domingo, 5 de outubro de 2014

Conhecer o passado, pensar o presente


a propósito da revolução republicana de 5 de outubro de 1910


"Que pretendia o movimento republicano?
Naturalmente a República. Mas não mais do que isso e a mudança de pessoal e de estilo político que daí resultaria. A República era uma aspiração, não um projeto programado."


Saraiva,J.H.(2001).História concisa de Portugal. Mem Martins: Publicações Europa-América.






Antecedentes da revolução Republicana de 5 de outubro de 1910


Durante as últimas décadas do século XIX notava-se, por todo o país, o aumento do descontentamento da população. A maior parte  do povo português continuava a viver com grandes dificuldades.
Assim, apesar do desenvolvimento industrial verificado na 2ª metade do século XIX, grande parte da população portuguesa continuava a trabalhar na agricultura, as fábricas localizavam-se sobretudo nas regiões de Lisboa e Porto, o país  continuava a ter grandes dívidas, a grande parte da população vivia mal e os sucessivos governos da monarquia liberal nunca se mostraram capazes de melhorar as condições de vida da população. É com o intuito de fazer alguma coisa que pudesse pôr fim a estas situações, que em 1876 se formou um novo partido, chamado "partido republicano" que propunha substituir a Monarquia pela República. Os republicanos achavam que não devia estar um rei  à frente do país, porque  muitas vezes não tinhas as capacidades necessárias para poder exercer um cargo tão importante, mas sim um presidente eleito pelos portugueses e que governasse só durante alguns anos. Os republicanos consideravam que a forma de governo do país tinha de ser alterada para uma República.
A agitação política e as manifestações populares contra a monarquia não terminaram. Assim, a 1 de Fevereiro de 1908,  acontece em Lisboa um atentado contra a família real, onde são mortos o  rei D. Carlos  (regicídio)  e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe I.

  
Regicídio 
Devido à  morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro, o rei D. Manuel II subiu ao trono apesar de ter apenas 18 anos. D. Manuel II procurou o apoio de todos os partidos monárquicos, no entanto,  não conseguiu que os defensores da República desistissem da ideia de acabar com a Monarquia em Portugal.
A revolução tornava-se cada vez mais inevitável e teve o seu início em Lisboa na madrugada do dia 4 de Outubro de 1910. Esta Foi a primeira grande revolução portuguesa do século XX. O movimento revolucionário republicano começou a partir de pequenos grupos de conspiradores que eram membros do exército e da marinha (oficiais e sargentos), alguns dirigentes civis e muitos populares armados. Apesar de oferecerem alguma resistência e alguns confrontos militares, o exército que defendia a monarquia não conseguiu organizar-se de modo a derrotar os revoltosos. A revolução acabou por dar os seus frutos, uma vez que, os defensores da República saíram vitoriosos.


O dia da revolução

Na manhã de 5 de Outubro de 1910, José Relvas e outros membros  do Partido Republicano Português, instalados na varanda da Câmara Municipal de Lisboa e com milhares de pessoas a assistir, proclamaram a República.
Por outro lado, nesse mesmo dia, o  rei D. Manuel II e acompanhado da sua  família real embarcaram na praia da Ericeira tendo como destino  Gibraltar. Posteriormente, D. Manuel II, o último rei de Portugal dirigiu-se para o seu exílio em Inglaterra. A Monarquia em Portugal tinha assim chegado ao fim.
Os republicanos, após a vitória, e uma vez já no poder, nomearam um governo provisório, presidido pelo Dr. Teófilo Braga, para ficar a tomar conta dos destinos do País, até que os republicanos aprovassem a nova Constituição e fosse eleito o primeiro Presidente da República, que viria a ser Manuel de Arriaga.  




Manuel de Arriga, o 1º presidente eleito pelo povo



Mas era necessário criar rapidamente na população a consciência da mudança e o espírito do regime republicano. Assim, foram aprovados pelo governo provisório os símbolos da República Portuguesa:
- O hino nacional passou a ser "a Portuguesa"

- Adotou-se a bandeira vermelha e verde (que substituiu a azul e branca da Monarquia).
Bandeira portuguesa republicana




         -A moeda passou a ser o escudo em vez do real



Moeda de um escudo


        Assim, a 5 de outubro de 1910 acabou a Monarquia em Portugal, um regime que tinha como chefe do estado um rei, que governava até à morte e que herdava o trono. Por outro lado, começa uma nova forma de governo, a República, que tem como chefe de estado um presidente, que é eleito por todos os cidadãos para  um mandato limitado no tempo. Na República todos os cidadãos passam a ser  iguais perante a lei, a expressão do pensamento é livre e passa a haver uma separação dos poderes: legislativo, executivo e judicial.

Paulo Sá

sábado, 4 de outubro de 2014

modos de ver e de ouvir


... a propósito do mês internacional das bibliotecas escolares [outubro]








Para a celebração da leitura e da música.


O álbum completo no qual está música está inserida está disponível na Biblioteca Escolar Clara Póvoa.


Sou o vosso professor
E sei de um baile de gala
Que se dá todas as noites
Nas estantes da tua sala

Olha Ulisses o Argonauta
A dançar com o mar à proa
Aquele é o senhor Fernando
A dançar com a sua Pessoa

Olha o mestre Gil Vicente
Entre a rainha e o bobo
E aquele à frente é o Aleixo
É o poeta do povo

É o baile, é o baile, é o baile
É o baile, é o baile, é o baile
É o baile, é o baile, é o baile, é o baile
Da biblioteca

Sai o Zorro de rompante
Numa lombada de couro
A declarar ser migrante
Para a ilha do tesouro

Ao piano o Conde d'Abranhos
Não dá sinais de abrandar
É preciso o sol nascer
Para o baile acabar

Como se anda Dom Quixote
Largando da mão a lança
Vamos dormir criaturas
Que amanhã também se dança

É o baile, é o baile, é o baile
É o baile, é o baile, é o baile
É o baile, é o baile, é o baile, é o baile
Da biblioteca
In. Cabeças no Ar (2002). Cabeças no Ar. Carlos Tê (letra) e João Gil (música)


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

modos de ver e de ouvir

... a propósito do mês internacional das bibliotecas







Livros

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

In. Caetano Veloso (1997). Livro

Álbum completo disponível na Biblioteca Escolar Clara Póvoa.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

modos de ver e de ouvir

... a propósito do Dia Mundial da Música [1 de outubro]





            PIANO DE PALAVRAS

Na demanda de realidades etnográficas da região em que estamos insertos, encontrámos um informador que era sobejamente conhecido pela sua habilidade em adivinhas e perguntas de algibeira, quer a decifrar, quer a propor. Numa das nossas conversas, ele lançou-nos logo a seguinte:

Sou corpo de muitas línguas
E com elas todas falo;
Quando estou com quem me entende
Para dar gosto não me calo.

Na altura, tendemos para o livro como solução; após a explicação, passou a ser óbvia a opção pelo piano. A conversa continuou e subitamente ele perguntou:

Tenho folhas sem ser árvore
E capa sem frio ter;
E, sem falar, dou lições
A quem me sabe entender.

Aqui era mais fácil: o livro!!!
A recordação desse dia (e do conteúdo) chegou pela curiosidade da relação com o atual momento, em que se celebra – simultaneamente – o dia da música e o (início do) mês das bibliotecas. Como “as palavras são como as cerejas – atrás de umas vêm outras” -, isso trouxe-nos à memória uma outra forma simples[1]/ texto breve da nossa coleção – uma quadra - , que (também) concilia as duas artes – Música e Literatura – com outras (não despiciendas).

Quatro coisas, neste mundo,
Eu desejava aprender:
Cantar bem, tocar viola,
Namorar e saber ler.

Em qualquer dos três casos, sugere-se que para se fruir uma forma artística são necessárias competências específicas. Isso até pode ser verdade se se tratar da emissão. A inclusão, por outro lado, da afetividade, revela que, afinal, a fruição, a receção, é acessível a todos.

A Música é a língua universal por excelência, aquela que sugere e provoca um manancial diverso de sensações, de ações, reações e – até – interações. O próprio vocábulo já ganhou extensão semântica e já se refere não só à arte, mas também ao produto individual.
Ninguém fica indiferente à Música e isso é visível nos inúmeros sinais da língua corporal (a maior parte das vezes inconscientes): tamborilamos com os dedos; batemos o pé; abanamos a cabeça; karaokamos, mesmo sem emitir som (como se estivéssemos a substituir os intérpretes); fechamos a mão, segurando-a com o polegar, num imaginário microfone; trejeitamos maestros e intérpretes; bamboleamos o corpo… Damos, finalmente, um expressivo sinal de satisfação quando o tema acaba, como se recebêssemos e agradecêssemos a ovação.
Tudo é real num mundo outro para onde nos deixamos transportar por sete notas (e respetivos apêndices) e noções de ritmo (diferente em cada parte do mundo).
Portanto: sem se notar, fazemos o mesmo quando lemos um livro…
Paulo Correia de Melo
2014



[1] Seguindo a perspetiva de André Jolles. (Jolles, A. (1976). Formas simples – Legenda, saga, mito, adivinha, ditado, caso, memorável, conto, chiste [trad. de Álvaro Cabral]. São Paulo: Editora Cultrix)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

... a propósito de leituras...


... as novidades bibliográficas na Biblioteca Escolar Clara Póvoa.


O facto de uma coisa ter qualidades para lá do que quer que pensemos ou digamos está fora das nossas noções de realidade objetiva. Muito claramente, se a realidade alguma vez deixasse de revelar novos aspetos, fora do nosso pensamento, então só muito dificilmente poderíamos dizer que ela tem uma existência objetiva independente de nós. Tudo isto implica que todos os géneros de pensamento, incluindo o matemático, são abstrações que não abarcam, nem podem fazê-lo, a realidade inteira. Diferentes géneros de pensamento e diferentes géneros de abstração podem, juntos, dar-nos um melhor reflexo da realidade. Cada um per si tem os seus próprios limites, mas juntos podem levar o nosso entendimento da realidade mais longe do que cada um isoladamente.

Bohm, D., &amp, & Peat, F. D. (1989). Ciência, ordem e criatividade. Lisboa: Gradiva, pp. 17-18.


Boas leituras!

... a propósito de leituras...


... o enredo na trama da narrativa... do sonho... da Vida...

Mas os livros que em nossa vida entraram 
São como a radiação de um corpo negro 
Apontando pra a expansão do Universo 
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso 
(E, sem dúvida, sobretudo o verso) 
É o que pode lançar mundos no mundo.
Os livros são objetos transcendentes 
Mas podemos amá-los do amor táctil 
Que votamos aos maços de cigarro 
Domá-los, cultivá-los em aquários, 
Em estantes, gaiolas, em fogueiras 
Ou lançá-los p'ra fora das janelas .

Caetano Veloso, Livros

Continuação de boas leituras!




quarta-feira, 24 de setembro de 2014

promessas de liberdade

dia internacional da imprensa [24 de setembro]




O termo “imprensa” deriva da palavra “prensa”. Este termo, por sua vez, deriva de “prensa móvel”, processo técnico aperfeiçoado por Johannes Guttenberg no século XV. A prensa móvel foi usada, a partir do século XVIII para imprimir jornais.

Hoje em dia, o termo “imprensa” designa o conjunto de publicações que têm uma função dominantemente informativa, como os jornais. Com o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação, os jornais passaram também a ser difundidos através da rádio e da televisão e, hoje em dia, uma parte significativa dos jornais têm edições em linha. Apesar disso, o termo imprensa continua a ser utilizado.

Museu da Imprensa - Porto


Nas sociedades democráticas, a imprensa tem um importante papel no desenvolvimento de uma opinião pública esclarecida. Sendo a democracia um espaço onde o povo exerce o poder através da palavra, e sendo a palavra a única forma de gerar o consenso em direção ao maior bem comum, a palavra deve ser esclarecida, isto é, fundamentada. Ao informar, ao veicular notícias que permitam ao cidadão compreender os diferentes fenómenos que o rodeiam, a imprensa tem um papel decisivo na intervenção que os indivíduos podem fazer em sociedade. Não será por acaso que os governos totalitários se esforçam por suprir ou controlar a imprensa.




Com as tecnologias da comunicação em rede, a imprensa adquire novas dimensões. Por um lado, aumenta extraordinariamente a possibilidade de acedermos a um número quase infinito de publicações. Dominando um pouco da língua inglesa ou espanhola, qualquer cidadão do mundo pode manter-se a par do que se passa em muitos países dos cinco continentes. Basta para isso ler alguns artigos dos jornais mais influentes de cada país / região. Esta possibilidade, por sua vez, com a entrada da imprensa nas redes sociais e com os diretórios de arquivo e seleção dos artigos jornalísticos, é aumentada exponencialmente.

Por outro lado, os cidadãos podem hoje interagir com as notícias, comentando. A reação dos leitores às notícias pode, por sua vez, tornar-se notícia. Vejamos a notícia de que o cientista João Magueijo, professor numa universidade em Londres, publicou um livro com um retrato pouco lisonjeiro dos ingleses. Os comentários na página do jornal que publicou a notícia foram de tal monta que se tornaram, eles próprios assunto jornalístico.

Houve quem profetizasse que a imprensa terminaria com o aparecimento da www. É certo que a venda de jornais em papel diminuiu drasticamente e que muitos jornais deixaram simplesmente de ser editados em papel. Mas, isso não significa que não tenha aumentado o número de leitores. Pensamos que ainda há razões para evocar e celebrar o dia da imprensa.

Como evocação, sugerimos uma visita, local ou virtual, ao Museu da Imprensa, no Porto.
Isabel Bernardo


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A propósito do dia Internacional da Literacia [8 de setembro]


A leitura torna o homem completo; a conversação torna-o ágil; e o escrever dá-lhe precisão.
Francis Bacon

Nos finais do século XIX, a literacia era entendida como uma habilidade discreta: sabia-se, ou não, ler, escrever e realizar operações numéricas básicas.

Aula numa escola primária. 1900
 Fotografia de Alberto Carlos Lima, AML-AF, A15064

À medida que a produção e a difusão da informação se tornou exponencial, com a massificação de novos meios de criação e de comunicação de informação, a literacia tornou-se a base de muitas profissões e funções sociais, e deixou de ser entendida como uma capacidade discreta. Hoje em dia, é entendida como uma possibilidade em crescendo, ou seja, é-se mais ou menos dotado de competências em literacia consoante a capacidade que se tem de utilizar sinais gráficos, em múltiplos suportes e formatos, para interagir em situações sociais complexas. A literacia, é, assim, a base do uso da informação e, por isso, a base de outras literacias, como a literacia dos média, literacia digital, literacia da informação, etc.



Mesmo que mantenham o carácter predominantemente manual, a quase totalidade das profissões, e sobretudo as que dão acesso a maiores oportunidades sociais, assenta na capacidade de usar e descodificar informação. Por isso, a UNESCO considera que a literacia é um direito humano fundamental e a base do desenvolvimento social, económico e pessoal. Em contrapartida, não ter acesso à possibilidade de aprender ler e escrever é um caminho para a pobreza, um acesso menor a cuidados de saúde, a condenação ao ciclo de miséria (ver aqui).


Há 40 anos que a UNESCO celebra o Dia Internacional da Literacia a 8 de setembro. A celebração deste dia traduz o apoio da UNESCO a múltiplas atividades que têm como objetivo reduzir o analfabetismo (há cerca de 122 milhões de iletrados no mundo e 67 milhões de crianças que não têm a possibilidade de ir à escola; para mais informação ver aqui) e erradicar o analfabetismo funcional (mesmo tendo frequentado a escolaridade básica, muitos adultos e jovens adultos, mesmo nos países desenvolvidos, não consegue resolver situações quotidianas quando estas implicam a utilização de informação) e, por essa via, aumentar as oportunidades de educação (a literacia é a base de toda a aprendizagem), diminuir as desigualdades de género e facilitar o desenvolvimento sustentável, a paz e a democracia.

O trabalho da UNESCO remonta a 1946 e em 2002 tomou a dianteira ao considerar a década seguinte como a década da literacia.

UNESCO Internacional Literacy 
A atividade da UNESCO na erradicação da iliteracia manifesta-se também no apoio a múltiplas iniciativas locais. No presente ano, o prémio Internacional da Literacia da UNESCO subordinou-se ao tema “Literacia e Desenvolvimento Sustentável” e premiou vários projetos locais (ver aqui e aqui) desenvolvidos em Espanha, Burkina Faso, Argélia e outros países. Com ênfase na aprendizagem de competências em literacia, estes projetos visam a integração de minorias ou dos socialmente mais desfavorecidos.

Aprender a ler e a escrever, promover o livro e a leitura, valorizar as aprendizagens escolares, desenvolver leitores sólidos, é uma missão que cabe a todos. Assinalar o dia 8 de setembro como o dia Internacional da Literacia é apenas uma etapa de um percurso que se faz todos os dias.
Isabel Bernardo


UNESCO (s/d). Education for de 21.st century. Obtido em http://en.unesco.org/themes/education-21st-century

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A propósito do dia mundial da fotografia [19 de agosto]

O poema de Carlos Drumond de Andrade sobre as fotografias de Evandro Teixeira, fotojornalista brasileiro, introduz-nos no poder da fotografia.

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo, sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.

Fotografia-é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando,
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

… / …

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo,
viajas, surpreendes, testemunhas
a tormentosa vida do homem
e a esperança de brotar das cinzas.


De acordo com os historiadores, a primeira fotografia surgiu em 1836 em consequência das experiências de JosephNicéphore Niépces, que desenvolveu a “Heliografia”, uma técnica muito rudimentar com uma espécie de verniz que possibilitava uma rápida secagem quando exposto à luz. O problema da técnica de Niépces surgia na impressão, pois a imagem não se mantinha estável, devido a propriedade fotossensível da prata, que escurecia ao receber luz. 

O problema da nitidez e fixação da imagem no papel foi resolvido por volta de 1839 por Louis Daguerre, onde a imagem era convertida em prata metálica e exposta, e depois, a partir do vapor do mercúrio, o iodeto de prata se convertia em prata metálica. É do nome de Daguerre que surge a expressão daguerrótipo. A memória e o trabalho de Daguerre são preservados pela Daguerreian Society.

Ao longo da história da fotografia, muitos foram os autores e as autoras que se destacaram como excelentes fotógrafos, conforme podemos ver aqui, aqui e aqui.

Vamos destacar apenas alguns.

Jorge Molder (ver biografia e obra) é um dos fotógrafos portugueses mais conhecidos.

Auto-retrato de Jorge Molder

Na página web da Fundação EDP, é possível observar vários dos trabalhos deste autor.

Sebastião Salgado, brasileiro, economista de formação, é reconhecido internacionalmente pelas suas séries fotográficas sobre o trabalho e as migrações (ver vida e obra aqui). 
A sua belíssima obra, a preto e branco, choca-nos pela dureza da vida, pela aridez da paisagem, pelas histórias de beleza, sofrimento e sobrevivência que as suas fotografias contam. 

Série "work". Fotografia de Sebastião Salgado

Para ouvir e ver mais sobre o pensamento e a obra deste fotógrafo vejam-se aqui alguns vídeos disponibilizados pelas TED Talks

Man Ray (1890-1976, americano) e Henri Cartier-Bresson (1908-2004, francês) são outros dois autores que elevaram a fotografia à categoria de arte internacionalmente reconhecida.

Na página web do Man Ray Trust é possível recolher diversas informações sobre a vida e a obra deste fotógrafo e pintor cuja obra se encontra inserida no movimento Dada.

Glass Tears de Man Ray, 1932
(Getty Museum, Los Angeles, California, USA)


Na página web da Fondation Henri Cartier-Bresson encontramos informações sobre a vida e obra deste fotógrafo. Mais informação também é possível obter na secção da Magnun dedicada ao autor. 

Henri Cartier-Bresson, 1948


Cindy Sherman é uma fotógrafa norte-americana contemporânea cujas fotografias estão extensivamente representadas no MoMa.
Cindy é o seu próprio modelo, ainda que as suas fotografias não sejam autor-retratos.

Cindy Sherman. Untitled #466. 2008.
 Chromogenic color print, 8' 1 1/8 x 63 15/16" (246.7 x 162.4 cm).
The Museum of Modern Art, New York.


Encomenda de Cecília Meireles
 

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.


Como tenho a testa sombria, 
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta, 
ponha uma cadeira vazia.



O fotojornalismo, muitas vezes desenvolvido por fotógrafos freelancer, tornou-se um importante meio de comunicação, de transmissão de ideias, de denúncia de conflitos, pobreza à escala mundial e de aproximação do estranho, do diferente. A Magnum é uma cooperativa de fotógrafos francesa, que surgiu em 1947, liderada pelo fotógrafo húngaro Robert Capa (1913 – 1954) que já fotografava em cenários de guerra desde os anos 30 e que representa o papel social e político dos que, muitas vezes, arriscam a vida para nos fazer chegar fotografias de todo o mundo.




O Retrato, de Adélia Prado

Eu quero a fotografia,
os olhos cheios d'água sob as lentes,
caminhando de terno e gravata,
o braço dado com a filha.
Eu quero a cada vez olhar e dizer:
estava chorando. E chorar.
Eu quero a dor do homem na festa de casamento,
seu passo guardado, quando pensou:
a vida é amarga e doce?
Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,
os olhos cheios d'água sob as lentes.. 
Prado, A. (2002). Bagagem. Lisboa: Livros Cotovia.

Neste vídeo, o fotógrafo artístico, especialista em retratos, Martin Schoeller, mostra-nos a importância da fotografia na relação com o outro.

Isabel Bernardo


terça-feira, 17 de junho de 2014

A ciência também é cultura na insustentável leveza das ideias

[Responsabilidade futura, a propósito do dia mundial da luta contra a seca e a desertificação]

O Dia Mundial de Luta contra a Desertificação e a Seca, 17 de Junho, foi proclamado pela Assembleia Geral da ONU em 1994. Precisamente nesse dia e ano, foi aprovada a Convenção das Nações Unidas sobre a Luta contra a Desertificação. Os Estados foram convidados a dedicar o Dia Mundial de modo a sensibilizar a opinião pública para a necessidade de promover a cooperação internacional no domínio do combate à desertificação e aos efeitos da seca, e de aplicar a Convenção das Nações Unidas sobre a Desertificação.
                                                      


A desertificação e a degradação dos solos afetam um terço da superfície da Terra, ameaçando os meios de vida, o bem-estar e o desenvolvimento de pelo menos mil milhões de seres humanos. Confrontados com longos períodos de seca, fome e pobreza crescente, muitos deles não têm outra alternativa senão fugir da sua terra. Estima-se que 24 milhões de pessoas tenham migrado devido a problemas ambientais. Este número poderá atingir 200 milhões até 2050.

                                                     


A celebração do Dia Mundial de Luta contra a Desertificação e a Seca salienta a ameaça crescente que a desertificação e a seca representam para a estabilidade nacional e internacional. Quase um terço das terras cultivadas tornou-se improdutivo nos últimos 40 anos. Cerca de três quartos das pastagens naturais apresentam vários sintomas de desertificação. As alterações climáticas contribuíram para essa situação, mas são apenas um dos fatores. Em particular, é necessário repensar as práticas agrícolas e a gestão recursos hídricos. A agricultura e a criação de gado representam 70% do consumo de água doce e são responsáveis por cerca de 80% da desflorestação. A procura crescente de produtos agrícolas utilizados para alimentar o gado e para uso como biocombustíveis exercerá uma pressão acrescida sobre estes recursos escassos, se não forem geridos de uma maneira sustentável.
                                                         


A desertificação é um dos processos que mais seriamente ameaçam a humanidade, caracterizando um problema mundial que atinge, pelo menos, um quinto da população do planeta ao longo de mais de cem países, causando imensas repercussões.

                                                        


O consumo mundial e os modos de produção atuais não são sustentáveis. Isso terá como consequências, entre outras, novas crises alimentares mundiais como a de 2008 e a continuação da desertificação, da degradação dos solos e dos períodos de seca. Como sempre, os pobres serão as primeiras vítimas e as últimas a recuperarem.

A Comissão de Desenvolvimento Sustentável sublinhou que a desertificação e a degradação dos solos são problemas mundiais que exigem uma resposta mundial. Os dirigentes mundiais preocupam-se com as alterações climáticas. Regras a nível mundial que visem abrandar o aquecimento do planeta devem ajudar também os países em desenvolvimento a adaptarem-se aos efeitos que já se fazem sentir. Em particular, devem garantir um financiamento adequado e previsível para prestar apoio a uma melhor gestão das terras, a uma utilização mais eficaz da água e a uma agricultura sustentável.

Neste Dia de Luta contra a Desertificação e a Seca, reconheçamos os riscos que advêm de permitir que a desertificação avance. Reconheçamos também que, ao lutarmos contra as alterações climáticas, podemos contribuir para inverter a desertificação, aumentar a produtividade agrícola, atenuar a pobreza e reforçar a segurança a nível mundial.

                                                            


A desertificação é uma das formas mais alarmantes de degradação do ambiente:
Ameaça a saúde e os meios de subsistência de mais de um bilhão de pessoas.

                         “Não deveríamos esgotar o futuro que queremos”

                                                             


O Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental (UNRIC), sedeado em Bruxelas, presta informação sobre as atividades da ONU nos países da região, incluindo Portugal. Põe à disposição do público os principais relatórios da ONU, documentos, publicações, fichas informativas, comunicados de imprensa e notícias, em várias línguas, nomeadamente o português.
Paula Neves

Referências bibliográficas:
UNRIC. (2009, junho 12). Mensagem do secretário-geral – Dia mundial de luto contra a desertificação e seca. Disponível em http://www.unric.org/pt/mensagens-do-secretario-geral/24410

Dia mundial do combate à seca e à desertificação (2009, junho 17). Disponível em http://osminorcasvvr.wordpress.com/2009/06/17/dia-mundial-de-combate-a-seca-e-a-desertificacao/

Dia mundial do combate à desertificação e à seca (2014, junho 17). Disponível em http://prbalimentacaoeagricultura.blogspot.pt/2013/06/dia-mundial-de-combate-desertificacao-e.html

Degradação de terras, uma bola de neve de desastres (2012, junho 6). Disponível em http://envolverde.com.br/noticias/degradacao-de-terras-uma-bola-de-neve-de-desastres/