segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

a insustentável leveza dos ideais

27 de janeiro [dia internacional da memória do Holocausto]


Na atualidade, o termo Holocausto representa o extremínio planeado, pelo governo nazi, de cerca de seis milhões de judeus, a que se juntou a eliminação da população cigana, dos deficientes físicos e mentais e de vários povos eslavos (polacos, russos…). Este extermínio assentava na crença de que os alemães eram um povo superior e que os não arianos, em particular os judeus, eram impuros e inferiores, pelo que deviam ser eliminados.

Ver aqui uma linha de acontecimentos que estão na origem do Holocausto

Ver aqui um vídeo que mostra a sucessão de acontecimentos que antecedem
o Holocausto e onde é questionado o papel dos países e das pessoas comuns.

Para concentrar, monitorar e facilitar a deportação futura da população judaica, os alemães e seus colaboradores criaram guetos, campos de transição e campos de trabalho escravo para judeus.

Campo de Buchenwald

As autoridades alemãs também criaram campos onde exploravam o trabalho forçado de não-judeus, tanto no chamado Grande Reich Alemão como nos territórios ocupados pela Alemanha.

Mapa do Holocausto
Após a invasão da União Soviética, em junho de 1941, as Einsatzgruppen, unidades móveis de extermínio, e posteriormente os batalhões policiais militarizados, atravessaram as linhas fronteiriças alemãs para realizar operações de assassinato em massa de judeus, ciganos e autoridades governamentais do estado soviético e do Partido Comunista. As unidades das SS e da polícia alemã, apoiadas pelas unidades da Wehrmacht-SS e das Waffen-SS, assassinaram mais de um milhão de homens, mulheres e crianças judias, além de outras centenas de milhares de pessoas de outras etnias. Entre 1941 e 1944, as autoridades nazis alemãs deportaram milhões de judeus da Alemanha, dos territórios ocupados e dos países aliados ao Eixo para guetos e campos de extermínio, muitas vezes chamados de centros de extermínio, onde eram mortos nas instalações de gás criadas para cumprir esta finalidade.

De fome, de exaustão, queimados, baleados ou gaseados,
milhões de pessoas morreram nos campos de trabalho e nos campos de extermínio.
Entre 1948 e 1951, cerca de 700.000 sobreviventes emigraram da Europa para Israel. Muitos outros judeus deslocados de guerra emigraram para os Estados Unidos e para outras nações, tais como o Brasil. O último campo para deslocados de guerra foi fechado em 1957. Os crimes cometidos durante o Holocausto devastaram a maiorias das comunidades judaicas da Europa, eliminando totalmente centenas destas comunidades centenárias.

Uma das interrogações recorrentes é a de saber como foi possível o Holocausto, como é que milhões de homens, mulheres e crianças puderam morrer de acordo com um plano sistemático de extermínio.

Hannah Arendt

Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judia (ver aqui e aqui mais informação sobre esta pensadora), publicou em 1963 a obra Eichmann em Jerusalém e que resultou do conjunto de artigos jornalísticos que escreveu ao acompanhar, na cidade de Jerusalém, o julgamento de Eichmann, coronel nazi que planificou ao mínimo pormenor o transporte e morte de milhares de judeus, num programa que ficou conhecido como “a solução final”.  




Eichman durante o seu julgamento em Jerusalém.

Num filme de 2013 sobre Hannah Arendt, vemos como a filósofa chega à perturbante conclusão de que Eichmann não representa o “mal absoluto”. É apenas um funcionário, racional e burocrata que age sem outra consciência que a da obediência ao dever.



Raphael Lemkin, um sobrevivente polaco, utilizou, em 1944, a palavra genocídio para descrever os acontecimentos durante o nazismo, e dedicou a sua vida a lutar para que o Holocausto nunca se voltasse a repetir.

Raphael Lemkin
Do seu ativismo, surgiu a Convenção de Prevenção e Punição do Genocídio. Estabelecida pela Assembleia das Nações Unidas a 9 de dezembro de 1948, obriga os signatários a prevenir o genocídio, definido como um ato que tem por intenção destruir uma nação, etnia, raça ou grupo religioso. A assinatura desta convenção trouxe inegáveis avanços nas leis que regem a relação entre estados. O primeiro avanço é de natureza moral: a soberania dos estados sobre os seus povos deixou de ser absoluta e tornou-se possível a interferência quando um governo comete atrocidades contra a população civil. O segundo avanço é de natureza legal: desde que a Convenção entrou em vigor, os responsáveis por assassinatos em massa podem ser levados a tribunal, tal como já aconteceu a propósito dos conflitos no Cambodja, no Ruanda e na Jugoslávia. O terceiro avanço prende-se com a ideia de prevenção, ou seja, de as nações implementarem medidas, através da educação e da diplomacia, que visam evitar ações de genocídio.



Dia Internacional da Memória do Holocausto

Apesar deste avanço, atos de genocídio continuaram a acontecer (Ruanda, Bósnia…) e são ainda hoje situações contra as quais temos de estar permanentemente alerta (veja-se a situação da Síria, onde já morreram mais de 130 mil pessoas).

A memória e o conhecimento do passado ajuda-nos a compreender e a agir no presente e a construir o futuro. O Dia Internacional em memória das Vítimas do Holocausto, comemorado anualmente no dia 27 de janeiro, foi criado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, através da resolução 60/7 de 1 de novembro de 2005. Nesse mesmo ano, o Parlamento Europeu estabeleceu também o dia 27 de janeiro como o dia Europeu de Memória do Holocausto. Assinalar estes dias é não esquecer os que pereceram. Mas, é também criar em cada consciência o desejo de proteger e compreender o Outro.

A Memoshoá - Associação Memória e Ensino do Holocausto  dedica-se a manter viva a memória do Holocausto e a desenvolver ações educativas para que as novas gerações construam uma consciência ética que não permita a repetição dos eventos da Segunda Guerra Mundial.

Neste âmbito, podemos também ver o Webinar subordinado ao tema Dia Internacional em Memória do Holocausto - Aprender com o Passado, Ensinar para o Futuro  que decorreu a 22 de janeiro de 2014.


A voz do Holocausto

Para muitos que viveram o Holocausto, as atrocidades cometidas faziam parte do  indizível. Não havia palavras que pudessem dizer o que foi visto como o “mal absoluto”, uma ruptura total com a humanidade.
Apesar disso, vários escritores, alguns dos quais sobreviventes dos campos de concentração nazis, relataram, de modo mais ou menos ficcionado, a sua experiência de perseguidos e desumanizados. Os temas mais recorrentes nas várias obras são a viagem, os campos, o trabalho, a desumanização, a razão dos senhores, a fome e a morte.

Primo Levi. Químico de profissão, a sua obra Tabela Periódica relata a experiência de vários prisioneiros do campo onde esteve, sempre em articulação com elementos químicos. Este livro foi considerado em 2006, pela Royal Institution of Great Britain, como o melhor livro sobre ciência de todos os tempos.

Primo Levi, escritor italiano que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, escreveu, entre várias obras onde narra a sua experiência, Se isto é um homem, texto que podemos encontrar na BECP. Primo Levi reflete sobre as razões porque muitos dos prisioneiros pereceram ou resistiram ao campo de concentração e o modo como cada um encontrou estratégias para sobreviver à provação. 



Eis um exemplo:
A história do engenheiro Alfredo L. mostra quanto é infundado o mito da igualdade originária entre os homens.
L. dirigia no seu país uma fábrica muito importante e o seu nome era (é) conhecido em toda a Europa. Era um homem forte, com cerca de cinquenta anos. (…) Quando o conheci estava muito debilitado, mas guardava no rosto os traços de uma energia disciplinada e metódica; naquele tempo os seus privilégios limitavam-se à limpeza diária das marmitas dos operários polacos: este trabalho, que obtivera não sei como, a exclusividade, rendia-lhe meia marmita de sopa por dia. Isso não era suficiente para satisfazer a sua fome; todavia, nunca ninguém ou ouvira queixar-se. Antes pelo contrário, as poucas palavras que pronunciava eram tais que faziam pensar em grandiosos recursos secretos, numa organização sólida e lucrativa.
E isso era confirmado pelo seu aspeto. L. tinha “um estilo”: as mãos e o rosto sempre perfeitamente limpos, tinha a abnegação de lavar, de quinze em quinze dias, a camisa sem esperar a mudança bimestral (faz-se notar aqui que lavar a camisa significa encontrar o sabão, o tempo, o espaço no lavatório superconcorrido; adaptar-se a vigiar atentamente, sem nunca distrair os olhos um instante; a camisa molhada, e vesti-la, naturalmente ainda molhada, à hora do silêncio, em que as luzes se apagam). (…) Só muito tempo depois fiquei a saber que toda esta ostenção de prosperidade, L. ganhara-a com incrível persistência, pagando cada aquisição e serviço com o pão da sua própria ração, reduzindo-se assim a um regime de privações suplementares.
Levi, P. (2002). Se isto é um homem. Lisboa: Público, pp. 104-105.


Irme Kertész é um escritor húngaro (ler entrevista com o autor aqui), de religião judaica, que sobreviveu ao Holocausto. Com 14 anos foi enviado para Auschwitz e posteriormente para Buchenwald. Em 2002 recebeu o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto da sua obra.

Irme Kertész
Existe na BECP


Em Sem destino e A recusa, o prisioneiro Koves Giorgy conta a sua experiência, primeiro como judeu descriminado em Budapeste, e depois como prisioneiro. O modo passivo e inocente como Koves Giorgy retrata a sua história deixa-nos perplexos.

Elie Wiesel
Elie Wiesel é um judeu de origem romena, sobrevivente a Auschwitz, que ganhou em 1986 o Prémio Nobel da Paz pelo conjunto das suas 57 obras onde retrata e mantém viva a memória do Holocausto. Foi apelidado pelo comité do Prémio Nobel como um “caminhante da humanidade”. O seu trabalho em defesa da paz é perpetuado pela Elie Wiesel Foundation for Humanity, conforme se pode ver aquiNa sua obra A noite (disponível na BECP) descreve a sua experiência enquanto prisioneiro de Auschwitz.
Para saber mais, ver online a Enciclopédia do Holocausto  e a página web do United States Holocaust Memorial Museum.

Isabel Bernardo 

Referências bibliográficas
United States Holocaust Memorial Museum (s/d). Enciclopédia do Holocausto. Em http://www.ushmm.org/ptbr/holocaust-encyclopedia

United States Holocaust Memorial Museum (December 9, 2013). Sixty-Five Years Later: The UN Convention on the Prevention and Punishment of Genocide. Em http://www.ushmm.org/confront-genocide/preventing-genocide-blog/genocide-prevention-blog/genocide-prevention-blog-1/sixty-five-years-later

sábado, 25 de janeiro de 2014

Saber, para bem viver

Do ato à consequência  
[a propósito das consequências de uma gravidez não planeada]


Num ciclo menstrual de 28 dias, é comum considerar-se que, ao décimo quarto dia do ciclo, ocorre a libertação de um gâmeta feminino (ovócito II) do ovário - ovulação. Após ter sido capturada pelas trompas de Falópio, esta célula, irá durar cerca de 24h, período durante o qual poderá vir a ser fecundada. Caso tal acontecimento se verifique, formar-se-á uma célula – zigoto que, daí em diante, irá passar por uma sucessão de divisões celulares. À medida que as divisões se sucedem o embrião, com o auxílio das trompas de Falópio, vai sendo movimentado no sentido do útero, onde chega cerca de 7 dias após a ovulação. Nesta altura o embrião é constituído por uma bola de células amalgamadas no interior das quais existe uma cavidade. Chama-se blastocisto.

Por volta do 10º dia, este embrião instala-se no revestimento interno do útero (endométrio) que entretanto se preparou para o receber – ocorre a nidação: até agora não existiu falha menstrual pelo que a mulher não sabe que está grávida. As células embrionárias continuam a dividir-se e o embrião liberta enzimas que penetram no revestimento uterino fazendo com que os tecidos se desintegrem o que proporciona uma espécie de banho de sangue no qual se encontra inserido o novo ser. É a partir deste “caldo nutritivo” que o embrião se irá alimentar, inicialmente por difusão.

Durante a segunda semana de vida do óvulo fertilizado, inicia-se a diferenciação celular. Um agregado celular forma o saco amniótico no interior do qual o novo ser irá crescer rodeado de líquido – líquido amniótico. Neste meio, o embrião estará mais protegido contra eventuais choques e poderá movimentar-se sem sofrer o efeito do seu peso já que flutua no líquido. A partir de um dos agregados celulares que se formam nesta fase, irá formar-se o bébé. Estas células, cujo número está continuamente a aumentar, originam durante a 3ª semana de gestação, um ser onde se começa a evidenciar a cabeça e na extremidade oposta, uma espécie de cauda.

Nesta altura (3ª semana de gestação), já passou cerca de uma semana após o dia em que era suposto ter havido menstruação. Embora sem ter a certeza, a mulher começa a suspeitar que possa estar grávida.

Após cinco a seis semanas de gestação, no novo ser já é possível observar além da cabeça, o pescoço, olhos e orelhas rudimentares, o cérebro e o coração que já bate. Já existem rins, circulação sanguínea, sistema digestivo do qual já consta o fígado e umas pequenas saliências corporais a partir das quais se irão formar os braços e as pernas. Surge igualmente o primórdio da coluna vertebral. Agora com o tamanho de um grão de café, o embrião faz lembrar uma pequena miniatura de um cavalo-marinho.

Às oito semanas de gravidez o embrião é tão pequeno como o dedo mínimo do pé. Flutua no líquido amniótico como um astronauta, embora se encontre ligado à mãe. O coração já bombeia vigorosamente o sangue, o cérebro brilha através da pele, tão fina como papel vegetal revelando os minúsculos vasos sanguíneos. A maxila ainda não está completamente formada mas o rosto é reconhecidamente humano. As orelhas têm ainda uma posição muito inferior e os olhos estão cobertos por uma pele intacta que acabará por se fender e originar as pálpebras. A cabeça é enorme em relação ao corpo. Os membros alongam-se e surgem os cotovelos e os joelhos. Nesta altura o bébé começa a dar os primeiros pontapés, mas a mãe ainda não consegue sentir o seu movimento.


Entre o segundo e o terceiro mês de gravidez, completa-se a formação da placenta. Por volta das doze semanas, todos os órgãos internos estão formados e alguns deles já funcionam. Os órgãos genitais desenvolveram-se embora ainda não dê para identificar o sexo. As orelhas e nariz estão completamente formados e nas mãos e pés já são percetíveis os dedos. Pelo cordão umbilical começou a circular o sangue entre o embrião e a placenta, sendo nesta altura que esta começa a funcionar. A partir de agora, o bébe será designado por feto e o resto da sua vida no útero, irá ser passada a crescer. Tem cerca de 5 cm, está a começar a chupar, faz caretas e apresenta expressões faciais. Engole igualmente líquido amniótico, deixando-o regurgitar da sua boca ou descer até à bexiga.

Embrião com 12 semanas


Alguns pontos de reflexão

Um dos primeiros sistemas a desenvolver-se é o sistema nervoso, sendo que a sua formação se inicia bem antes de se saber que existe uma gravidez.

Iniciam igualmente a sua formação, ainda que numa fase muito precoce, praticamente todos os órgãos vitais, como, por exemplo, o coração, os rins e o fígado.

Logo após a implantação do embrião no útero, a sua nutrição é assegurada pelo sangue materno acumulado em lacunas do revestimento uterino. Embora não exista contacto direto do sangue materno com o embrião, a comunicação é feita através de uma membrana cuja capacidade seletiva é praticamente inexistente. Nesta fase, os nutrientes e o álcool que a mãe ingerir, os medicamentos que tomar, as drogas que usar, o fumo que inalar, irão chegar ao embrião sem que seja possível fazer qualquer seleção. Mesmo após a entrada em funcionamento da placenta (3º mês de gestação), esta funciona como um filtro de café, os grãos deste nunca passam mas as substâncias suas constituintes podem passar.

Durante a gravidez
substâncias tóxicas prejudicam o desenvolvimento do futuro bebé.
Se a futura mãe sofrer de doenças provocadas por vírus, bactérias ou mesmo protozoários (pequenos seres unicelulares) é possível que o ser em desenvolvimento seja também afetado.

Admitindo que ocorre uma gravidez não planeada, é possível que só venha a ser confirmada mais de três semanas após a fecundação. Caso nesta altura não tenha havido cuidado com todo o tipo de substâncias ingeridas, inaladas ou injetadas, é possível que o desenvolvimento normal do bébé venha a ficar seriamente comprometido, uma vez que é justamente nesta primeira fase da sua formação, que se verificam os acontecimentos mais importantes e determinantes do normal desenvolvimento do novo ser. A formação dos principais órgãos vitais nesta fase inicial, deixa antever que, caso algum acontecimento possa perturbar o seu normal desenvolvimento, o novo ser possa vir a nascer com anomalias que podem não só comprometer a sua sobrevivência, como a sua qualidade de vida de forma irreversível. É importante lembrar que as células nervosas com que nascemos, e de cujo funcionamento normal dependemos a todos os níveis, se formam numa das fases mais precoces do desenvolvimento embrionário e, uma vez diferenciadas, perdem capacidade de divisão. Por outras palavras, é praticamente impossível reparar e substituir células nervosas, após a sua formação.

Considerando que a futura mãe nem sequer tem por hábito registar os dias em que é menstruada, apesar de ser sexualmente ativa, o risco de vir a confirmar uma hipotética gravidez não planeada numa fase mais tardia, torna-se ainda maior, como podem também ser maiores as consequências que daí podem advir para a novo ser.

Nenhum de nós pediu para nascer, mas qualquer um de nós se deve sentir responsável pelo desenvolvimento harmonioso de um novo ser que, também não tendo pedido para vir ao mundo, tem o direito de exigir que aqueles que contribuíram para a sua formação, o tratem de forma digna e responsável desde o momento da conceção!

Ninguém se deve sentir no direito de comprometer a qualidade de vida de um ser humano, em consequência de comportamentos irrefletidos e por vezes irresponsáveis.

A gravidez deve ser pensada e planeada. Existem substâncias que devem ser tomadas antes de engravidar, pois revelam-se preventivas do desenvolvimento de determinadas malformações. Estudos recentes mostram que a toma de ácido fólico alguns meses antes de engravidar, reduz as hipóteses do bébé nascer com espinha bífida.  A toma da pílula tem de ser interrompida alguns meses antes de engravidar. Existem medicamentos tomados para tratar determinadas doenças, que são considerados teratogénicos (causadores de malformações) que não podem ser tomados durante a gravidez. A ingestão de álcool deve ser evitada, o consumo de drogas, particularmente durante a gravidez, deve ser interrompida. Até o contacto com certos animais como os gatos deve ser evitado.


A gravidez não é um estado de doença, mas deve ser encarado como uma fase de grande responsabilidade! O que pode uma mãe sentir, caso dê à luz um bebé portador de qualquer deficiência para a qual ela sinta que pode ter contribuído?
Julieta Marques

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

a propósito de poetas...

... do século XX


Miguel Torga A Voz do Chão 

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“A sua terra é para ele como para uma planta: sítio de deitar raízes”.

“É debaixo do chão que me procuro.”

 É assim que se identifica.


E é com essa mesma simplicidade que canta a Vida.

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga   

“S. Martinho de Anta não é um lugar onde, mas um lugar de onde…”,“…a terra onde nasci e de onde verdadeiramente nunca saí”. * 

Na sua obra, Torga projeta as suas preocupações de ser humano, as suas limitações, as suas necessidades de transcendência, ao mesmo tempo que evidencia um magoado sofrimento, desassossego, que tanto lhe dá esperança, alento, como o mergulha no desespero. Intrinsecamente ligado ao mito de Anteu, as suas forças recuperam quando em contacto físico, direto com a terra, as fragas, as planícies…Só na ligação à terra (o sentimento telúrico) o poeta se sente retemperado da luta que trava com Deus e contra o seu destino de homem, como podemos ver, por exemplo, em S. Leonardo de Galafura .

Torga é a «Imagem da rebeldia. Também da inquietude. Dor da fragilidade humana face à força divina. Contudo, nota do valor do esforço e da persistência.» A sua poesia será sempre a de um resistente tenaz ao desaparecimento da ideia de Pátria


Orfeu rebelde, consciente de que a morte é o destino inevitável do Homem, não abdica da sua capacidade de busca e persiste na concretização do sonho, que confere sentido à existência humana – a procura da felicidade terrena.

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida, a revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

                                                         Miguel Torga


Que o Mar traiçoeiro da Vida nunca nos impeça de partir!


LCM

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

a ler...

autores contemporâneos de língua portuguesa [José Luís Peixoto]


José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, no concelho de Ponte de Sor (Portalegre).  Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Inglês /Alemão, pela Universidade Nova de Lisboa.
José Luís Peixoto
Publicou, durante vários anos, textos de poesia e de prosa no suplemento DN Jovem, bem como vários conjuntos de poemas, nos cadernos Átis, e a ficção breve Morreste-me, em maio de 2000, numa edição de autor rapidamente esgotada.
 
 
Vence, em 1997, 1998 e 2000, o Prémio Jovens Criadores do Instituto Português da Juventude.
Ainda em 2000, publicou, na Temas&Debates, o seu primeiro romance, Nenhum Olhar, que teve um grande reconhecimento por parte da crítica. A sua projeção como escritor veio a ser posteriormente confirmada com o facto de ter vencido, no ano seguinte, o Prémio José Saramago, da Fundação Círculo de Leitores, destinado a jovens autores. Foi considerado finalista para a atribuição de dois dos mais importantes prémios literários desse mesmo ano: o Grande Prémio de Romance e Novela da APE e o Prémio do Pen Club.
O livro de poesia A Criança em Ruínas, lançado em 2001 e com edições sucessivas, constituiu um novo êxito de público e de crítica.
O lançamento de Uma Casa na Escuridão (romance) e de A Casa, a Escuridão (poemas), feito em simultâneo em Outubro de 2002, é outro marco importante no percurso do autor, pela originalidade de uma ficção e de um livro de poemas que remetem para um mesmo universo ficcional.

Tendo representado Portugal em diversos eventos literários internacionais (Paris, Madrid, Frankfurt, Zagreb, entre outros) foi, em 2002, o primeiro autor português convidado para a residência de escritores na LedigHouse, em Nova Iorque.
LedigHouse
 
 Em 2003, explorou uma nova área, colaborando num projeto com o grupo português de heavy-metal Moonspell. Enquanto a banda lançava o álbum Antidote, o escritor apresentava o livro de contos Antídoto, inspirado nas músicas do disco.
Do trabalho de colaboração com os Moonspell, surge um disco e um livro
 
Confirmando a sua versatilidade, escreveu em 2005 as peças de teatro Anathema, que estreou em França no Théâtre de la Bastille, de Paris, e À Manhã, estreada no Teatro São Luís. Dois anos mais tarde, de novo no São Luís, estreou a peça Quando o Inverno Chegar.

Fotografia de José Frade.
Representação de Quando o Inverno Chegar no Teatro S. Luís

Em 2006, regressou ao romance, com a edição de Cemitério de Pianos.

Com José Luís Peixoto, poderíamos falar de uma certa vertigem ao nível da sua produção literária, dada a quantidade de títulos publicados: Os Guardas do Museu de Bagdad (2008); Cal ( 2009); Livro (2010); Gaveta de Papéis (2011); Abraço (2011); A Mãe que Chovia (2012) e  Dentro do Segredo (2012).
 
 
 

A obra literária de José Luís Peixoto está publicada em vários países: Bielorrússia, Brasil, Bulgária, Croácia, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, República Checa e Turquia.
 
A sua obra mais recente, Dentro do Segredo, resultou da sua viagem à Coreia do Norte, um dos países mais fechados do mundo. É possível aceder a uma entrevista ao autor sobre a produção desta obra, aqui e aqui.

Paralelamente à criação literária, escreve, regularmente, para diversos órgãos de comunicação social estrangeiros e portugueses, nomeadamente para o Jornal de Letras, Artes e Ideias, a Visão e Le Monde Diplomatique.

Desenvolve também uma intensa atividade de divulgação da sua obra, o que podemos acompanhar na sua página oficial do Facebook ou na sua página Web, para além da participação em programas de televisão como Ler+ Mais, Ler Melhor.
 
 
 
Madalena Toscano
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

nas páginas da história: lembrar o passado, pensar o presente

 dia 17 de janeiro de 1995 [aniversário da morte de Miguel Torga]


Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em São Martinho, Vila Real. Miguel Torga, o seu pseudónimo, foi um dos poetas e escritores portugueses mais influentes do século XX. 


Miguel Torga

A sua obra traduz a sua rebeldia contra injustiças e o seu inconformismo perante os abusos de poder, enquanto reflete a sua origem aldeã, a experiência médica e os anos que passou no Brasil.

Aos 27 anos cria o pseudónimo Miguel Torga. Miguel em homenagem a Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Torga é uma planta brava da montanha de flor branca, arroxeada ou cor de vinho.

Torga, também conhecida por urze.

Oriundo de uma família humilde, em 1918 foi mandado para o seminário de Lamego, onde estudou Português, Geografia, História, Latim e se familiarizou com textos sagrados. Em 1920, emigra para o Brasil, para trabalhar na fazenda de um tio em Minas Gerais.

Ao fim de quatro anos, ao aperceber-se da sua inteligência, o seu tio patrocina-lhe os estudos em Leopoldina. Lá, distingue-se entre os alunos. Em 1925, como recompensa pelo seu trabalho, o seu tio oferece-se para lhe pagar os estudos universitários em Coimbra, no curso de Medicina. Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade.

Em 1929, deu início à colaboração na revista Presença, com o poema Altitudes. Em 1930 quebra a sua ligação com a revista Presença. Nesse ano publica o livro Rampa. Em 1931 lança Tributo e Pão Ázimo e em 1932 lança Abismo. Em colaboração com Branquinho da Fonseca, funda a revista Sinal, de curta duração. Em 1936 lança Manifesto em conjunto com Albano Nogueira. Nesse mesmo ano publica O Outro Livro de Job.

Um dos primeiros livros de Miguel Torga

Em 1933 conclui a licenciatura em Medicina, começando a exercer em terras transmontanas. De 1939 a 1942 exerce medicina em Leiria, onde escreve a maioria dos seus livros. Após o 25 de Abril, apoia a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República. Ao longo de seis décadas publicou mais de 50 livros e foi várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Casou-se com Andrée Crabbé em 1940, uma estudante belga na Universidade de Coimbra. O casal teve um filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955.

Torga publicou o seu último trabalho em 1993, vindo a falecer de cancro em Janeiro de 1995. Ao lado da sua campa encontra-se uma torga, em sua honra.
Mafalda Alves 12º LH



domingo, 19 de janeiro de 2014

a ciência também é cultura

nos caminhos da psicologia [o que é a memória]


A memória constitui uma espécie de retrato do que somos,  composta com os traços do que fomos.               
Georges  Gusdorf

Memória é um processo cognitivo que compreende a retenção e a recuperação da informação. É um sistema aberto em que a informação entra (aquisição) é armazenada (retenção) podendo depois ser recuperada (recordação).



Sobre a memória, António Damásio, reconhecido neurologista que investiga sobre o processo da constituição do eu, diz-nos:
“Desde que uma cena tenha algum valor, desde que na altura houvesse suficiente emoção, o cérebro apreende imagens, sons, odores e sabores, num registo multimédia, e irá recuperá-los na altura própria. Com o tempo, a recordação poderá desvanecer-se. Com o tempo, e com a imaginação de um fabulista, o material será embelezado, baralhado e voltará a ser ordenado num romance ou  num argumento cinematográfico. Passo a passo, aquilo que começou como imagens fílmicas não-verbais poderá mesmo transformar-se num relato verbal fragmentado, recordável tanto pelas palavras de uma narrativa como por elementos visuais e auditivos.

António Damásio
Consideramos agora a maravilha que  é a recordação, e pensemos nos recursos de que o cérebro tem de dispor para a produzir. Além das imagens percetuais em vários domínios sensoriais, o cérebro tem de dispor de algum modo de armazenar algures os respetivos padrões, e tem de manter um caminho, algures, para recuperar os padrões, para que algures, de certo modo, a reprodução venha a funcionar. Quando isto acontece, e desde que também haja um eu em funcionamento, descobrimos que estamos no meio de uma recordação.

A capacidade que temos para manobrar o mundo complexo que nos rodeia depende desta possibilidade de aprender e de recordar­­ apenas reconhecemos pessoas e locais porque criamos registos da sua aparência e recuperamos parte desses registos na altura própria. A nossa capacidade para imaginar eventuais acontecimentos também depende da aprendizagem e da recordação, e é o fundamento do raciocínio e da navegação imaginária do futuro  e, de uma forma mais geral, da criação de soluções inovadoras para um problema. Para entendermos como tudo isto acontece temos de desvendar no cérebro os segredos do ”certo modo” e localizar os “algures”. Esse é um dos problemas mais complexos da neurociência contemporânea.”

                       António Damásio (2010). O Livro da consciência. Uma arquitetura para a memória
Lisboa: Círculo Leitores, pp.168-169.

Elaborado por: Emília Laranjeira

sábado, 18 de janeiro de 2014

a propósito de poetas...


... do século XX, impõe-se lembrar Ary dos Santos.


Caminharemos de olhos deslumbrados 
E braços estendidos 
E nos lábios incertos levaremos 
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.


Muito do que escreveu revela a coragem com que ousou dar voz a um povo que não podia tê-la.
Na opinião de José Jorge Letria, "foi um homem do excesso e da transgressão, um poeta que esteve presente nas canções, na publicidade, na política, que escrevia para revistas, mas, acima de tudo, um grande poeta que usou as palavras de modo único e inimitável".
E, na verdade, a singularidade das suas palavras revela-se em poemas como "Desfolhada" ou "Tourada" (este, cuja interpretação de Fernando Tordo tão bem traduz a ironia e as farpas veladas).



Mas Ary também versou sobre o Amor, com igual singularidade e beleza. Lembramos o bonito poema "Estrela da Tarde", numa recente versão cantada por Ana Bacalhau.





Ler textos escritos por outros autores (como o "Sermão de Santo António aos peixes", de António Vieira), ou dizer os que ele próprio escrevia era algo que fazia com prazer. Palavras-alma de uma voz que contribuiu para "As portas que Abril abriu".




José Carlos Ary dos Santos faleceu a 18 de janeiro de 1984.

LCM

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Lembrar a professora Clara Póvoa


A morte não significa o fim de tudo,

 pois, as lembranças permanecem para sempre.

Assim é com a Dr.ª Clara. Partiu cedo demais, mas connosco ficam as recordações do tempo que trabalhamos em conjunto. Foi a Coordenadora da Biblioteca, mas era também a amiga com que partilhávamos um pouco da nossa vida. Recordo o entusiamo com que lutava para termos mais recursos, para tornar a biblioteca mais atrativa para todos. A entrada na RBE podia trazer mais recursos à Biblioteca, e assim foi: novo mobiliário, mais livros, mais equipamentos. A cada candidatura que conseguíamos ganhar, a felicidade estampava-se-lhe no rosto.
Entrava na Biblioteca com um enorme sorriso, partilhava connosco o saber, trabalhava sem parar, esquecia-se das horas…
 
 
Durante a sua doença, em casa ou no hospital, continuava a trabalhar connosco. Pensávamos que voltava brevemente. Mas partiu…
Partiu, mas connosco ficaram os seus ensinamentos, o seu sorriso, a sua obra…
Ficou também a saudade.

Até sempre, Dr.ª Clara

Fernanda Cravo

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Lembrar a professora Clara Póvoa




INSTANTES

Na sombra das palavras,
Revejo a transparência de um olhar,
Um certo gracejar,
Um poente tingido de amarelo,
Uma flor esquecida numa tela,
Um livro por comentar.

No vazio do tempo,
Revejo um espaço do tamanho do mundo,
Vestido de projetos, de ideias, de sonhos
Apressadamente grafados
para não fugirem do papel.

Do acorde de uma viola,
Chega o som de uma certa história de vida,
Cantada com a garra
De uma fé inabalável.

Dos instantes da memória,
Recordo um certo poema,
Uma canção do tempo
Para aqueles que não têm tempo.

Madalena Toscano

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Lembrar a professora Clara Póvoa





As palavras valem o que valem e por vezes leva-as o vento num sopro breve, contudo muitas ganham vida e sentido profundo: amizade, companheirismo, cumplicidade, confiança, partilha, empenho, profissionalismo…

Sempre que o teu nome invade a memória e o coração, todas elas tornam a emanar frescura e luz, valorizando a dádiva alegre e desinteressada com que nos presenteaste.

Para ti, Clara, um eterno e saudoso abraço.


Licínia Torres

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Lembrar a professora Clara Póvoa


"As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade", só as que nos marcam e deixam um pouco de si em nós.


Assim foi com a professora Clara que, com o seu jeito frágil, mas ao mesmo tempo determinado, vestiu a camisola da Escola Secundária de Cantanhede e da Biblioteca Escolar e as fez crescer ao longo dos anos. Foram tantos os momentos de aprendizagem, de trabalho e de mudança em que ela trabalhou a nosso lado, par a par connosco, que nos encorajou e nos fez desejar ser mais e melhor. Foram tantas as horas passadas nesta escola a lutar, para que hoje possamos usufruir do que os livros, as palavras e os conhecimentos nos podem trazer de bom.
E quando um dia o seu sorriso esmoreceu, não existiram livros, nem palavras, nem conhecimento que a fizessem continuar a sua luta diária, mas existiram os nossos sorrisos, os nossos abraços e os nossos afetos que levaram até ela o carinho de todos aqueles que um dia se cruzaram com a professora Clara na ESC e a certeza que nunca será esquecida.

Para além de uma coordenadora e de uma professora, ela foi uma amiga, uma companheira na estrada da vida.

"Há gente que fica na história/ Da história da gente", como a professora Clara ficou na minha, na desta escola, na de cada pessoa que por aqui passa, e recordá-la trará sempre um sorriso aos nossos rostos por termos tido o prazer de ter na nossa vida uma pessoa tão especial, porque "só as lembranças fazem sorrir" e deixam saudades.
Conceição Sacarrão


domingo, 12 de janeiro de 2014

Lembrar a professora Clara Póvoa

Cantanhede, 01-01-2014

Querida Clara,

Na sequência da homenagem que te vão fazer, pediram-me que, na qualidade de teu colaborador próximo, escrevesse alguma coisa sobre ti, para ser colocada no “blog” da biblioteca da nossa escola.

Passados dois anos do teu desaparecimento físico, ainda não me parece que tenhas morrido... Sabes, nós só morremos quando caímos no esquecimento daqueles com quem nos relacionámos, pessoal e profissionalmente, em vida. Eu tive o privilégio de ter sido teu amigo, além de colega de trabalho, e a impressão enorme com que me marcaste vai prevalecer em mim, provavelmente, até ao dia da minha própria morte... Como vês, Clara, os teus amigos mantêm-te viva, continuando a admirar e a reconhecer as tuas qualidades pessoais e profissionais.

Deram o teu nome à biblioteca que era a "menina dos teus olhos", da qual foste mais do que mãe. Lembro-me de todo o processo, porque fui testemunha e porque partilhaste comigo muitas inquietações desse “parto”... Eras uma pessoa de grande visão e, nos tempos pioneiros da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), trataste logo da integração da nossa Biblioteca Escolar (BE) na RBE. Nesse tempo não havia "Equipas da Biblioteca Escolar" e tu davas aulas como qualquer outro professor (talvez tivesses algumas horas de redução, mas nada que compensasse o esforço que despendias). Tiveste a humildade, outra qualidade que era uma das tuas características, de me pedires para colaborar contigo no desenvolvimento do projecto de candidatura à RBE... Coube-me a tarefa de desenvolver o projecto de arquitectura da biblioteca, que tinha que respeitar um programa específico, para uma escola da tipologia da nossa, que discuti contigo. Lembro-me que os incentivos financeiros decorrentes da entrada na RBE não cobriam as despesas totais do projecto e que conseguiste que o Bastardo, então  presidente do conselho directivo, disponibilizasse a verba em falta.

Depois da entrada na RBE,  formaste uma equipa para desenvolver o trabalho e as actividades da BE da nossa escola. Tinhas consciência de que a BE era uma realidade nova e que era preciso "partir muita pedra" até ter o necessário e merecido reconhecimento interno. Tiveste o mérito de teres desenvolvido o projecto da nossa BE de uma forma gradual e sustentada, que envolveu a criação de uma equipa, o contínuo desenvolvimento da colecção, a gradual ampliação e apetrechamento tecnológico, a interacção com a Biblioteca Municipal de Cantanhede (até conseguiste que o Município de Cantanhede comprasse o  "software" especializado que passámos a utilizar na BE) e a criação de uma rede concelhia de bibliotecas escolares. Tinhas consciência de que a formação especializada da equipa era fundamental para um trabalho cada vez mais profissional e eficaz. Deste o exemplo e fizeste uma pós graduação em Ciências Documentais e posteriormente um mestrado em Bibliotecas Escolares. Grande parte dos membros da equipa da BE seguiram-te o exemplo e fizeram diversas formações especializadas em áreas das ciências da informação e da documentação (eu comecei a licenciatura em Ciências da Informação e da Documentação, quando fazia parte da tua equipa da BE).

Lembro-me do Litério, outro dos presidentes do conselho directivo com quem trabalhaste, dizer, sobre a escola e a biblioteca, que parecia que era a biblioteca que tinha uma escola lá dentro, quando se referia à organização que dirigias...

Tu eras uma pessoa sabedora, mas de uma humildade avassaladora...
Chamávamos-te "generala", mas na equipa agias como um verdadeiro soldado, trabalhando ombro a ombro com os restantes membros do "poletão". Tu sabias que numa organização como a que dirigias, tem que haver um equilíbrio entre a eficácia e o prazer/felicidade na execução do trabalho a realizar. Claro que para ti os "papéis" eram necessários e importantes, mas ainda mais importante que os mesmos, era o resultado da nossa acção.

Lembro-me que "perfilhaste" a minha ideia da criação de um Boletim da Biblioteca, que foi exemplo, reconhecido pela RBE, de boas práticas, tendo passado a constar da página da Rede de Bibliotecas Escolares. Tinhas por hábito fazer acções de formação para os professores da ESC tomarem conhecimento da colecção e dos equipamentos electrónicos que a BE disponibilizava para utilização no espaço aula. Tu querias que a BE fosse cada vez melhor para tornar a ESC ainda melhor...

Tenho saudades de ti, Clara, de trabalhar contigo numa equipa fantástica, na qual por vezes havia tensões (peço-te desculpa por qualquer coisa que tenha feito!!!), mas onde a amizade imperava; todos os anos nos reuníamos, como  grupo de grandes amigos que éramos, para confraternizar, algumas vezes em tua casa, com a tua família...

O reconhecimento do teu trabalho e da tua dedicação é, na verdade, a verdadeira homenagem que te podemos prestar.

Beijinhos,


Zé Paixão

Nota: por solicitação do seu autor, este texto foi publicado sob as normas do anterior acordo ortográfico.



sábado, 11 de janeiro de 2014

Lembrar a professora Clara Póvoa

[Homenagem]


Farão amanhã dois anos após a morte da professora Clara Póvoa.



Pedimos a alguns dos colegas e amigos que escrevessem sobre a pessoa que foi Clara Póvoa.
As palavras que expressam as memórias e a saudade são, em nosso entender, a melhor forma de homenagear quem muito contribuiu para um mundo melhor.

Publicaremos a partir de amanhã, e durante vários dias, um texto dos que generosamente aceitaram o nosso desafio de expressar publicamente palavras sobre a Clara. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

nas páginas da história: lembrar o passado, pensar o presente

dia 6 de janeiro [em 1973 publica-se pela primeira vez o jornal Expresso]




O semanário Expresso foi fundado a 6 de Janeiro de 1973. Inicialmente dirigido por Francisco Pinto Balsemão, o jornal aparece quando este decide investir num jornal próprio, tendo como modelo «os jornais ingleses de domingo de qualidade».

Francisco Pinto Balsemão, fundador do Expresso

Surge, então, a primeira versão do semanário Expresso em formato broadsheet com dois cadernos: o primeiro caderno de carácter mais noticioso, «com uma primeira página forte e secções bem definidas nas páginas interiores»; e o segundo, chamado Revista, «menos ligada ao dia a dia, convidando à reflexão e proporcionando entretenimento».

A primeira redação era chefiada por Augusto de Carvalho. A secção nacional estava ao encargo de José Manuel Teixeira. Fernando Ulrich (sob o pseudónimo de Vicente Marques) fazia a crónica bolsista. António Patrício Gouveia escrevia sobre economia, Álvaro Martins Lopes sobre notícias internacionais e Inácio Teigão sobre desporto.


Primeira edição do semanário Expresso

O primeiro número sai para a rua no dia 6 de janeiro de 1973. A tiragem ultrapassou os 60 mil exemplares, impressos na rotativa do Diário de Lisboa. Cada exemplar do jornal contava com 24 páginas e dois cadernos, ao preço de 5$00 (2,5 cêntimos a preço atual).
Já lá vão 41 anos de existência do semanário Expresso. O seu atual diretor é, desde janeiro de 2011, Ricardo Costa e o Expresso continua a ser considerado por muitos como o jornal de referência em Portugal.

Qual o perfil dos leitores do semanário Expresso? O jornal tem uma média de 585.400 leitores, sem que exista uma grande diferença em termos de género: 55% dos indivíduos são do sexo masculino e 45% do sexo feminino. Em termos etários, os leitores dominates situam-se na faixa etária entre os 25 e os 34 anos; os idosos são a faixa etária menos relevante.

Edição online do Expresso, a 6 de janeiro de 2014

O Expresso foi o primeiro jornal a publicar a edição impressa em versão HTML.
Daniela Taipina (12.º LH)

Páginas da Internet (consultadas em 02.01.2014):          
http://pt.wikipedia.org/wiki/Expresso_(Portugal)