domingo, 27 de abril de 2014

aprendendo de poetas...

... sobre Abril e as promessas



                                      “O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!”

Natália Correia

Perante uma força bruta, que nos quer seus reféns, limitando o nosso ser e obrigando-nos a ser aquilo que não somos, a maioria de nós, provavelmente, não lutaria pelo seu “EU” e, conformado, seria mais um no meio de tantos outros, produto de uma restrição governativa.
Mas pessoas como Natália Correia não se resignam com essas limitações, sejam elas aplicadas a si ou aos outros.
Têm a coragem de se revoltar e nunca desistir daquilo em que acreditam, impulsionando os demais, que até aí não tinham sido capazes, a revoltarem-se.
Entre 1945 e 1969, participou ativamente em vários movimentos de oposição ao Regime Ditatorial do Estado Novo, nomeadamente o MUD (Movimento de Unidade Democrática).
Em 1966, foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, por ser considerada ofensiva.
Após o 25 de Abril, em 1980, foi eleita nas listas do PPD. Contudo, ainda nesse ano, passou a independente, assumindo posições (a favor do aborto, por exemplo) e afirmações [premonições] polémicas: «As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.» [1]
Em nome da liberdade, da igualdade, da justiça e da cultura, confrontou o governo, sem nunca ceder ou recear as afrontas ou retaliações do mesmo.
De uma forma notável, através da poesia, conseguiu defender os seus ideais, criando sempre polémica e controvérsia, revelando a sua personalidade forte, livre e vigorosa.

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
p' ra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

                   Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

Rita Almeida, 10.º CSE

[1] In "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta


sábado, 26 de abril de 2014

promessas de abril


Páginas de Liberdade

     Enquanto adolescente, não me deram a conhecer a liberdade escondida nos livros. Havia palavras proibidas, fechadas a cadeado, e quem ousasse escrevê-las, pronunciá-las ou cantá-las era imediatamente silenciado e brutalmente afastado da sua vida de cidadão comum, perigosamente à solta. 

    Então, calavam-se as vozes e riscavam-se páginas com lápis azul, protegendo-se, assim, a ordem e a paz reinantes. Para muitos, era a descida aos infernos. Apagava-se a luz de uma esperança timidamente ousada e a noite prolongava-se por dias, meses e anos, abafando o desespero dos que se calavam. Mil vezes a tortura, a fome, a solidão e a morte que trair o ideal que não denunciavam.

    Nas escolas, não se falava destas palavras. A mordaça que cingia o país estava bem apertada, não permitindo qualquer distração. Não se podia correr o risco de despertar nos jovens eventuais consciências revolucionárias. A Mocidade era, obviamente, Portuguesa e, como tal, bem disciplinada. Obediência era a palavra de ordem. Pensar tornara-se perigoso, mas, mesmo assim, havia quem pensasse, havia quem ousasse, havia quem não obedecesse. 

    Felizmente, como “ não há machado que corte a raiz ao pensamento”, as palavras sufocadas acabaram por cumprir o seu destino e, assim, certo dia, conseguiram fugir e voar nas asas de uma gaivota, pintando com novas cores páginas de esperança. A metamorfose aconteceu: o país, outrora amordaçado, vestiu-se de cravos vermelhos e, desta vez, as armas não falaram mais alto do que os poetas e os homens, sem medo, soltaram a voz entoando “Grândola Vila Morena”, a tal terra da fraternidade tão desejada. 

   Hoje, nas escolas, já não se escondem as palavras nem os livros. Estes, como testemunhas silenciosas do passado e sentinelas vigilantes do presente, oferecem, agora, sem medos nem sobressaltos, verdadeiras páginas de liberdade!

Madalena Toscano

sexta-feira, 25 de abril de 2014

promessas de abril


DEMOCRACIA


Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»

Nuno Júdice (2008). A matéria do poema. Lisboa: Publicações D. Quixote

                                                 
 A obediência ou sujeição torna-se coisa tão habitual que os homens, na sua maioria, jamais procuram investigar as suas origens ou causas, tal como em relação à lei da gravidade, à resistência ou às leis mais universais da natureza.
David Hume. Ensaios morais, políticos e literários. Lisboa: INCM.

Cidade Imaginária, de Nadir Afonso


     O estado exerce uma autoridade sobre os aspetos mais diversos e comuns da vida dos indivíduos em sociedade. A regulamentação através da qual o estado organiza a sociedade delimita a liberdade dos indivíduos. Assim sendo, por que sentimos como imperiosos a força do estado e o cumprimento da lei? Por que aceitamos os limites à liberdade individual que são impostos pelo estado? 

      Uma resposta para esta questão é que consideramos legítima a autoridade do estado e estamos dispostos a aceitá-la. Porquê? Várias são as teorias apresentadas que justificam a existência do estado e a sua autoridade legítima sobre os indivíduos. Uma dessas teorias foi apresentada em 1689 por John Locke, nomeadamente na obra intitulada Ensaio sobre a verdadeira origem, extensão e fim do governo civil. 

     Para Locke, o estado tem origem num contrato social com base no qual os indivíduos aceitaram de livre vontade submeter-se à autoridade do estado. Homens livres e iguais, através de um contrato social, decidem sair do estado de natureza e entrarem na sociedade civil. O contrato social consiste num acordo no qual cada indivíduo prescinde de uma parte dos seus poderes (o poder de orientar a sua vida de acordo com o que considera melhor e o poder de punir quem infringe a lei natural) e os atribui a um governo que passa a ser detentor desses poderes. É o caráter voluntário da entrega do poder a um poder político que dá legitimidade ao estado. Por isso, o estado não adquire um poder absoluto sobre os indivíduos, mas apenas o poder para executar o que os indivíduos sozinhos não conseguiam alcançar, a saber, preservar em segurança a vida, a propriedade e a liberdade. O mandato do estado, isto é, aquilo que legitimamente pode fazer, consiste na promoção do bem comum e está limitado por leis conhecidas publicamente, aplicadas por juízes retos e imparciais, que impedem o exercício arbitrário e abusivo da força.

     Mas, significa isto que Estado e Democracia são sinónimos? Não. Um Estado pode não ser democrático, pelo menos no sentido de que a democracia consiste no direito político de usar publicamente a única arma de que legitimamente pode dispor: a palavra. Ou seja, um Estado pode assegurar a vida, a propriedade e a liberdade sem que, necessariamente, assegure a democracia. 

     Para que um Estado seja democrático os que submetem à sua autoridade têm de possuir os meios para exercer o poder da palavra. Tal implica, por um lado, existência de mecanismos que permitam a expressão pública da opinião. Mas, exige-se também que os cidadãos não tenham receio de se expressar. E, para isso, a paz, o pão, segurança, saúde e trabalho têm, de alguma forma, de estar assegurados. Num Estado onde há medo, insegurança, onde as pessoas não têm os meios suficientes de sobrevivência, não é possível à democracia vingar.
Isabel Bernardo





quinta-feira, 24 de abril de 2014

aprendendo de poetas...

... sobre Abril e as promessas


    José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (Zeca Afonso, como era conhecido) viveu entre 1929 e 1987.
    Sempre muito interventivo como compositor e cantor, viveu de forma particularmente intensa o antes e o depois, as promessas, a mudança… no Portugal (também) do 25 de Abril de 1974. A música foi a maneira fácil e subtil de fazer chegar os seus ideais a mais pessoas e em menos tempo.
    Antes de 1974, os poemas de José Afonso evidenciavam, fundamentalmente, a revolta e a vontade de mudar o seu país para melhor. São poemas de intervenção e denúncia de situações levadas a cabo por um regime que abominava. Em " Cantar Alentejano”, denuncia o assassinato de Catarina Eufémia, pelas mãos do tenente Carrajola, da Guarda Nacional Republicana, e, em “A morte saiu à rua”, versa sobre o assassinato, pela PIDE, do ativista político e artista plástico José Dias Coelho.
   As suas músicas são, ainda, um impulso mobilizador e agitador, próprio de quem se recusa a desistir e que defende que “devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for”. Esse apelo está bastante marcado nas letras de canções como “O Que Faz Falta”, “Canta Moço”, “Vou ser como a Toupeira” e “Venham mais Cinco”.
   Do amplo leque dos seus poemas, destaco “Vampiros”. A mensagem deste poema, lamentavelmente, continua atual e apela à insubmissão, à luta social, à emancipação. Hoje, tal como na altura defendeu Zeca Afonso, continua a ser preciso enfrentá-los, eles que “comem tudo e não deixam nada”.   
    A situação então vivida tornou-se impossível de continuar e a revolução saiu à rua. E como memória disso ficou, talvez o poema mais importante do cantor, “Grândola Vila Morena”, um dos seus poemas musicados mais emblemáticos, que foi a segunda senha de sinalização para a Revolução dos Cravos.
    Porque a Poesia e a Cantiga também são armas. Com elas, as palavras também são luta.

Leonor Albuquerque, 10.ºCT3





quarta-feira, 23 de abril de 2014

promessas de abril


CARTA A MEUS FILHOS
SOBRE O LEGADO DA LIBERDADE

Não sei, meus filhos, como será a liberdade no futuro.
Não sei nem consigo imaginar como será o vosso próprio futuro em liberdade.
Só sei que a falta de liberdade é que dói e rói na alma.
Eu sei que é difícil para vós a imaginação de um tempo e de um espaço em que a liberdade era só mais uma palavra do dicionário. Afinal, para quem sempre viveu em liberdade a falta dela é quase um absurdo.
No entanto, gostaria de deixar-vos um pequeno testemunho de quem passou por esse tempo e nesse espaço. É que eu sou desse tempo e desse espaço!

Eu sou do tempo em que as crianças do sexo masculino, que nasciam, deixavam cravada no coração da mãe a amargura de serem os futuros meninos de sua mãe... nos plainos...  abandonados...
Eu sou do tempo dos jovens que cresciam sempre com a angústia de, no melhor tempo da nossa vida, o destino nos levar para bem longe... quem sabe para as longínquas terras do ultramar... quem sabe para a morte...
          Eu também sou do tempo dos jovens - como eu - que não queriam comemorar aniversários. Afinal, mais um ano seria sempre um passo em frente para a mobilização obrigatória...
Eu também sou do tempo do espetáculo degradante que a única televisão nos trazia com a imagem daqueles que combatiam, lá longe, aqueles que desejavam “um Ano Novo cheio de propriedades” quando muitos deles já propriamente não existiam... Já tinham perecido numa guerra que eles não entendiam...
Eu também sou do tempo em que “Deus, Pátria e Família” eram os grandes conceitos orientadores da nossa sociedade. E ao fim e ao cabo, a maior parte das famílias, por força de uma guerra estúpida, vivia da ausência do pai... do marido... do filho...
Eu também sou do tempo de ver grandes senhores – hoje, grandes democratas –, usando o seu inquestionável poder totalitário para agredir fisicamente os pobres trabalhadores só porque a camioneta do trabalho não permitia, na totalidade, a manobra automobilística do enorme Mercedes. Preto - como convinha, aliás -.
Eu sou do tempo em que o debate não tinha significado e duas pessoas juntas já eram consideradas suspeitas de conspiração.
Eu sou do tempo de passar em Aveiro, com minha mãe, pelo local da reunião de democratas, e de ver o triste aspeto em que ficara a sala após a intervenção policial que não gostava dessas democracias...
Eu também sou do tempo de ver a nossa cantanhedense Avenida da Estação completamente pejada e cercada de guardas só porque os democratas – só os identificados pela PIDE – tinham decidido reunir-se ali para fazer um comício eleitoral. Resta dizer que quem quisesse conhecer outras ideias não podia entrar, porque a Guarda não deixava...
Eu também sou do tempo dos bufos, dos vampiros, das autoridades policiais que batiam primeiro e interrogavam inquisitorialmente depois... Quando interrogavam.
Eu também sou do tempo da Comunicação Social amordaçada, manietada, enfeitada...
Eu sou do tempo de sentir que o meu pai tremia com as minhas idealizações nas composições escolares, temendo que julgassem que era ele que me incitava a propagandear irrealidades para o momento...

Mas eu também sou do tempo dos segredos, das palavras em silêncio, dos olhares que muito diziam e muito queriam dizer!...
Mas eu também sou do tempo daqueles que, na longa e escura noite, iam escrevendo nas paredes a palavra mais proibida do meu país!...
Mas eu também sou do tempo daqueles que diziam NÃO! e que semeavam flores de esperança na noite triste!... Afinal, como diria o poeta...

“Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa”[1]

E com esse tempo surgiram aqueles que semearam canções e semearam cravos nas coronhas das espingardas dos meninos de suas mães...
          Foi em Abril, a metáfora da abundância.
          E Abril deixou para trás a tirania, a prepotência, a opressão... E trouxe a liberdade, a alegria, a palavra quente, o sorriso...
          E trouxe a ideia, o pensamento, a necessidade, o desejo...
       E trouxe os meninos às suas mães e aos seus pais, sem malhas de império triste e decadente, tecendo a morte...
          E trouxe a facilidade a todos os que – como o vosso pai – foram tecendo a consciência inabalável de que não é a guerra e a violência que resolvem as questões, de poderem agora renegar tudo isso convictamente.

Não sei, meus filhos, que tempo será o vosso e o nosso.
Sei que a liberdade não é só um dia de feriado, mas um anseio constante que deve inundar cada coração para que possamos dizer com o poeta: “sou livre livre livre”[2]!

Paulo Correia de Melo
25 de Abril de 1997 [3]







[1] Manuel Alegre
[2] Manuel Alegre
[3] Este texto foi publicado no jornal Independente de Cantanhede e foi difundido no programa “Escola Aberta”, na Rádio do Concelho de Cantanhede

promessas de abril

a propósito dos 40 anos do 25 de abril [abril dito pelos poetas]





POEMA SOBRE A LIBERDADE

PARA QUE TU, LIBERDADE
Cresci a sonhar contigo, tu sabes,
com a pressa ansiosa dos amantes,
todo os dias, sem descanso ou desalento,
imginando a claridade do teu olhar sereno,
o rumor da tua voz marinha,
o embalo de onda do teu sono de menina.
Um dia chegaste e ergueste a tua casa
na mansa vizinhança dos meus sonhos,
paredes meias com o esplendor dos cravos.
Partilhei contigo o alpendre das estrelas
onde os meus filhos brincaram e cresceram,
onde eu brinquei com os búzios e as sombras
e te prometi fidelidade eterna,
como no fogo das paixões maiores.
Ambos envelhecemos desde então,
dorso arqueado pelo peso
do mais amargo desencanto,
sem renunciarmos à felicidade
que um dia prometemos um ao outro.
Fomos nós que envelhecemos
ou foi a alegria que se exilou do nosso olhar ?
Foi Abril que perdeu o fulgor primordial
ou fomos nós que deixámos de o merecer,
luz fugidia a escapar por entre os dedos ?
Amanhã acordarás numa cama de pétalas,
imitando a límpida música das fontes,
e eu estarei contigo, como quem renasce,
para que tu, Liberdade, não morras nunca
de tristeza ou abandono nos meus sonhos.

Letria, José Jorge (2004). Poema sobre a liberdade. Em http://www.josejorgeletria.net/1/poemas_24549.html.



terça-feira, 22 de abril de 2014

promessas de abril

a propósito dos 40 anos do 25 de abril [abril dito pelos poetas]





Explicação do País de Abril

País de Abril é o sítio do poema.
Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exatamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não vem na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril. 
Manuel Alegre (1998). A praça da canção. Prior Velho: Campo de Letras.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

da leitura à escrita...


... um percurso de aprendizagem.


"Como leitor, o que eu gosto é de ler um livro
e de dizer, bolas, é exatamente isto que eu sinto
e não era capaz de exprimir. 
Quando um livro me ensina a explicitar emoções que eu sinto,
esse é um livro bom."

António Lobo Antunes

A consciência, a autenticidade, a escolha, a Vida, a força do Amor, o valor da Amizade... caminhos de descoberta nas páginas de um livro...


da leitura à escrita



"A leitura é como que uma droga que confere um adormecimento agradável aos contornos da crueldade da vida."
Imre Kertéz


quinta-feira, 3 de abril de 2014

da leitura à escrita...

... um percurso de aprendizagem


"Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar.
Se tenho de sonhar, 
por que não  sonhar os meus próprios sonhos?"

Fernando Pessoa

Aqui ficam mais algumas impressões, "a quente ou a frio", das leituras feitas pelos alunos.


da leitura à escrita



[para ler os textos, amplie o ecrã em modo de tela cheia]


                                                         Ler é sonhar pela mão de outrem.
Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz.
A superficialidade na erudição 
é o melhor modo de ler bem e ser profundo."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 2 de abril de 2014

da leitura à escrita...

... um percurso de aprendizagem.

                                                                                         "Esta expressão «Leitura», há cem anos, sugeria logo a                                                                                     imagem de uma livraria silenciosa, com bustos de Platão e                                                                                     de Séneca, uma ampla poltrona almofadada, uma janela                                                                                      aberta sobre os aromas de um jardim: e neste retiro austero                                                                               de paz estudiosa, um homem fino, erudito, saboreando linha a                                                                               linha o seu livro, num recolhimento quase amoroso. A ideia da                                                                               leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à                                                                                   pressa, no rumor de uma praça."
Eça de Queirós

        Desafiámos os alunos, a propósito da rubrica do programa de Português "Contrato de leitura", a expressarem o que lhes disse o livro que leram. 
     Nos próximos dias, vamos revelando os resultados dessa aprendizagem que fica de páginas folheadas ao ritmo da(s) descoberta(s).


da leitura à escrita


[para ler os textos, amplie o ecrã em modo de tela cheia]

"Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia."
Agostinho da Silva

terça-feira, 1 de abril de 2014

[na semana da Leitura, a ler...] mundos da lusofonia


Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. 
Sou irritável e firo facilmente. 
Também sou muito calmo e perdôo logo. 
Não esqueço nunca. 
Mas há poucas coisas de que eu me lembre.

Clarice Lispector


       A língua portuguesa é uma das mais faladas do mundo.
      Com a língua, há todo um universo partilhado de modos de ser e de estar, vivências acumuladas no sedimento de sentidos que as palavras captam: «A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rastro».[1]
     Mas também é longa a distância. Só muito enganadoramente poderemos pensar que sabemos o que é ser brasileiro, angolano, moçambicano, cabo-verdiano, guineense, timorense ou são-tomense porque partilhamos a mesma língua. Será a mesma língua, mas nem sempre as mesmas palavras e estas nem sempre sedimentaram o mesmo sentido. Porque «o que nos faz ser pessoa não é o Bilhete de Identidade. O que nos faz pessoas é aquilo não cabe no bilhete de identidade».[1]
      A literatura de cada um destes países expressa esses outros universos de vida que nos são, por vezes, tão distantes. 

Assim eu vejo a vida



A vida tem duas faces:

Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

                                                        Cora Coralina






Espreite, escolha, leia, descubra, viaje, sonhe...


Isabel Bernardo e Leonor Melo

[1] Mia Couto

segunda-feira, 31 de março de 2014

[na semana da Leitura, a ler...] o homem através das palavras



[...]
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
[...]
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso. 

Manuel Alegre

          O que é ser Homem?  Uma questão que nos interpela todos os dias. Cada um de nós é, em cada dia, o Homem. Porém, nem sempre temos presentes respostas que nos permitam compreender o que somos. 
          O saber da Psicologia dá-nos essa compreensão nas suas múltiplas dimensões de conhecimento. Ler Psicologia é aceder às múltiplas facetas do que somos num determinado momento e ao longo do tempo. Ler Psicologia é aceder à compreensão do Homem através das palavras.
       No Boletim Bibliográfico O homem através das palavras encontramos, organizados por temas, livros disponíveis na Biblioteca Escolar Clara Póvoa.

         Espreite, escolha, leia, descubra(-se)...




Isabel Bernardo

segunda-feira, 24 de março de 2014

saber, para bem viver

dia 24 de março [dia mundial da tuberculose]


O Dia Mundial da Tuberculose foi lançado em 1982 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela União Internacional Contra a Tuberculose e Doenças Pulmonares e a sua celebração visa sensibilizar a população e aumentar a consciência sobre a epidemia mundial que é a tuberculose, bem como reforçar os esforços para eliminar a doença.

Robert Koch, Prémio Nobel da Medicina, em 1905

A data escolhida - 24 de Março - foi uma homenagem aos 100 anos do anúncio da descoberta do bacilo causador da tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), ocorrida em 1882, pelo médico Robert Koch. Esta descoberta foi um grande passo no diagnóstico e cura da doença que, na época, vitimou grande parcela da população mundial e hoje persiste com 8 milhões de doentes e 3 milhões de mortes anuais. Cada paciente infectado com bacilo de Koch pulmonar, se não tratado, pode infectar, em média, 10 a 15 pessoas por ano!

Alguns sintomas da tuberculose confundem-se com a gripe.

A tuberculose infecta pessoas em todos os países do mundo, tanto ricos como pobres. Contudo, a pobreza, desnutrição, más condições sanitárias e alta densidade populacional são fatores que contribuem para a disseminação da doença. Após um significativo decréscimo de casos na segunda metade do século XX, o surgimento de numerosos casos de Síndroma da Imunodeficiência Adquirida (vulgo SIDA) que provoca enfraquecimento do sistema imunitário humano (baixa das defesas) permitindo o desenvolvimento de doenças oportunistas, como a tuberculose, associado a um maior surto migratório e à pobreza, fez ressurgir a tuberculose como um importante problema de saúde pública.



Nos países “mais desenvolvidos” o principal problema é o cada vez maior número de casos provocados por bacilos resistentes a alguns dos mais usados antibióticos, obrigando a uma constante pesquisa médica no sentido de conseguir novos medicamentos efetivos na eliminação/controlo da doença. O surgimento de casos de tuberculose multirresistente está relacionado com o uso inadequado de antibióticos, ou seja, a utilização abusiva de antibióticos quando não são necessários (exemplo: usar antibióticos antibacterianos contra as constipações que são de origem viral, muitas vezes por auto-medicação) e/ou o não cumprimento dos planos de tratamento prescritos (regras de toma não cumpridas ou tratamentos que ficam por terminar).

Evolução da infeção

É fundamental a população estar informada sobre os sintomas da tuberculose de forma a agir logo que se suspeita de infecção, de forma a aumentar a possibilidade de cura, bem como diminuir bastante o contágio que se faz muito facilmente por via aérea. Sintomas como cansaço frequente, suores noturnos, tosse que persiste durante mais de três semanas, geralmente com expectoração, gânglios aumentados e febre baixa no final do dia, podem ser confundidos com gripe ou constipação e permitem que a infecção evolua. O diagnóstico precoce é fundamental na completa cura desta doença e o acesso a cuidados médicos é determinante no controlo desta epidemia.

A vacina BCG (bacilo de Calmette-Guérin), administrada no primeiro mês de vida, embora não evite o contágio e desenvolvimento da doença, previne as suas formas mais graves, sobretudo nas crianças e idosos. Atualmente está demonstrado que a revacinação ao longo da vida não aumenta o grau de proteção contra a tuberculose e por isso não é geralmente aconselhada.



A tuberculose é uma doença curável, sendo importante para isso, não só a celeridade no diagnóstico e início do tratamento, mas fundamentalmente, o rigoroso cumprimento das prescrições terapêuticas. No entanto, é uma doença potencialmente grave e letal, principalmente em doentes com outras patologias associadas ou que cumpram irregularmente a terapêutica. No total, a duração mínima do tratamento são seis meses, embora a duração seja decidida caso a caso, pelo médico assistente, em função da gravidade e evolução clínica da doença, podendo atingir os 24 meses de terapêutica.

Desde 1990, a mortalidade associada à doença caiu 45%, pelo que a barreira dos 50% pretendida pela Organização Mundial de Saúde está perto. E, desde 1995, as estimativas apontam para que se tenham tratado cerca de 56 milhões de pessoas e salvo 22 milhões de vidas. Segundo a OMS, uma em cada três pessoas que têm a doença não chegam a ter um diagnóstico, apelando-se a que se atribuam mais recursos para os programas dedicados à doença – sobretudo nos países em desenvolvimento - já que se estima que 75% dos casos não diagnosticados sejam em apenas 12 países.

Para saber mais, consulte a página da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Paula Rocha



sábado, 22 de março de 2014

a ciência também é cultura

nos caminhos da psicologia [psicologia da adolescência]


Ser adolescente é ser feliz e infeliz ao mesmo tempo. É não ser compreendido e nem sempre compreender. É ser pássaro e não poder voar. É mais não ser do que ser. É desejar e não poder. É muito difícil. Ser adolescente é olhar para a vida e pôr-lhe um laço na cabeça.
         12º Ano, Turma A - Escola Secundária Filipa de Vilhena
Monteiro, M., & Santos,  M. R. (s/d). Psicologia (1.º vol.). Porto: Porto Editora, p.248.


A adolescência é uma etapa da vida que se estende da puberdade à idade adulta, e que é marcada por profundas transformações fisiológicas, psicológicas, pulsionais, afectivas, intelectuais e sociais vivenciadas num determinado contexto cultural.

[para ler mais]
A adolescência é um espaço/tempo onde os jovens através de momentos de maturação diversificados fazem um trabalho de reintegração do seu passado e das suas ligações infantis, numa nova unidade. Esta reelaboração deverá dar capacidades para optar por valores, fazer a sua orientação sexual, escolher o caminho profissional, integrar-se socialmente. Este processo de crescimento faz-se também com retrocessos, este crescer faz-se sozinho, com o melhor amigo, com e contra os pais, com os outros adolescentes e com os outros adultos.

O professor Daniel Sampaio, médico psiquiatra, foi um dos introdutores da Terapia Familiar Sistémica e fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. Nos últimos anos tem prestado particular atenção aos problemas da escola secundária, participando em numerosos colóquios com alunos, pais e professores, procurando reflectir sobre as atuais dificuldades do processo educativo.

Daniel Sampaio [saiba mais]
Na sua obra Inventem-se Novos Pais o autor afirma que a identidade e a autonomia são as questões fundamentais da adolescência.

Disponível na BECP
Segundo o autor, a formação da identidade deve ser considerada um processo dinâmico, verdadeira interface da dimensão interna e externa do adolescente.

Adquire-se a identidade sexual, que se foi estruturando a partir das dúvidas internas e das constantes interações externas com a família e o grupo de jovens. Consolidam-se as relações com os outros e dá-se a integração das diversas estruturas da personalidade, processo que só termina na pós-adolescência. (…) Já Erikson, nos seus estudos sobre a identidade juvenil, tinha salientado a importância dos outros na formação da identidade, considerando que esta é uma síntese dinâmica resultante de um processo de assimilação e rejeição das identificações sofridas, bem como da interação entre o desenvolvimento pessoal e influências sociais. (…) Ora uma certa instabilidade emocional que caracteriza a adolescência leva a uma procura ativa das relações sociais, na busca de interações estabilizadoras que contribuam para a formação da identidade. Deste modo, assume grande importância o grupo de jovens, onde confluem diversos fatores essenciais para a identidade e autonomia adolescentes.
  A autonomia é a outra questão central da adolescência. Pode entender-se como a necessidade do adolescente conquistar o domínio de si próprio e obter um espaço mental para refletir e para se relacionar fora da família, o que pressupõe desde logo o abandono de uma posição de dependência face aos pais que caracteriza a infância. O processo de autonomia é progressivo, iniciando-se muitas vezes na puberdade e atingindo o seu pleno na fase final da adolescência, pressupondo algures no seu desenvolvimento um período de desobediência ou confronto com os pais, mas que na maioria dos casos é vivido sem problemas graves.
(…) Seja como for, os jovens crescem muitas vezes num ambiente pseudolibertador, em que são imediatamente satisfeitos muitos dos seus desejos e onde as diferenças entre as gerações se esbatem cada vez mais. Os pais vivem na permanente necessidade de “ seduzir” (oferecendo coisas) ou de imitar os filhos, com a ideia de uma proximidade quotidiana mais agida do que refletida contribuirá para a melhoria das relações. Puro engano: a inversão da hierarquia familiar ou a igualização dos pais leva inevitavelmente à confusão e à ausência de modelos organizativos das relações intrafamiliares. Os pais delegam na escola e nos próprios filhos a sua missão de educadores, deixando os filhos muitas vezes entregues às tarefas da adolescência.      É como se no diálogo pais-filhos não soubéssemos o lugar de cada um e o individualismo narcísico ganhasse cada vez mais campo de ação.
                Sampaio, D. (1994). Inventem-se Novos Pais (13.ª Ed.). Lisboa: Caminho, pp.241-246.

Emília Laranjeira

sexta-feira, 21 de março de 2014

em tempo de poesia... "de palavras me vesti / no agasalho do nada"...




                                                              O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. 
     O que há é pouca gente para dar por Isso [...]".   

Álvaro de Campos

       Em dia de Poesia, sentir a música das palavras na alma-voz de quem "importa metáforas e exporta alegorias" é celebrar a Vida, o Sonho e o Ser, n'« Um mundo de palavras. Língua que lambe o universo para espanto da imobilidade das estrelas »



[para aceder aos conteúdos colocados na imagem, passe o cursor sobre a árvore e clique, explore e saboreie os poemas]

LCM