segunda-feira, 26 de maio de 2014

a ler... em férias - ensaio



«The human mind prefers to be spoon-feed with the thoughts
of others, but deprived of such nourishment it will, reluctantly, begin
to think for itself - and such thinking, remember,
is original thinking and may have valuable results.»

Agatha Christie

   O uso incontrolado das aplicações técnicas da ciência, nomeadamente, por padrões éticos que tivessem em consideração o respeito pela sustentabilidade da vida e do planeta Terra, levaram a uma incompreensão do que é a ciência. Algumas posições mais fundamentalistas veem na ciência uma perda do mistério da natureza.
  Porém, como defende Richard Dawkings, um dos grandes paladinos da divulgação científica, "o sentimento de respeito deslumbrante que a ciência nos pode oferecer é uma das experiências mais notáveis da mente humana. É uma profunda paixão estética que tem o seu lugar entre o melhor que a música e a poesia podem proporcionar. É verdadeiramente uma das coisas que fazem com que  a vida mereça ser vivida" (Dawkings, 2000, 10).


Isabel Bernardo

Aqui ficam mais alguns desafios para descoberta... através da leitura.




Referência bibliográfica:
Dawking, R. (2000). Decompondo o arco-íris. Lisboa: Gradiva.

domingo, 18 de maio de 2014

a ler... em férias - romance...



«What a miracle is that out of these small, flat
rigid squares of paper unfolds world after world,
worlds that sing to you, comfort and quiet or excite you.
Books help us understand who we are and how we are to behave.
They show us what community and friendship mean;
they show us how to live and die.»

Anne Lamott

     Quando anoitece, preenche-nos um sentimento de um dia bem conseguido. 
     O sol põe-se. Na plenitude de uma varanda debruçada sobre o mar, ouvem-se as cigarras e os grilos.
    Com um romance nas mãos, entra-se no imaginário de olhos bem abertos, à procura da completude perfeita de mais um dia.

Isabel Bernardo


Aqui ficam algumas sugestões de leitura... evasão... sonho... romance...

sábado, 17 de maio de 2014

a propósito do Dia Internacional dos Museus

um hino à memória dos feitos humanos


O ramo de flores no museu

Ó Cinérea Princesa, as vossas flores
Ficarão para sempre mais perfeitas,
Já que o tempo extinguiu brilho e cores

Já que o tempo extinguiu a habilidosa
Mão que levou, serenas e discretas,
A tulipa sucinta e ardente rosa.

Não há mais ilusão de outra presença
Que a do Amor que inspirou graças tão finas
Que ninguém viu e que ninguém mais pensa
Porque o homem e o mundo são de ruínas.
E este ramo de pétalas franzinas,
Leve, liberto da mortal sentença,
Tinha, ó Princesa, fábulas divinas
Em cada flor, sobre o nada suspensa.
Cecília Meireles


Ser com consciência do tempo e da morte, o Humano aspira à eternidade.
Perecível, guarda o que, de outra forma, seria corrompido pelo tempo.


Depositários do que a humanidade acrescenta à natureza, os Museus são símbolos da cultura, mensagens que atravessam o tempo em direção aos vindouros.
Memórias do passado, são alicerces do futuro.

Ficam aqui alguns Museus, para visitar virtual e pessoalmente.




quinta-feira, 15 de maio de 2014

Porque a ciência também é cultura

a vida no universo [a propósito do planeta Kepler 186f]

 
A Agência Espacial Americana (NASA) anunciou recentemente a descoberta do Kepler-186f, um planeta mais ou menos do tamanho da Terra, no qual, pensa-se, há grandes hipóteses do planeta ter água no estado líquido, uma das condições fundamentais para a existência de vida sobre a sua crosta.
 
Figura 1 - Edifício da NASA
Figura 2 - Imagem do planeta Kepler 186F
 
                          
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quanto mais planetas são descobertos, maior é a probabilidade de encontrar planetas semelhantes ao nosso. Assim sendo, os astrónomos acreditam que aumente também a probabilidade de encontrar vida noutros lugares do universo.
A definição de vida, é porém, muito complexa e está longe de consenso entre os cientistas. O estudo da vida na Terra, o único tipo conhecido até hoje, mostrou que, apesar da grande biodiversidade terrestre, todos os seres são similares: são feitos de células ou, como os vírus, dependem delas; usam ácidos nucleicos como o DNA para armazenar e transmitir informação genética; e possuem um metabolismo similar.
Mas não é impossível a existência de outros tipos de vida espalhados pelo universo. Afinal, mesmo a Terra guarda muitos organismos que ainda são enigmas para os cientistas. Em 2010, pesquisadores da NASA encontraram uma bactéria num lago da Califórnia, nos Estados Unidos, que se comportava como um ser extraterrestre: não usava nenhum dos seis elementos fundamentais à existência, mas sobrevivia a partir de arsênio, um elemento altamente tóxico.
 
No Kepler-186f, um ano dura 130 dias. O novo planeta gira em torno de uma estrela chamada Kepler-186, na constelação de Cisne, a uns 500 anos-luz da Terra. A Kepler-186 é uma estrela anã vermelha. Estrelas desta categoria têm menos de metade da massa do Sol. Na sua órbita, há outros planetas além deste “novo primo da Terra”. Mas não há indícios de vida em nenhum deles, porque estão muito perto da estrela, onde é demasiado quente.
Figura 3 - Representação esquemática dos planetas Kepler e Terra
 
 
Planetas que orbitam em torno de estrelas fora do Sistema Solar não são novidade na astronomia. Só em zonas habitáveis, regiões onde as condições para a vida são mais favoráveis, há pelo menos 20 planetas já conhecidos. Mas, em comparação com outros, o Kepler-186f está em vantagem, pois tem dimensões muito próximas às do mundo onde vivemos, deve ser rochoso e composto também de ferro, água e gelo, tal como a Terra. Segundo alguns cientistas, isso significa que a sua atmosfera também deve ser parecida com a nossa. Não está muito próximo, nem muito distante da sua fonte de calor e luminosidade, o que faz com que suas temperaturas não sejam extremas. Essa é uma das características que mais empolgou a comunidade científica.
Na Via Láctea não há apenas uma Terra. Há 40 biliões delas. O Kepler-186f, planeta fora do Sistema Solar muito semelhante ao nosso, provavelmente será conhecido como o primeiro dessa espécie. Num futuro próximo, muitos planetas parecidos com a Terra serão revelados pelos astrónomos.
 
 
 
Figura 4 - Representação da Via Láctea vista de cima.
Na Via Láctea, muitos planetas, além da Terra, podem abrigar vida
Para cientistas, o Kepler-186f foi apenas o primeiro planeta parecido com a Terra a ser descoberto na Via Láctea.
 O avanço da ciência espacial permite concluir que a pergunta que há milénios nos intriga “ Estamos sozinhos no universo? “ Não tem resposta.
                                                                

Paula Neves
 
Referências bibliográficas:
Loiola, R. (2014, abril 27). Uma galáxia com 40 biliões de Terras. Veja. Em http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/uma-galaxia-repleta-de-terras 
Cohen, O. (2014, abril 17). Kepler 186f: NASA descobre novo planeta que pode abrigar vida. Superinteressante. Em http://super.abril.com.br/blogs/supernovas/2014/04/17/nasa-anuncia-que-kepler-186f-novo-planeta-descoberto-pode-abrigar-vida/
s/a (s/d), Astrônomos anunciaram descoberta de Kepler 186f planeta habitável igual à Terra.  Sortimentos.com. Em http://mais.sortimentos.com/astronomos-anunciam-descoberta-de-kepler-186f-planeta-habitavel-igual-a-terra/
 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

saber, para bem viver

dia 13 de maio [dia mundial do melanoma]

 
Pele, radiação UV e melanoma
 
Considerado o órgão de maior área do nosso corpo, a pele estabelece a fronteira entre o interior, onde deve reinar o equilíbrio, ainda que dinâmico, e o exterior, que nos proporciona algumas das condições fundamentais, para que esse equilíbrio seja atingido.
Na pele localizam-se importantes glândulas, sudoríparas e sebáceas cujas secreções contribuem para controlar a temperatura corporal (glândulas sudoríparas) e a hidratação cutânea (glândulas sebáceas). A pele íntegra e as respetivas glândulas são fundamentais na construção de um mecanismo de barreira integrado na imunidade não específica (proteção do organismo contra agentes patogénicos externos).
É também na pele que se localiza um lípido (gordura) – ergosterol, que pode ser convertido em vitamina D por ação da radiação solar. Esta vitamina, é fundamental na absorção do cálcio a nível do intestino e na sua deposição ao nível dos ossos, o que contribui para o seu fortalecimento.
Na pele – figura 1, localizam-se também células produtoras de melanina (pigmento de cor escura) – melanócitos, cuja produção é fundamental para nos proteger da radiação UV (ultra violeta), sejam os UVA ou os UVB. A quantidade de melanócitos existentes na pele não difere significativamente de pessoa para pessoa.
 
Figura 1
Contudo, nas pessoas de pele mais escura a produção de melanina é superior à que se verifica nas que têm pele mais clara. Estas adaptações estão associadas à latitude. Em países de menor latitude onde a radiação solar é mais intensa, as populações originais apresentam pele mais escura, já as populações originárias de países de maior latitude, apresentam normalmente pele mais clara. Daqui se conclui que, o modo de proteção relativa aos raios UV, difere muito de indivíduo para indivíduo, razão que nos deve levar a refletir sobre a atitude diferente que cada um deve assumir, quando apanha sol.
Sendo um órgão que contacta sistematicamente com meio, a pele está sujeita às mais variadas agressões, razão pela qual a devemos proteger de forma conveniente. Quando apanhamos sol, os melanócitos são estimulados a produzir melanina. Em resultado dessa produção a pele torna-se mais escura, dizemos que fica bronzeada. Porém, se apanharmos sol em demasia, em vez de um bronzeado, podemos apanhar um “escaldão”. Em resultado da interação da radiação UV, (radiação considerada mutagénica) com os melanócitos, ou com outras células da pele, podem resultar danos no seu DNA (informação genética) que, pode ter como consequência uma desregulação nos mecanismo de divisão celular. Assim, estas células, que se encontram programadas geneticamente para se dividirem com determinada frequência, podem passar a dividir-se mais vezes originando agregados celulares – tumores, cujas células danificadas podem continuar no seu local de produção ou migrar, através do sistema circulatório, para outros locais onde se podem vir a desenvolver novos tumores. Quando os tumores são malignos denominam-se cancros e o processo de disseminação através do sistema circulatório é designado por metastização. Melanoma é a designação atribuída ao cancro que resulta da desregulação da divisão dos melanócitos.
O melanoma é o tipo de cancro da pele mais grave. Em Portugal surgem, anualmente, cerca de 700 novos casos de melanoma maligno.
Nos países ocidentais, todos os anos o melanoma tem aumentado.
As consequências da ação do sol e de outros fatores sobre a pele, está bem patente quando, em pessoas de meia idade, se compara a pele de áreas mais expostas com outras que, só excecionalmente o são – figura 2.          
 
Figura 2
É notório o envelhecimento da pele em áreas mais expostas, sobretudo ao sol. Por outras palavras, apesar da exposição solar ser muito benéfica, em excesso, pode tornar-se prejudicial.
Que cuidados devemos então ter, para podermos usufruir dos benefícios do sol sem que sejamos vítimas dos danos que o mesmo nos pode causar?
 
 
Malefícios do sol
 
As alterações que ocorrem na pele pela exposição ao sol são, além do bronzeado e queimadura já referidos: sardas, reações de fotossensibilidade, imunossupressão, etc. Quanto maior for a exposição solar ao longo da nossa vida, maior é a propensão para o aparecimento de manchas, rugas, perda de elasticidade e envelhecimento da pele. As alterações mais graves são as que se relacionam com o aparecimento de cancros da pele: carcinoma basocelular e espinocelular e melanoma, entre outros. De todos estes tipos de cancro o mais mortífero é o melanoma, contudo, todos são curáveis desde que identificados numa fase precoce do seu desenvolvimento. Por essa razão, é muito importante a vigilância regular de sinais que apareçam na pele mesmo na que se encontra coberta por pelos e cabelos.
 
Cuidados com o sol
 
Independentemente da idade e da cor, todos precisamos de nos proteger do sol. Contudo, os bebés, crianças pequenas, pessoas com pele branca, olhos claros, cabelo vermelho, sardas, pele muito sensível ao calor, ou portadoras de determinadas patologias cutâneas, devem redobrar essa proteção. Para nos protegermos do sol devemos ter em conta que:
- não se deve apanhar sol entre as 10 e as 16h quando a radiação solar é intensa;
- nesta altura do dia devemos procurar lugares com sombra;
- devemos usar roupa escura capaz de absorver a radiação UV e dessa forma evitar que a mesma atinja a pele;
- em alternativa devemos usar vestuário de malha apertada capaz de proporcionar idêntica proteção;
- devemos usar sempre protetor solar quando realizamos atividades ao sol, mesmo não estando na praia. Este, deve ter um fator de proteção ajustado em função das características da pele e da idade de cada um. Em crianças o factor de proteção deve ser 30 ou mais. Deve ser aplicado 15 a 30 minutos antes da exposição solar e reaplicado quando se transpira ou nada, ou pelo menos de 2 em 2 horas. Deve prestar-se particular atenção à proteção das mãos, ombros, orelhas, pescoço, nariz, pés, lábios e a área em volta dos olhos. Deve evitar-se o contato com os olhos e pálpebras. Os protetores solares não devem ser aplicados em bebés com menos de 6 meses.
Figura 3
 
- o protetor solar deve também ser usado em dias quentes de céu nublado já que as nuvens não nos protegem das radiações UV pelo que, mesmo sem sol, podemos ser atingidos por elas ou mesmo sofrer queimaduras graves;
- quanto maior a altitude mais intensa é a radiação ultravioleta razão pela qual devemos ter cuidado quando nos encontramos nesses locais;
- a água, areia e neve são altamente reflexivas e por essa razão a radiação alcança a pele mesmo na sombra;
- devemos ter muito cuidado com a neve em dias de sol;
- devemos usar óculos de sol com proteção UV e chapéu de abas lagas que possa proteger a face e o pescoço. No caso de usar boné deve ser de pala larga que deve ser ficar virada para a frente.

 Julieta Marques, Projeto PES

segunda-feira, 12 de maio de 2014

a ler... em férias - aventura, mistério, policial, fantástico...



                                                     «You should never read just for "enjoyment."
Read make yourself smarter! Less judgmental. More apt to
understand your friends' insane behavior, or better yet, your own.
Pick "hard books." Ones you have to concentrate on while reading.
And for god's sake, don't let me ever hear you say "I can't read fiction.
I only have time for the truth."
Fiction is the truth, fool!
Ever hear of "literature"? That means fiction, too, stupid.»

John Water

Suspende-se o tempo nas tramas do mistério, enquanto o sangue corre veloz.
Esquecem-se as horas e os afazeres e apenas fica o desejo, contraditório, de avançar mais uma página, em direção ao fim, e o querer que a emoção da descoberta não termine.

Por detrás da sombria natureza humana, capaz dos crimes mais hediondos, está a luz do castigo, a crença de que o mal nunca sairá impune.
O detetive, ainda que contaminado, traz a luz pela qual se anseia, o fim. E tudo fica bem.

Isabel Bernardo





quarta-feira, 7 de maio de 2014

a ler... em férias - contos


                                                             «Não há uma única forma de ler bem, apesar de existir uma razão fundamental para ler.»
Harold Bloom
    
    São as histórias que nos fazem, é a fantasia que nos alimenta a alma, são as memórias que nos constroem. Mas somos nós que decidimos como queremos ser construídos e com quê. É por isso que somos humanos.

    Os contos, pequenas histórias maravilhosas, fantásticas ou realistas, num instante nos transportam para um mundo imaginário, quão breve nos devolvem à realidade, ou de imediato nos puxam para dentro de outro universo... Leituras convidativas à preguiça de verão, em breves instantes à sombra da esplanada, entre banhos de mar e carícias de sol… Prazeres breves, como os de um delicioso sorvete...

Isabel Bernardo / Leonor Melo
Aqui ficam algumas sugestões.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

a propósito de Saramago...



                                                                               ... Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra.
                              Era uma vez a gente que construiu esse convento.[...]

José Saramago 


   “Juntam-se os homens que entraram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão escolhidos. Como os tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se foram homens, mandam-nos embora, em hora boa ou hora má, Não serves, volta para a tua terra, e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam.” (Saramago, 2005, p.307)

   Em Memorial do Convento, os homens são, de facto, como tijolos, simples peças da vontade megalómana de um rei e do poder inquisitorial. Quando não servem ou incomodam são eliminados e deles não rezará a História. Mas a História também não denunciará as vidas que se perderam e os sacrifícios vividos pela gente anónima que construiu o Convento de Mafra.
   A epopeia da construção do Convento apresenta o seu herói, trágico e universal. Apesar de esmagado pelo poder instituído, este consegue encontrar uma energia renovadora no sonho e no amor.

   Dos seus sonhos, a História também não falará. Cabe ao escritor a responsabilidade de reescrever a História para que esta se perpetue na memória dos homens: “ (…) tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier; Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados (…)". (Saramago, 2005, p. 250)
                                                              
                                                                                          Madalena Toscano

Referência bibliográfica:
Saramago, J. (2005). Memorial do convento. Lisboa: Caminho.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

da Liberdade às promessas...

... Ser Livre é uma construção.


Livre não sou
Que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
teimosia
é quebrar dia a dia um
grilhão da corrente.
         
  Miguel Torga

   O homem é, como os restantes animais, condicionado pela sua herança biológica. Mas, ao contrário dos restantes animais, que possuem uma natureza dada que lhes permite sobreviverem e adaptarem-se ao meio, a natureza humana é essencialmente cultural e as potencialidades que o homem herdou só se concretizam na interação com o meio humano. A natureza humana é assim, resultado de uma construção em que os aspetos biológicos e socioculturais se encontram indissociáveis, estando claramente presentes na expressão O homem é um ser bio-sócio-cultural.
   O condicionamento a que o homem está submetido, quer por parte da natureza, quer por parte da história, é pesado, mas não é total. Ao contrário dos restantes animais, o homem tem a possibilidade de decidir e de optar.
   O poeta, Miguel Torga, refere no seu poema o condicionamento natural, mas dá ênfase a uma vontade constante que o homem tem em quebrar as amarras, em construir a sua própria história. Faz-nos pensar no homem como um ser em construção, e portanto incompleto, que faz da vida um caminhar contínuo na procura do aperfeiçoamento de si.
Para o ser humano, o futuro não está completamente determinado, ele está em aberto e, como ser livre que é, o seu percurso é falível, errático; mas errar é humano e os erros não o condenam, servem de aprendizagem possibilitadora de deliberações mais acertadas que lhe permitem melhores opções.
   Ser livre não é fazer o que se quer, a liberdade de agir está sujeita a limitações que, se por um lado restringem a ação, por outro, permitem a liberdade de agir de outros homens. Apesar de inúmeros obstáculos que nos oprimem, ser livre é conseguir crescer, optando pelo bem, pelo melhor. Somos sempre os obreiros da nossa vida, os protagonistas da nossa existência e esta terá o valor que lhe conferirmos. 

Emília Larangeira



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Direito e trabalho

[a propósito do dia 1 de maio, dia do trabalhador]


Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado, e devido à irritação voltado para si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido.
Arendt, H. (2001). A condição humana. Lisboa: Relógio d´Água, p. 137.

(…)
crateras escavadas
no espírito e através
das quais, incandescentes, as imagens
do mundo sobre ele próprio se derramam

como uma lava espessa, esses sentidos
que, como aéreos
estigmas, nos imprimem
na carne a cicatriz do céu, a indecisa
maneira de as imagens

do mundo se guindarem
mais alto do que a alma ou o alento
de quem dentro de nós
aviva a sua chama. O que nos sai
do coração vem a ferver.

(…)
«Nas tuas mãos começa o precipício».

Nava, L. M. (2002). Poesia completa 1978-1994. Lisboa: Publicações D. Quixote.

Na canção ideário do 25 de abril de 74, Sérgio Godinho cantava que só haveria liberdade a sério se houver a paz, o pão, saúde e educação e trabalho. O trabalho surge, assim, como um direito, constitucionalmente reconhecido. No reverso, o desempregado, o inativo, sente-se em falha, sente uma falta que urge ultrapassar.

O labor (a necessidade de alimentar e de prover ao copo) e o trabalho (a fabricação que se acrescenta ao mundo e que em parte o destrói, pela não restituição do que é retirado para produção) surgem-nos como uma imposição.

Um homem em luta com a natureza e consigo próprio. As muitas fotografias de Sebastião Salgado (economista de formação e fotógrafo de vocação) mostram-nos imagens do trabalho como uma realização dolorosa. Na luta pela sobrevivência ou contra os elementos, o trabalho é-nos retratado como algo de profundamente penoso, doloroso, que parece reduzir parte da humanidade, sem atendermos à cor da pela ou origem, a um estado de mineralidade.



Porque consideramos, então, o trabalho como um direito e, mais do que isso, um desejo?

Na sua luta com a natureza, o trabalho, entendido como fabricação, traduz o desejo do homem de vitória, de superação, de controlo das forças que o ultrapassam. Na sua luta consigo próprio, o trabalho traduz no homem a capacidade de desejo, de vontade e de inteligência em se superar. O produto do trabalho, pela sua durabilidade, impõe-se para lá da morte. O trabalho é, assim, parte constituinte do projeto que é o Homem.



Na sua luta com a natureza, o trabalho, entendido como labor, significa a possibilidade de sobrevivência, de satisfação das possibilidades básicas. Na sua luta consigo próprio, o trabalho significa o contacto e o reconhecimento do outro, a inserção na teia social sem a qual não há ação nem possibilidade de ser para além da morte.

Assim, e apesar do esforço e da tensão, o trabalho é um dos instrumentos de criação do projeto em que cada um, como humano, se procura ver reconhecido e, por isso, entendido como um direito.
Isabel Bernardo


quarta-feira, 30 de abril de 2014

aprendendo de poetas...

... sobre Abril e as promessas


Alexandre O´Neill foi um poeta contemporâneo, com algumas marcas de surrealismo na sua poesia, de cariz urbano e que versava sobre a cidade, a sociedade, o regime salazarista…
O’Neill usa uma linguagem familiar e popular, recorrendo muito à ironia e ao humor negro.
Como poeta que viveu e sentiu o antes e o depois do 25 de Abril, os seus poemas revelam essas vivências: “Adeus Português”, “O poema pouco original do medo”, “Perfilados de medo”…
E o que revela sobre o que se vivia antes da Revolução? Um clima de perseguição, onde não havia liberdade para exprimir a opinião, onde, de um texto de 3000 caracteres, apenas 150 eram aprovados pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) e, muitas vezes, acrescentavam 50 de mentira e pura manipulação. Um clima de perseguição, em que tínhamos de fugir do nosso próprio berço, porque não havia aconchego, porque não havia segurança.
Depois, com a Revolução, muita coisa mudou: os exilados voltaram a Portugal, os presos políticos foram libertados, apareceram os partidos políticos, as eleições tornaram-se livres, a escolaridade passou a ser obrigatória até ao 9.º ano e o trabalho infantil proibido e a censura acabou por desaparecer.  
A 1 de Maio de 1974 já se comemorava a conquista da Liberdade prometida. Mas como tem sido o cumprimento dessa promessa? Segundo este poema de O´Neill, intitulado de “Traição”, parece não ter sido.

Quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse
1981
O´Neill viveu e morreu, deixou poesia. Mas será o que escreveu apenas versos? Não! É vida! É um retrato, uma bela pintura, porque a vida é a pintura mais bela que existe. É o quadro mais sagrado.
Descobri que a poesia de O´Neill é simplesmente VIDA, é um mar e uma praia, versos que se transformam em harmonia, sem deixar de denunciar, de criticar, de condenar…
Beatriz Catarino 10.º AV


segunda-feira, 28 de abril de 2014

aprendendo de poetas...


... sobre Abril e as promessas


                                                                "A poesia tem de voltar a subverter a linguagem do cifrão que afunilou as nossas vidas"

Manuel Alegre


Manuel Alegre é um português-poeta que acompanhou / acompanha, interveio / intervém na vida política e social portuguesa. 
Habitualmente, não sou uma pessoa atenta aos acontecimentos políticos do país, mas, ao ler alguns poemas de Manuel Alegre, dei por mim a pensar sobre o que se passou antes do 25 de Abril, de 1974, e o que se passa atualmente.
Ao ler os poemas que abordam a época da ditadura e a revolução de Abril, concluo que o seu envolvimento tão profundo na vida política do país, que chegou a mudar o rumo da sua própria vida, obrigando-o a abandonar Portugal, deu força e esperança a outros que não se podiam manifestar contra o regime. E, mesmo à distância, ele não deixou de se preocupar com o país e com quem nele habitava.
Depois da Revolução de Abril, ele não ficou parado a ver os acontecimentos passarem e, atualmente, continua a mostrar-se preocupado com o rumo do país.
Muitos dos seus poemas são o espelho daquilo que muitos portugueses sentem e vivem.

Resgate

Há qualquer coisa aqui de que não gostam
da terra das pessoas ou talvez
deles próprios
cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números estatísticas
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida
de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez o riso esse
desperdício.
Trazem palavras de outra língua
e quando falam a boca não tem lábios
trazem sermões e regras e dias sem futuro
nós pecadores do Sul nos confessamos
amamos a terra o vinho o sol o mar
amamos o amor e não pedimos desculpa.
Por isso podem cortar
punir
tirar a música às vogais
recrutar quem vos sirva
não podem cortar o verão
nem o azul que mora
aqui
não podem cortar quem somos.

Águeda 23/12/2012 
Manuel Alegre


Ao realizar o trabalho sobre a poesia de Manuel Alegre, fui despertando para algumas situações que me passavam despercebidas, foi como se as suas palavras me acordassem para a realidade que passou, e que eu não vivi, e para a que está acontecer atualmente. 

Bárbara Costa 10.º CSE

domingo, 27 de abril de 2014

aprendendo de poetas...

... sobre Abril e as promessas



                                      “O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!”

Natália Correia

Perante uma força bruta, que nos quer seus reféns, limitando o nosso ser e obrigando-nos a ser aquilo que não somos, a maioria de nós, provavelmente, não lutaria pelo seu “EU” e, conformado, seria mais um no meio de tantos outros, produto de uma restrição governativa.
Mas pessoas como Natália Correia não se resignam com essas limitações, sejam elas aplicadas a si ou aos outros.
Têm a coragem de se revoltar e nunca desistir daquilo em que acreditam, impulsionando os demais, que até aí não tinham sido capazes, a revoltarem-se.
Entre 1945 e 1969, participou ativamente em vários movimentos de oposição ao Regime Ditatorial do Estado Novo, nomeadamente o MUD (Movimento de Unidade Democrática).
Em 1966, foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, por ser considerada ofensiva.
Após o 25 de Abril, em 1980, foi eleita nas listas do PPD. Contudo, ainda nesse ano, passou a independente, assumindo posições (a favor do aborto, por exemplo) e afirmações [premonições] polémicas: «As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.» [1]
Em nome da liberdade, da igualdade, da justiça e da cultura, confrontou o governo, sem nunca ceder ou recear as afrontas ou retaliações do mesmo.
De uma forma notável, através da poesia, conseguiu defender os seus ideais, criando sempre polémica e controvérsia, revelando a sua personalidade forte, livre e vigorosa.

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
p' ra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

                   Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

Rita Almeida, 10.º CSE

[1] In "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta