domingo, 27 de outubro de 2013

nas páginas da História: lembrar o passado, pensar o presente

                           

Criação da PIDE


         A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) foi o órgão policial de Portugal que trabalhou em conjunto com a Legião Portuguesa. Fez parte de uma série de organismos da força pública, criados em sequência, desde a origem da República em Portugal.
         Estabelecida em plena época do Estado Novo, sob a direção de António de Oliveira Salazar, a sua principal função foi condicionar, controlar e anular qualquer tipo de manifestação que fosse considerada como opositora à ditadura, recorrendo frequentemente a meios violentos, como a tortura.

         A PIDE, instituição de caráter secreto, permaneceu em Portugal entre 1945 e 1969, passando, na chamada “Primavera Marcelista”, a designar-se Direcção Geral de Segurança. Possuía, enquanto órgão ativo, funções bastante abrangentes, nomeadamente nos setores dos serviços estrangeiros, fronteiras e na segurança do Estado, vindo a desempenhar também funções de caráter administrativo e de repressão e prevenção criminal.

A PIDE foi responsável por alguns crimes sangrentos, como o assassinato do militante José Dias Coelho e do general Humberto Delgado.





Testemunho real:
     “A 13 de Março de 1962, eu e mais alguns colegas meus fomos presos pela PIDE… Eu não imaginava, não sabia o que era uma prisão... Logo na primeira semana, estivemos cinco dias amarrados dentro da cela, sem alimentação, sem nada, só água... Depois foi a tortura física,... Na minha idade, com 15 anos, não pouparam o meu físico, levei muita porrada. Resisti… Depois de um mês de interrogatórios estive isolado, dois anos. Havia momentos em que falava sozinho, para ouvir a minha voz… Passada uma semana, voltaram a interrogar-me. Disseram-me que eu só tinha dito mentiras e recomeçaram. Passei mais 60 dias de interrogatório. Foi terrível... terrível… Assisti à morte de cinco a seis presos por dia… Dia sim, dia não punham-me de joelhos, em cima de pedras, com os braços abertos, de manhã à noite, mas eu nada revelei... Uma médica que me assistiu aconselhou que os agentes dos serviços prisionais não me batessem mais porque poderia morrer. Que pretendiam de mim? Que desvendasse os nomes dos elementos de um partido local.”
              (Declarações de um prisioneiro guineense no tempo da guerra em África, inseridas no artigo «A PIDE existiu. E torturou.», in Diana Andringa, Público, 16-04-1994, p.21)      
                                                        
Páginas eletrónicas consultadas
·         http://www.historiadeportugal.info/pide/
·         http://www.infopedia.pt/$pide-(policia-internacional-e-de-defesado;jsessionid= a4Ew3FOe0L0u49Z+jRou4w__
·         http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/PIDE.htm


Inês Cera (12ºLH)

nas páginas da História: lembrar o passado, pensar o presente

Movimento de Unidade Democrática


Com a vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial, e face às pressões políticas externas após 1945, sobretudo da Inglaterra e dos Estados Unidos, Salazar simulou uma certa abertura do regime: aligeirou a censura; autorizou manifestações populares; libertou presos políticos e prometeu eleições livres.
Foi neste contexto de aparente abertura política que surgiu o Movimento de Unidade Democrática (MUD), fundado a 8 de outubro de 1945, com a autorização do governo.
O principal objetivo era concorrer às eleições para combater o regime salazarista, proporcionando um debate público em torno da questão eleitoral. Contudo, esta “liberdade” é abolida após a campanha presidencial da oposição do general Norton de Matos, em 1949, ano em que o MUD é remetido para a ilegalidade. De facto, a adesão popular ao MUD, no quadro da crise interna e do enfraquecimento do regime após-guerra, excede todas as expetativas.
Neste contexto, os ativistas do MUD são perseguidos pela PIDE, alguns despedidos e outros presos.

Juliana Rosete (12.º LH)


nas páginas da História: lembrar o passado, pensar o presente

A implantação da República em Portugal


Todo o processo teve início no dia dois de outubro de 1910, quando se deu uma revolução organizada pelo Partido Republicano Português. A vitória conseguida no dia cinco de outubro destituiu a monarquia constitucional até aí existente e implantou um regime republicano.

Nos finais do século XIX, Portugal vivia, essencialmente, de uma agricultura rudimentar, a industrialização não tinha ainda quase peso nenhum, dando-se apenas em alguns sectores e em algumas fábricas. Os gastos da família real, a subjugação de Portugal face aos interesses britânicos nas nossas colónias, a instabilidade política e social e o poder da igreja católica foram os principais motivos que levaram a uma tão grande revolta, uma vez que a população vivia em más condições e estava consequentemente insatisfeita.
Os republicanos reclamavam direitos como o direito à greve, direito a quarenta e oito horas de trabalho semanais, oito horas diárias com direito a um dia de descanso semanal, um seguro social obrigatório para doenças, invalidez e velhice, e também a criação de um ministério do trabalho e da previdência social.
Teófilo Braga
Já houvera antes várias tentativas de derrube da monarquia, como. por exemplo, a manifestação de 31 de janeiro de 1891, assim como muitas outras manifestações, e, claro, o regicídio que vitimou D. Carlos, em 1908.
Após o triunfo dos republicanos, constituiu-se um governo provisório, tendo como presidente o Dr. Joaquim Teófilo Braga. O primeiro presidente a ser formalmente eleito foi Manuel de Arriaga, governando o país de 1911 até 1915, sucedendo-lhe Teófilo Braga novamente.
A república manteve-se até aos dias de hoje.
 
Miguel Bolito (12ºLH)



quinta-feira, 18 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




«Mas a meio caminho voltou para trás, direita ao mar. Paulo ficou de pé no areal, a vê-la correr: primeiro chapinhando na escuma rasa e depois contra as ondas, às arrancadas, saltando e sacu­dindo os braços, como se o corpo, toda ela, risse.
Uma vaga mais forte desfez-se ao correr da praia, cobriu na areia os sinais das aves marinhas, arrastou alforrecas abandonadas pela maré. Eram muitas, tantas como Paulo não vira até então, espaçadas e sem vida ao longo do areal. O vento áspero curtira-lhes os corpos, passara sobre elas, carregado de areia e de salitre, varrendo a costa contra as dunas, sem deixar por ali vestígios de pegada ou restos de alga seca que lhe resistissem.»
«Marcaste o despertador»
«Hã?»
«O despertador, Quim. Para que horas o puseste?»

Em Uma simples flor nos teus cabelos claros, José Cardoso Pires traz-nos o desencontro de mundos no quotidiano de um casal marcado pelo marasmo dos dias, pela distância no relacionamento e pelo refúgio num romance lido, em busca do equilíbrio entre o real e o ideal.

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BOAS FÉRIAS e boas leituras!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




Jean -Charles, Amor de Calções - um conto perdido na teoria do conto e a fazer emergir pai e filho em tensão entre o amor e a liberdade de quem se quer a voar ninho fora, julgando-se de asas inquebráveis. De permeio, estórias de humor entre o doce e o amargo traçam mais fundo o perfil da personagem que nenhuma teoria ajuda a entender.


     «Uma vez, um novo aluno nosso veio cá a casa. Ao jantar, a Inês quis saber das minhas impressões. Muito tímido – disse eu. O Miguel interjetou: Claro! Vem aí assim de repente, sem ter ideia de nada, e apanha com o pai sem anestesia!
     Sei lá. Estou a recordar-me de outra ocasião em que, de visita cá em casa, um colega revelou que, para debelar a crise da meia-idade desopilando um pouco a acelerar na estrada, comprara uma Harley Davidson. O Miguel aproveitou-se: Devíamos oferecer-te uma. Curioso, perguntei:Para quê? Então explicou: Para descontraíres, dares oportunidade total de expansão ao teu outro eu.
       – E qual é ele?
       – O amável, gentil.
       Nem sempre era eu o alvo. Começou muito cedo a ler a Time Magazine e fazia-o quase de ponta a ponta. Era uma reportagem sobre Clint Eastwood. Passei por ele, olhei a revista, dei-lhe um beijinho e disse-lhe: Nem Clint Eastwood seria para ti um melhor pai do que eu.Ele: Claro! E saltando do sofá imitando o sacar da pistola à cintura como um cowboy em acção:Se não comes os cereais, Pum! Pum! Pum!»

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terça-feira, 16 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.


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       «... Mas estou mesmo a precisar de férias... Se não descanso, não sei se chego em boa forma ao final deste ano.
     Este verão estive quase para ir para a Islândia. Tive uma oportunidade única, apaixonei-me por uma mulher que ia de férias com o filho para a Islândia uma semana depois de nos conhecermos. Confesso que quase me deu na veneta e comprei um bilhete de avião, cheguei mesmo a pensar meter férias a meio do mês, assim sem mais nem menos, eu até tenho folgas para gastar, nem precisava de gastar dias de férias e aquela semana até tinha dois feriados pelo meio, e o museu onde eu trabalho até fazia ponte num deles e eu tinha terminado o relatório do ano que é o que me retira mais tempo e me cria mais tensão lá no escritório, eu até podia tirar férias sem perguntar a ninguém, sou o meu próprio chefe no meu departamento, era só preencher o formulário e carimbar, e até era um período calmo no museu, não havia nenhuma exposição prevista para aquela altura, o edifício até estava em obras, e tinha sido perfeito...»

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




«Este era o conto que eu  queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças...»

José Saramago


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Boas férias e boas leituras!

sábado, 13 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.


Ninfas e Adamastores - Açores do séc. XIX. Um emigrante judeu do Magrebe estabeleceu-se em S. Miguel e ali encontrou o lugar onde se enraizar, onde criar a família e a fortuna. Contudo, quer a nível pessoal, quer a nível financeiro, a luta para se manter numa terra, abandonando a vida errante, acaba por revelar-se maior do que ele próprio. 

     «Foi por livre e espontânea vontade que minha mãe decidiu ficar no Magrebe. Foi por livre  e espontânea vontade que minha mãe decidiu nunca contar que pouco depois dele ter viajado  para os Açores descobriu que estava grávida. Meu pai tentou, através de cartas, trazê-la para o “desterro”, como ela se referia a este lugar.
       Ocultou as cartas sempre, guardando-as, não sabia se ainda viria a necessitar delas. Mas o seu plano era outro. Tencionava dar por anulado o casamento por notícia da morte do marido. Assim, viúva e com apenas um filho, ainda jovem, conseguiria desposar de novo, o que no meio social dos meus avós e com a sua influência não seria difícil.
       Levou a cabo os seus intentos e vivi vinte anos com um homem a quem chamei pai, sem outros irmãos, sem desconfiar do real passado que minha mãe escondia de mim.
       Mandou fazer as malas logo após o funeral do meu padrasto. Não se pense que se sentia sozinha e por isso preferiria “desterrar-se” para ter a compreensível companhia masculina. O facto é que, vim a percebê-lo depois, os ecos de que o meu pai começava a negociar com gente de Inglaterra e, embora já contabilizasse algumas perdas, se destacava dos demais judeus daquelas paragens, chegaram-lhe aos ouvidos e refizeram-lhe os afectos esquecidos. A minha mãe gostava de dinheiro, de luxo. Casar-se com o meu padrasto gorou-a por completo. Ele não só nunca enriqueceu como nunca a libertaria para voltar ao seu anterior marido. Na verdade, ao aperceber-se da infelicidade da minha mãe, proibiu-a de sair de casa durante muito tempo.»


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quinta-feira, 11 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




Quartos de Hotel. Quartos de encontros, desencontros, reencontros, despedidas, partidas... 
A Literatura. O Amor. A Paixão. Sonho. Desilusão. Quartos de Hotel. Quartos de lua. Quartos de Vidas...

«[...] E fora tal o escândalo e a berraria que aquilo que não passaria de um episódio sem rasto acabou por transformar-se no funeral daquele casamento. As coisas que têm de acontecer lá se organizam para os seus desenlaces, em geral por ínvios meandros que nenhuma ficção suportaria, sob pena de parecer inverosímil. Assim meditava Maria Pascoal, enternecida com a conclusão da história que vira nascer e extraviar-se, naquele mesmo hotel à beira-mar, catorze anos antes. Lembrava-se das lágrimas de Carmen, da bebedeira de Miguel, do desejo que circulava em redor deles como um halo de luz, tão intenso e cego, tão infantil e desavisado, incapaz de ver o seu caminho. Essa aura invadia agora o hotel inteiro, infiltrava-se nos quartos dos congressistas, tinha uma existência física. A marca distintiva do amor é a de uma terceira entidade, atmosférica e concreta, que faz com que os amantes se transfigurem na presença um do outro. O amor empurra dois corpos um para o outro, como se dançassem, ainda que em lados opostos da sala ou do mundo.»

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quarta-feira, 10 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.



A queda de um anjoUma octogenária descontente com o Paraíso, pois não tem junto a si a pessoa que mais ama, decide viajar para o Inferno. Para ela, o Paraíso pode ser infernal e, ao contrário, o Inferno poderá ser uma fonte de felicidade.

      «Quando era nova pensei que deveria substituir os fins por recomeços para não ter muita coisa para enterrar. Depois, quando envelheci, pensei que talvez devesse passar mais tempo a enterrar coisas. Funciona com as dálias e com as margaridas. Enterramos sementes e aquilo cresce em direção ao sol. Os corpos sem luz têm vontade de se exibir e de crescerem pelo céu acima como se subissem escadas. Enterramos coisas e elas crescem, aparecem, engordam, ficam verdes. É um bom exercício e foi algo que fiz com frequência: enterrar-me no jardim. O meu marido detestava que o fizesse, mas aquilo dava-me vontade de viver e eu saía da terra como as dálias e as margaridas, cheia de pétalas e cheia de cores. Enfiava-me a preto e branco e saía como se fosse felicidade. Depois passava muito tempo a limpar a roupa e, por três vezes, apanhei carraças. Tive de as tirar com um jornal a arder e eu detesto queimar as notícias. Dizem que não prestam, mas eu sinto que são importantes e informam-nos que a nossa vida está sempre a caminhar para o abismo e que não há nada a fazer senão continuar a votar nas pessoas erradas, que é para isso que serve a democracia, segundo me é dado perceber.»

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terça-feira, 9 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.



O Progresso da Humanidade - 1939, vésperas da II Guerra, manchete do DN. «Coisas que Não Estão Certas: haver lobos em terras do Continente português é uma vergonha. É um sinal de primitivismo, de barbárie, de atraso, que não se compadece com as expressões do nosso progresso». Mas, 70 anos depois, Oliveira vai matar os lobos e salvar Portugal.
  

       «Finalmente, na coluna do lado, anunciava-se a abertura oficial do concurso da “Aldeia  mais Portuguesa de Portugal”. Não a mais bonita, mas a mais portuguesa. “Portugal, de há um século para cá, tem vindo a desaportuguesar-se, a trocar a sua vida antiga, simples, ingénua, graciosa, muito sua e distinta da dos outros povos, pelo modo de ser, pensar e agir do estrangeiro, nomeadamente do francês.” A tarefa, agora, era “reaportuguesar Portugal. Restituí-lo ao seu torrão nativo, à pureza dos seus costumes primitivos, posto de parte o receio de certos assustadiços e derrotistas, tementes de que tal renacionalização empecilhe o Progresso.”
        O Inspector sublinhou a expressão “pureza dos seus costumes primitivos”. Mais um termo que surge ligado à desgraça de Oliveira, tudo indica que sim.
        Mas a pista mais forte é a do próprio dia da abertura de Nova Iorque, 1939. O Inspector  fotocopiou o recorte e distribuiu-o pelos colegas. Quando se inaugurava a feira mundial que mostrava “o Mundo do Amanhã”, as viagens interplanetárias e os robôs cozinheiros,  o “Diário de Notícias” publicava, em caixa destacada na primeira página, a rubrica:

         COISAS QUE NÃO ESTÃO CERTAS

         À primeira vista o caso parece não ter importância de maior. Mas tem. E muita. 
Haver lobos em terras do Continente português é uma vergonha. É um sinal de primitivismo, de barbárie, de atraso, que não se compadece com as expressões do nosso progresso, com a situação de um país como Portugal, país civilizado, país europeu.

       Esta notícia teve grande impacto no jovem. O Inspector acha que sem ela, lida no local e no ambiente em que estava, “o indivíduo em causa ainda hoje estaria vivo”. Os colegas e superiores não acreditaram que um parágrafo de jornal, com quase setenta anos, pudesse causar aquilo, mas o Inspector fez uma pesquisa paralela nos jornais e Internet. Depressa descobriu a extraordinária coincidência: a visita de Oliveira a Santa Comba deu-se na altura em que surgiram notícias novas sobre “o regresso dos lobos a Portugal”. Setenta anos depois.»


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segunda-feira, 8 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.


A missanga, todas a veem.
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.

       A maioria dos contos de O fio das missangas centra-se em estórias breves,  mas contendo, cada uma delas, as infinitas vidas que se condensam em cada ser humano, revelando,  com fina sensibilidade, o universo feminino e dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento, como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso. São vinte e nove belíssimas “missangas” literárias, contos unidos em redor de um fio, que é a escrita encantada de um consagrado fabricante de ilusões.
     A linguagem é trabalhada em delicada filigrana, confirmando o que o autor disse de si mesmo: «conto estórias por via da poesia».

          «Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
          Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.
        Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda minha vida.» [do conto A despidideira]

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sexta-feira, 5 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




      «E o problema não era só isso não acontecer — não era, não — o problema, o grande problema quando amamos alguém, é que só essa pessoa nos pode dar o que queremos. E quando amamos alguém o que dela queremos é amor, do mesmo modo que quando vamos à farmácia queremos medicamentos. E houvesse um que nos fizesse esquecer quem amamos e não nos ama e aqui vos juro que o tomaria todo. As caixas que houvesse. Mas não havia. Nunca houve. Cheguei a dizer-lhe “Temos 50 por cento para isto dar certo. São os meus 50 por cento”. Mas não havia forma de ela me dar percentagem, de negociarmos de algum modo um aumento, como tantas vezes fazem os líderes sindicais. O Arménio Carlos resolveria isto num tomo, mas eu não sou o arménio Carlos e duvido bem que a CGTP me pudesse ajudar. Até que um dia ela me disse  “Ouve, o problema não és tu. É ela”. Vou repetir. O que ela disse foi: O problema não és tu, é ela.  E nesse preciso instante, abriu o telemóvel que trazia na mão e virando o visor para mim mostrou-me quem ela era...»

Amo-te para sempre é uma história de amor que muitos dizem ser autobiográfica. Um conto que finta o amor e o transforma em definitivo. Um conto onde a força do amor tolda a razão, fala mais alto do que as consequências, precipita, irremediavelmente, as atitudes...

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quinta-feira, 4 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.



       «Perdeu a noção do tempo gasto a erguer o muro, mas não seria improvável que tivesse passado todo o Verão no jardim a assentar tijolos, porque os dias murcharam – e não podia ser um efeito iatroquímico, criado pela fadiga em conjunção com os raios do Sol em relação à altura do muro, porque este era mais comprido que elevado. Subiu pela última vez à sala do andar superior e observou o muro desse nobre – e vazio – ponto de vista. A verdadeira biblioteca estava em baixo, no jardim, dentro do muro: palavras envoltas pelo barro.
       No fundo, não era isso um homem?
       Palavra enroupada pelo barro, feito, temporariamente, carne?
       Esta retornaria ao pó após a morte, mas e a palavra? A palavra não retornaria a parte alguma, pois de nenhuma parte viera: ia. Ia e reverberava pelo cosmos – se não infinitamente, quase. E o bom de ser-se quase infinito é que, desse modo, é-se eterno.»

No Muro é um conto que reflete sobre a finitude do conhecimento, através de um não-leitor que herda a coleção de livros do pai. Encontramo-nos quando achamos livros, perdemo-nos quando os esquecemos...

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Boas férias, boas leituras!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




         «O dia em que o vi pela primeira vez começou, então, como outro dia qualquer. [...]
        Lembro-me de estar sentada com ele no café, ao fim daquela manhã, e de esta pergunta absurda não me sair da cabeça. When’s Bangladesh going to disappear? Não disse, no entanto, uma palavra sobre o Bangladesh durante todo o encontro. O que nos passa pela cabeça é quase sempre inconfessável. When’s Bangladesh going to disappear?  [...] Tínhamos combinado encontrar-nos às 10:30. Eu iria ter ao trabalho dele e depois tomaríamos um café. Gosto de conhecer pessoas. Não tenho a nossa espécie em grande conta mas gosto de conhecer pessoas. Apesar disso não é meu hábito encontrar-me com desconhecidos que me contactam a propósito do meu trabalho. Há sempre demasiada formalidade mesmo quando o fazem, como ele fez, através do facebook. Cria-se um constrangimento que afasta a possibilidade de qualquer encontro. No caso dele não foi assim e até fui eu que propus o encontro. Ele era um homem bonito mas não foi isso que me levou a convidá-lo para tomar um café. Marquei o encontro por curiosidade, a eterna curiosidade. Queria saber se ele era o Machina ex Deus.»

          Uma mulher tem um encontro marcado com um desconhecido. O desconhecido tem sempre tanto de sedutor quanto de ameaçador. Que fazer? A mulher demora-se, frente ao computador. Atrasa-se. Talvez se afunde nos abismos que um psicólogo garantiu existirem no seu interior. Talvez se perca no outro lado do mundo, em Bangladesh, onde nunca faz frio. Ou talvez, ainda, se entregue nos braços de Machina ex Deus

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terça-feira, 2 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.


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«Havia dois meses que se encontravam com crescente frequência. No caso dela isso implicava um grande esforço logístico, pois tinha dois filhos pequenos. Ainda não era o tempo dos computadores nem da internet nem do facebook, mas já então virara moda o divórcio com as crianças ainda pequenas. As teorias variavam: a crise dos dois anos, a crise dos cinco anos, a crise dos... Uma análise comezinha à realidade provaria, suponho, que a crise é permanente. Sempre foi mais fácil destruir do que construir. Criticar do que fazer. Ou falhar uma promessa — “amar-te-ei para sempre” — do que levar a bom porto essa ingénua jura. Um dos muitos encantos de Carolina era a franqueza. Um par de vezes tomara ela própria a iniciativa e convidara Artur a sair. Mostrando assim, com frontalidade, o seu interesse por ele. Mais frontal só esfregando o fio dental no focinho dele. Só que, à época, fio dental era apenas um cordão para limpar os dentes.»

A história decorre nos anos 80. Um narrador improvável. Um restaurante ao lado de uma sala de cinema. Ele, Artur. Ela, Carolina. Cannelloni e lasagna. Romance anunciado? Já agora, também a vida. 

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

um conto por dia...

... nem sabe o bem que lhe fazia!

       O conto é uma narrativa de curta dimensão, cuja ação nos prende pela precipitação rápida para o final, normalmente inesperado. E, por ser conciso, facilmente nos envolve na trama em que enreda as personagens, sem grandes dispersões de espaço ou tempo e centrando-se na mensagem que nos quer transmitir.




       Revisitando Eça de Queirós, sugerimos a leitura de Adão e Eva no Paraíso.

«Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde...»

     É assim que o narrador do conto Adão e Eva no Paraíso procede ao relato da sublime aventura de um «certo Ser [que], desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirara toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no solo que o musgo afofava, sobre as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento de que era, e verdadeiramente foi! Deus, que o amparara, nesse instante o criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão caminhou para o Paraíso.»
     Caminhando por jornadas diversas de experiências e aprendizagem, vai desbravando a floresta do Conhecimento. São lutas, obstáculos, desafios que gradualmente o obrigam a reagir e a adaptar-se ao meio hostil, ao mesmo tempo que lhe vão solidificando a confiança em si próprio e lhe revelam a Sabedoria.
     Mas não caminha sozinho. No seu percurso, é acompanhado por Eva, «nossa Mãe venerável», consoladora, generosa, maternal, mas também persistente e sábia, e é ela «que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da Humanidade»...

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Boas férias e boas leituras!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

21 de junho, "Meán Samhraidh"


       Em todo o mundo, muitas das ruínas das civilizações antigas revelam profundos conhecimentos sobre astronomia e os corpos celestes e constituem-se, muitas vezes, em locais de observação designados por alinhamentos sagrados.  Acontece, por exemplo, no dia 21 de junho, em Stonehenge , local de culto druidico, ou em Pedra de Cabeleira de Nossa Senhora : o sol, ao pousar no horizonte, projeta os seus raios em perfeito alinhamento com a sua crista e o centro do círculo votivo, situado no enfiamento a uns metros a oriente, assinalando a entrada do verão e proporcionando um incrível momento de observação do astro-rei. 
       Estes monumentos evocam, também, uma conceção cíclica do tempo e rituais de gratidão e respeito pela Terra. São reminiscências da fascinante e mágica cultura celta, onde as divindades celtas estão frequentemente associadas aos principais festivais que marcam as estações do ano druida. São dias fortemente ligados aos ciclos das sementeiras, crescimento, ceifa e armazenamento das colheitas e são semelhantes aos ciclos da vida do homem e dos animais.
        Meán Samhraidh (Midsummer, a 21 de junho - solstício do verão) era um festival de bênção das colheitas e do gado.

«[...] ao longo do trilho de carroças vinha um bando de jovens, rapazes e raparigas, rindo, assobiando, gritando, com flores e fitas nos cabelos. Observei-os calmamente. À medida que o bando passava por entre os espinheiros-alvar, fazia pausas para envolver os ramos, ainda perfumados da floração, com bandeirolas, cantando uma velha canção, pedindo à Grande-Mãe uma colheita abundante. Os jovens cantavam com faces e olhos brilhantes; e, quando terminaram, as raparigas desataram aos risos e correram pelo trilho abaixo com os rapazes a perseguirem-nas, recomeçando tudo de novo.
       Dois dos rapazes levavam às costas feixes de lenha e o grupo separou-se, as raparigas continuando pelo trilho fora até cada espinheiro-alvar ficar com a sua bandeirola doirada e branca e fitas verdes. Os rapazes encaminharam-se para a colina mais próxima, vi-os preparar uma fogueira no topo e percebi que eram os preparativos finais para o Meán Samhraidh, o solstício do Verão.
          Esta noite haveria oferendas passadas por cima da fogueira e ervas a arder seriam transportadas para os estábulos e celeiros, para os campos e cabanas, pedindo a bênção de Dana, a mãe-deusa, para todas as criaturas neles residentes.
          E chegara a hora. A hora para descobrir, se queria acreditar no que a Dama me dissera. Hora de saber se era verdade...».

       É esta a descrição que Juliet Marillier faz de Meán Samhraidh, numa narrativa plena de riqueza da mitologia celta: passada no crepúsculo celta da velha Irlanda, quando o mito era Lei e a magia uma força da natureza, esta é a história de Sorcha, a sétima filha de um sétimo filho, o soturno Lord Colum, e dos seus seis irmãos. [adaptado da contracapa]


Para ler, em formato ebook, pode descarregar aqui.

E, como a música, qualquer que seja a cultura, é sempre um alimento para a alma, deixamos 




Boas leituras!


quinta-feira, 13 de junho de 2013

[celebrando] 125...



... velas, no bolo de aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, que se celebra hoje, dia 13 de junho.
Integrada nas comemorações está a publicação do livro Fernando Pessoa & Ofélia Queiroz - Correspondência  amorosa completa, cuja organização é da responsabilidade de Richard Zenith, que integra 348 documentos, transcritos integralmente, dos  quais 156 são inéditos.

Então, como começou o namoro?

Ophélia Queiroz é admitida, com 19 anos, no escritório onde Fernando Pessoa trabalhava como colaborador. 

       Um dia faltou a luz no escritório. [...] O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o, e pô-lo em cima da minha secretária.
       Um pouco antes da hora da saída, atirou-em um bilhetinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique.» Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura, já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu, confesso, também lhe achava uma certa graça...
      Lembro-me que estava de pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia:«Oh, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até ao último extremo, acredita!»
       Fiquei perturbadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer palavra, beijou-me, beijou-me, apaixonadamente, como louco.
       Fui para casa [...]. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi escrever-lhe uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta [...]. Assim começámos o namoro. [1]

Eis a carta em questão, a primeira carta de amor de Fernando Pessoa.

Ophelinha:

       Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.
       Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação — creio eu — de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
       Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».
       Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal — nem a si, nem a ninguém —, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
        Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.
      Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...
       Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.

1.3.1920.

Fernando Pessoa

[1]in Queiroz, C. (1936) Homenagem a Fernando Pessoa. Coimbra: Ed. Presença.

E foi assim, em verso, o despertar de uma verdadeira paixão amorosa.

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos,
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida,
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p'ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.
[...]

Fernando Pessoa