicadores habituais (como as percentagens ou as variações) e, no caso da unidade de medida ser o euro, de se converterem os valores de preços correntes em preços constantes. Também está prevista a possibilidade de se construírem quadros personalizados, a partir de séries estatísticas relativas a diferentes temas. Estas são apenas algumas das funcionalidades acessíveis em ambiente Web.
Podemos ainda ler na página Web do Projeto PORDATA que a PORDATA, Base de Dados de Portugal Contemporâneo, foi organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), criada em 2009 pelos seus fundadores, Alexandre Soares dos Santos e sua família, descendentes de Francisco Manuel dos Santos, a cuja memória decidiram consagrar a fundação.
A FFMS tem como objetivo promover o estudo, o conhecimento, a informação e o debate público, procurando, assim, contribuir para o desenvolvimento da sociedade, a melhoria das instituições públicas e o reforço dos direitos dos cidadãos.
Em 2011, a PORDATA foi distinguida como um dos cinco melhores projectos mundiais, na categoria de e-Science & Technology, pelos World Summit Awards de 2011. Os World Summit Awards (WSA) são realizados de dois em dois anos, no quadro das Nações Unidas, para seleccionar e distinguir aplicações de internet inovadoras que promovam a difusão de conhecimento. Nesta edição de 2011 estiveram envolvidos 160 países.

Para explorar e usar a PORDATA, aceder aqui  

quinta-feira, 9 de maio de 2013

nas páginas da História...


... hoje é Dia da Europa.

Propomos uma viagem pelo site da União Europeia, para recordar, ou conhecer, quem foram os fundadores, porquê e como nasceu uma Europa pacífica, alguns marcos temporais da sua fisionomia e evolução, a conquista das "quatro liberdades" (livre circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais) na década de 90, o início de uma década de oportunidades e grandes desafios...

E sugerimos, também, uma visita a um espaço de aprendizagem:




Unida na diversidade

Uma introdução ilustrada aos países e culturas da UE.






Uma viagem colorida pela Europa, que engloba a História, a Geografia e muitas outras matérias.

Filme animado, acompanhado de brochuras para os alunos e um livro do professor que visam permitir que os jovens passem a ter conhecimentos básicos sobre a importância da estabilidade de preços.




Para que serve a União Europeia? Por que foi criada e como? De que modo funciona?





Porque conhecer ajuda a melhor compreender, relacionar, agir...

terça-feira, 7 de maio de 2013

nas páginas da História...


                                        De agora em diante, nos céus da Europa voará a grande bandeira das nações e a paz entre as nações.

Josef Stalin

... revisitamos, hoje, o dia 8 de maio de 1945. Às 15:00 horas, os sinos de todas as igrejas francesas assinalavam oficialmente o fim da guerra, enquanto o general De Gaulle anunciava: «A guerra foi vencida. Eis aqui a vitória. É a vitória das Nações Unidas e é a vitória da França». Em Berlim, a capitulação alemã era assinada pelo marechal Wilhelm Keitel e assim se punha, oficialmente, fim a uma agonia de seis longos anos que roubaram a vida a dezenas de milhões de pessoas.


Milhões rejubilaram de alívio e de esperança.
E eram imensos os motivos de tanta euforia. 
Porque eram de horror as páginas que se viravam.




É, por isso mesmo, importante re(vi)ver as páginas da memória, que frequentemente revela tendência para ser curta, para que não volte a repetir-se a História, para que aprendamos o verdadeiro valor da Vida, para que tenhamos real consciência do Ser. Saber como tudo começou, saber por que começou e agudamente se complexificou , saber como se conjugaram esforços para desencadear o princípio do fim , permite refletir sobre a ambição e a maldade do Homem, o único animal que mata por prazer. Porque nesta história, como sempre acontece em todas, não houve apenas culpados e inocentes. Porque nesta história, como sempre acontece em todas, houve também responsáveis, bastantes, que, normalmente, nunca estão sós, nunca se mantém por si só e dificilmente convivem com perdas. 

Para saber mais 

[olhando de fora]




[vivendo e sofrendo, por si e pelos outros


 "...to remain silent and indifferent is the greatest sin of all..."


O seu livro mais conhecido, Noite, é um relato pessoal e impressionante sobre a crueldade e a maldade humanas, que não conhecem limites. É a história de um jovem judeu que se torna testemunha impotente do horror nos campos de concentração, nos quais perde a família, a inocência e a fé.

Dia conta a história de um jovem jornalista de nome Eliezer, que se atravessa à frente de um táxi. Será um acidente ou a tentativa de suicídio de uma alma atormentada pelos horrores que sofreu nos campos de concentração alemães? Dividido entre o desejo de viver e de morrer, Eliezer tem de alcançar a paz interior que lhe permita aceitar e ultrapassar o horror de que ele, a família e amigos foram vítimas.

Estes e outros livros (e também vídeos e DVDs), sobre o tema inesgotável que continua a ser a Segunda Guerra Mundial, podem ser requisitados na Biblioteca Escolar Clara Póvoa.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

[para lembrar como foi] em maio...

...o 1.º de maio de 1974.




[comemorando] em maio...

... o Trabalho.






Embora feitas pelo Homem [as coisas], vêm e vão, são produzidas e consumidas de acordo com o eterno movimento cíclico da natureza. A vida é um processo que, em tudo, consome a durabilidade, desgasta-a, fá-la desaparecer, até que a matéria morta, resultado de pequenos processos vitais, singulares e cíclicos, retorna ao ciclo global e gigantesco próprio da natureza.
O mundo, o lar feito pelo homem, construído na terra e fabricado com o material que a natureza terrena coloca à disposição de mãos humanas, consiste não em coisas que são consumidas, mas em coisas que são usadas. Se a natureza e a terra constituem, de modo geral, a condição da vida humana, então o mundo e as coisas do mundo constituem a condição na qual esta vida especificamente humana pode sentir-se à vontade na terra. Aos olhos do animal laborans, a natureza é a grande provedora de todas as coisas boas que pertencem igualmente a todos os seus filhos, que as tomam em suas mãos e se misturam com elas no labor e no consumo. Essa mesma natureza, aos olhos do homo faber construtor do mundo, fornece apenas os materiais que, em si, são destituídos de valor, pois todo o seu valor reside no trabalho que é realizado sobre eles.
A solidez, inerente a todas as coisas, até mesmo às mais frágeis, resulta do material que foi trabalhado; mas esse mesmo material não é simplesmente dado e disponível, como os frutos do campo e das árvores, que podemos colher ou deixar em paz sem que com isso alteremos o reino da natureza. O material já é um produto das mãos humanas que o retiram da sua localização natural, seja aniquilando um processo natural, como no caso da árvore que tem de ser destruída para que se obtenha a madeira, seja interrompendo os processos mais lentos da natureza, como no caso do ferro, da pedra ou do mármore, arrancados do ventre da terra. Este elemento de violação e de violência está presente em todo o processo de fabricação, e o homo faber, criador do artifício humano, sempre foi um destruidor na natureza.
Para a sociedade dos operários, o mundo das máquinas substitui hoje o mundo real, embora este pseudomundo seja incapaz de realizar a mais importante tarefa do artifício humano, que é a de oferecer aos mortais um abrigo permanente e estável para eles mesmos. No seu contínuo processo de operação, este mundo de máquinas começa a perder até mesmo o carácter humano independente que os utensílios e as primeiras máquinas da época moderna possuíam em tão alto grau. Os processos naturais de que se alimenta emprestam-lhe uma afinidade cada vez maior com o próprio processo biológico, de modo que os aparelhos, que antes manejávamos tão livremente, começam a parecer carapaças, partes integrantes do nosso corpo. A tecnologia já não parece ser o produto do esforço humano consciente no sentido de multiplicar a força material, mas sim uma evolução biológica da humanidade.
Arendt, Hanna. (2001). A condição humana. Lisboa: Relógio d’ Água, pp. 121-126 (adaptado).




Isabel Bernardo
(seleção de conteúdos)

[comemorando] em maio...

... a História de um dia de conquistas: o 1.º

nasceu de cansaço
cresceu de lutas
marcou-se a vermelho de sofrimento
firmou-se em homenagem
aos construtores do progresso das nações

maio, o dia 1.º





[particularmente relevante entre os minutos 05:31 - 06:18]

segunda-feira, 29 de abril de 2013

[comemorando] "shall we dance?"...



... especialmente hoje, no dia mundial da dança, uma das mais belas artes que alimenta a alma do ser humano.
Pela vida, pela sobrevivência, para cumprir rituais, em agradecimento, protesto ou contestação, desde sempre o ser humano exteriorizou estados de alma, numa linguagem corporal de diálogo consigo ou com o mundo. Dançar é (quase) uma necessidade inata e instintiva que alimenta o espírito e fortalece o corpo. Por isso, especialmente hoje,


sinta[-se] a "Nini dos [seus] quinze anos"... e dance.





Deixe-se seduzir 

- pela magia e arte de Fred Astaire e Ginger Rogers e dance 




- pela sensualidade do Tango, pela leveza da Valsa, pelo ritmo quente e exótico da Salsa, da Rumba, do Cha Cha Cha, do Mambo, do Merengue, do Samba, do Kizomba... e dance.

Dance... ao ritmo contagiante de "Fame" [lembra-se?]





Dance com o Sol, com a Lua, com a Chuva, com o Vento, com o Mar, com Quem ama, Consigo, com a Vida... mas dance, dance, dance...

Dance, when you're broken open. 
Dance, if you've torn the bandage off. 
Dance in the middle of the fighting. 
Dance in your blood. 
Dance when you're perfectly free.

Rumi 



Dance, ainda, com a leitura de "A Menina Dança?", uma história de amor, íntima e obscura, narrada na primeira pessoa, no tom compassado e genuíno de uma confidência. Ou de uma inconfidência...









Então? "Shall we dance?"

quinta-feira, 25 de abril de 2013

[leituras] palavras "derivadas" d'um dia de abril



as portas que abril abriu



A SACA DE ORELHAS



Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

1
Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
0 mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2
Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.

Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor...

Esta deve ser a tua filosofia.

5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.

Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.

É provável que te sintas logo muito melhor.

Sai, então, de baixo da pedra.

7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.

Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

[...]

11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.
© ALEXANDRE O′NEILL
A Saca de Orelhas, 1979 




No País dos Sacanas

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Jorge de Sena, in 40 Anos de Servidão

[comemorando] nas páginas da História - 25 de abril de 1974


Por todas as promessas que ficaram por cumprir. 
Pelas que foram cumpridas e estão a ser mortas. 
Por todas aquelas que temos o dever de continuar a fazer cumprir.

Isabel Bernardo





[Para interagir com os diversos conteúdos, passe o rato sobre a imagem e clique]

[Colaboração de Ernestina Tiago, 
na seleção de conteúdos]

terça-feira, 23 de abril de 2013

[divulgando] "recursos interativos"


"All forms of books make a valuable contribution to education and the dissemination of culture and information. The diversity of books and editorial content is a source of enrichment that we must support through appropriate public policies and protect from uniformity. "

                 Irina Bokova, Directora Geral para o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor 2013  





...porque, apesar de tudo, mantém mesmo a interatividade necessária a situações como esta


[comemorando] dia mundial do livro e dos direitos de autor [ou] "uma rosa por um livro"


«A book is the  most effective weapon against intolerance and ignorance.»

Lyndon Baines Johnson

O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor é um tributo  universal e de respeito pelos livros e autores, pela sua preciosa contribuição  para o desenvolvimento  social e cultural da humanidade. Mas é, também, um incentivo à descoberta do prazer da leitura.

Em 1995, a UNESCO decidiu que o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de autor seria celebrado a 23 de abril,  porque  nesta data é o aniversário da morte de William Shakespeare, de Miguel de Cervantes, de Inca Garcilaso de la Vega e de Josep Pla. É também a data do nascimento de Maurice Druon, Manuel Mejía Vallejo e Halldór Laxness.

Todavia, na escolha da data pesou, ainda, uma curiosa tradição catalã: 23 de abril é celebrado, na Catalunha, como  La Diada de Sant Jordi  (Dia de São Jorge) e, desde a época medieval, manda a tradição que os homens enamorados ofereçam rosas às donas do seu coração. A partir de 1925, as mulheres começaram a retribuir a gentileza com a oferta de um livro.

SONNET 54


O, how much more doth beauty beauteous seem
By that sweet ornament which truth doth give.
The rose looks fair, but fairer we it deem
For that sweet odour which doth in it live.
The canker-blooms have full as deep a dye
As the perfumed tincture of the roses,
Hang on such thorns and play as wantonly
When summer's breath their masked buds discloses:
But, for their virtue only is their show,
They live unwoo'd and unrespected fade,
Die to themselves. Sweet roses do not so;
Of their sweet deaths are sweetest odours made:
And so of you, beauteous and lovely youth,
When that shall fade, my verse distills your truth.


William Shakespeare

segunda-feira, 22 de abril de 2013

[comemorando] dia mundial da terra



Este doodle com que a Google hoje celebra o Dia Mundial da Terra é simplesmente lindo!


Todos os anos, a 22 de Abril celebra-se o Dia Mundial da Terra.  
A data foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson que resolveu realizar um protesto contra a poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.
Inspirado pelos protestos dos jovens norte-americanos que contestavam a guerra, Gaylord Nelson, desenvolveu esforços para conseguir colocar o tema da preservação da Terra na agenda política norte-americana.
A população aderiu em força à manifestação e mais de 20 milhões de americanos manifestaram-se a favor da preservação da terra e do ambiente.
Desde essa data, no dia 22 de Abril milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra.

Uma iniciativa para nos habituar ver com outro olhar a casa que todos partilhamos e que, por isso mesmo, devemos preservar e proteger. 

Talvez os olhos de Alberto Caeiro sejam um bom ponto de partida..
XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar,

E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento ... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

In O Guardador de Rebanhos
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001 


sexta-feira, 19 de abril de 2013

por falar em economia...



A Economia é uma ciência social com pouco mais de dois séculos. Foi com Adam Smith (1723 -1790) que a economia começou a despontar e isso está patente no seu livro “A Riqueza das Nações”, sendo, por isso, considerado este autor o pai da Economia. Já Paul Samuelson (1915-2009), através de um legado de várias obras, é considerado o pai da Economia moderna.
Para Samuelson, a Economia estuda o modo como as pessoas e a sociedade decidem empregar recursos escassos, que poderiam ter utilizações alternativas, para produzir bens variados e para os distribuir para consumo, agora ou no futuro, entre os vários indivíduos e grupos sociais.
Tomando a definição de Samuelson, podemos considerar os pontos seguintes, que nos permitirão entender a necessidade da ciência económica na organização das sociedades.
  • É dado como certo que as condições económicas nos afetam muito durante toda a nossa vida. Afetam a nossa maneira de viver, aquilo que comemos, se vamos ou não para a faculdade, qual o tipo de emprego que obtemos e quanto ganhamos. As condições económicas afetam a paz e a estabilidade das sociedades.
  • Os problemas de desemprego e dos mercados financeiros enchem os nossos jornais e programas de noticiário.
  • No nosso mundo complexo de hoje, é praticamente impossível ser cidadão responsável, sem algum entendimento de questões e princípios económicos.  Esta responsabilidade social é focada por Amartya Sen, na sua extensa obra, de que se destaca o livro “Desenvolvimento como Liberdade”
  • A escassez é o problema fundamental de cada sociedade, já que os recursos são escassos, as quantidades de bens e serviços que podem ser produzidos também são escassas. Sem escassez não haveria necessidade de estudar a Economia.

O estudo da Economia faz-se através de duas abordagens: a da Macroeconomia e a da Microeconomia.
A Macroeconomia estuda o nível agregado da atividade económica, como o nível do produto total, o nível de rendimento nacional e o nível total de emprego, vistos como um todo. No mundo da Macroeconomia destaca-se o nome de Keynes.
A Microeconomia estuda o comportamento económico das unidades de decisão individuais, como os consumidores, os possuidores de recursos e as empresas.




São muitos os males que assombram a opulência, sem precedentes, do mundo em que vivemos: a pobreza extrema, a fome coletiva, a subnutrição, a destituição e a marginalização sociais, a privação de direitos básicos, a carência de oportunidades, a opressão e a insegurança económica, política e social. Amartya Sen diagnostica que lhes subjaz uma natureza comum: são variedades de privação de liberdade.
Através de uma análise que releva a dimensão ética e política de problemas económicos cruciais, o autor apresenta aos leitores não-especialistas as vantagens teóricas e práticas de uma ideia radical: o desenvolvimento é essencialmente um processo de expansão das liberdades reais de que as pessoas desfrutam.



Porque é importante saber mais:





Aprender de forma lúdica, quase sempre agradável e motivador, pode ser, também, um meio para saber mais sobre economia. Aproveita e dá uma volta pelo site Keynes for kids ,  onde [embora em Inglês] podes aprender mais sobre economia e alguns termos com que diariamente convivemos.

Eugénia Fonseca       
(texto e sugestões de leitura)