domingo, 24 de abril de 2016

Canções no vento que passa



Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa

Manuel Alegre

Nada somos senão vento. Com mais forma, traços definidos e cores, mas tão inconstantes e passageiros quanto o vento.

Mudamos de rumo, ficamos mais fortes, enfraquecemos, mudamos de direção. Somos ruidosos e espalhamos tudo à nossa volta. Passamos em silêncio e somos quase impercetíveis. Somos tão inconstantes quanto o vento, mas, principalmente, somos tão indefinidos quanto o vento.

Talvez a característica mais interessante de observar seja a forma como o vento reage aos obstáculos que encontra no seu percurso, a forma como se molda e como adapta a sua passagem a cada objeto, seja uma parede, uma árvore ou um tapa-vento estrategicamente colocado no areal.

Nós não somos diferentes, apenas reagimos, não a objetos mas a pessoas; e, no meio de tantos encontros, esbarramos com algumas que nos fazem dançar ao som de uma música diferente, pessoas que nos apresentam novos ritmos, que nos fazem mudar a letra da canção, que nos levam a passar de grave a agudo, a deixar de soprar ao som do jazz para o substituir pelo rock, passando pelo rap e pelo hip hop. É esse o motivo das nossas mudanças de direção e de intensidade: a mudança da música que ditava o ritmo até àquele momento, até irmos ao/ de encontro a alguém com capacidade para reescrever a pauta.

E até mesmo quando estamos em perfeita sintonia e a orquestra parece estar perfeitamente afinada, aparece sempre alguém que semeia novas canções no vento que passa.

Catarina Neves,  12.º CT3

domingo, 17 de abril de 2016

Salman Rushdie


                                                                                                             ...a ler




Sir Ahmed Salman Rushdie nasceu a 19 de junho de 1947 em Bombaim (agora Mumbai), Índia. Era o filho único de um abastado indiano homem de negócios e uma professora e foi educado numa escola privada em Bombaim, antes de frequentar “The Rugby School” em Warwicksire, Inglaterra. Formou-se em História, com louvor, no “King’s College” na Universidade de Cambridge.

Viveu com a sua família, durante algum tempo, no Paquistão. Aí começou a trabalhar, escrevendo alguns textos para televisão, mas depressa regressou a Inglaterra onde, durante os anos 70, se dedicou a trabalhar como redator para uma agência de publicidade.

Apesar de Rushdie se vir a tornar um alvo dos extremistas muçulmanos, a religião sempre teve um papel importante na sua educação. O seu avô, um homem simpático e médico de família, era um devoto do Muslim e rezava cinco vezes por dia e realizou a Hajj a Meca. O envolvimento religioso do seu avô não era caracterizado pela tolerância, algo que influenciou profundamente o jovem Rushdie.

Em 1975 Rushdie publicou o seu primeiro livro “Grimus”, uma obra de ficção científica, que recebeu poucas críticas. Dono de um estilo próprio, e dominando excelentes técnicas de narração, Rushdie continuou a escrever e a sua segunda obra “Midnight’s Children” ganhou o Prémio Booker e “The James Tait Black Memorial Prize para ficção, em 1981. Em 1993 e em 2008 a obra recebeu ainda o prémio de “Best of the Bookers”, uma distinção que a tornou a melhor obra a ser galardoada com “Booker Prize for Fiction”.

Em 1988 Rushdie publicou “The Satanic Verses”, uma obra que causou controvérsia no mundo Islâmico e cuja estória principal foi inspirada em parte na vida de Muhammad. Os críticos adoraram. A obra ganhou o “Whitbread Award” para a obra do ano e foi uma das nomeadas para o “Booker Prize”. Mas, por outro lado, originou uma imediata condenação do mundo Islâmico que a consideraram ofensiva ao profeta Maomé. Em muitos países com largas populações de muçulmanos, a obra foi proibida e a 14 de fevereiro de 1989, Ayatollah Khomeini, o líder espiritual do Irão, proferida a “fatwa”, condenando o autor à morte. Durante muitos anos o autor teve de viver sob proteção policial.

Para tentar diminuir a força da raiva que se instalou contra ele, Rushdie apresentou um pedido de desculpa público e expressou o seu apoio ao Islão. Com o tempo, o “calor” à volta desta questão acalmou e em 1998 o Irão declarou que não apoiaria a “fatwa”.

De toda a sua vasta obra, apenas uma está disponível na Biblioteca Escolar Clara Póvoa, “Luka e o Fogo da Vida”, publicada a 6 de agosto de 2010.





Em 2012 Rushdie publicou “Joseph Anton: A Memoir”, um testemunho autobiográfico da sua vida durante o longo período da “fatwa”.

Mesmo nos momentos mais controversos sobre a sua obra, Rushdie continuou a escrever. No total escreveu onze romances, alguns livros para crianças e publicou várias compilações de ensaios e trabalhos. “Two Years Eight Months and Twenty-Eight Nights” foi publicado em setembro 2015. 

As suas obras estão traduzidas em mais de 40 línguas diferentes. 
Rushdie recebeu inúmeros prémios, incluindo  títulos honorários  em seis Universidades inglesas e seis americanas.Em 2014 foi galardoado com o “PEN/ Pinter Prize”.
 
Rushdie manteve sempre uma postura firme através das palavras e da escrita. É um defensor “feroz” da Liberdade de expressão e criticou frequentemente a Guerra dos EUA no Iraque. 

Baseados na sua obra foram realizados dois filmes: “Os Filhos da Meia Noite” e “Quando Me Apaixono”.
Tem participado sempre em inúmeros programas e eventos transmitidos pela televisão.

No dia 14 de janeiro de 2015, na Universidade de Vermont, Salman Rushdie falou sobre os ataques ao Charlie Hebdo – “A liberdade de expressão deve ser absoluta”

No jornal Público, a 22 de fevereiro de 2016, foi publicada a seguinte notícia “ Media iranianos renovam “fatwa” contra Salman Rushdie”

De 22 de setembro a 8 de outubro de 2016 terá lugar a segunda edição de “Folio-Festival Literário Internacional de Óbidos” que contará com a presença de Salman Rushdie que vem apresentar o seu novo livro “Dois anos, oito meses e vinte e oito noites”.

Para saber mais sobre este autor e a sua obra, entre muitas outras fontes de qualidade, é possível explorar: a sua página oficial, o extenso dossier do The Guardian sobre o autor que inclui vários artigos e uma extensa entrevista publicada na The Paris Review

Luísa Torres

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Memórias perdidas






Richard Glatzer e Wash Moreland realizaram o filme “O meu nome é Alice”, baseado num bestseller da escritora norte-americana Lisa Génova, também professora na Universidade de Harvard e doutorada em Neurociência.
O filme retrata bem a fragilidade de que o ser humano é feito. Quando a sua vida parece ter atingido uma doce estabilidade, já com os filhos adultos, com uma carreira construída e reconhecida no ensino universitário e com um casamento feliz, a protagonista, Alice Howland, começa a sentir os sintomas da doença de Alzheimer, o que a abala profundamente. 
Apesar de naturalmente revoltada contra o mal que lhe vai roubando as memórias que foi acumulando ao longo da sua vida e que constituem a sua identidade como pessoa, Alice decide lutar, com muita dignidade, para se manter ligada ao mundo e aos afetos que foi criando.
Vamos, assim, acompanhando a personagem central na sua progressiva caminhada para o esquecimento, testemunhando a sua força nos momentos de lucidez, mas também a indizível dor de ir perdendo, irreversivelmente, a profissão de que tanto gostava, o domínio das palavras que tanto a fascinavam enquanto linguista e, sobretudo, os laços afetivos com os filhos e o marido.
Ora, embora o filme se centre na forma como a doença afeta a vida de quem a tem, a verdade é que também documenta o efeito avassalador que uma doença com estas características pode ter na família do doente. É terrível assistir à decadência das pessoas que nos habituámos a ver fortes, lúcidas, ativas, sobretudo quando essas pessoas que se vão afastando de nós para sempre nos são tão queridas e significam tanto para nós. Embora fisicamente presentes, já não são as mesmas, porque perderam uma parte delas – a sua própria identidade. E conviver diariamente com esta situação é um sofrimento atroz, porque sabemos que nada podemos fazer para a inverter. 
Além disso, o filme aborda também uma questão interessante no que respeita à relação entre pais e filhos. A filha mais nova de Alice, Lydia, curiosamente a mais rebelde dos três filhos, a que parecia mais desligada da família e que mais desentendimentos tinha com a mãe, assume a iniciativa de cuidar dela, quando Alice já não pode ficar sozinha e todos os outros elementos da família prosseguem os seus projetos de vida. Apesar de parecer distante, a verdade é que Lydia tomou uma decisão madura e responsável, mas sobretudo de grande amor e carinho pela mãe. Quando esta realmente necessitou da sua presença e dos seus cuidados, Lydia convictamente mostrou a sua disponibilidade. Numa família, ter pontos de vista diferentes e discutir não significa, de forma alguma, que os afetos não existam ou não sejam fortes. E Lydia provou exatamente isso: o amor fala mais alto do que qualquer desavença. 
 “O meu nome é Alice” é, por tudo isto, um filme, que aborda com delicadeza e sem dramatismos excessivos, uma realidade triste. A doença de Alzheimer existe, não tem cura e muda para sempre a vida de quem a tem, aos poucos, como uma morte anunciada. Traz inevitavelmente dor e tristeza a familiares e amigos, que se sentem impotentes. É um filme que vale a pena ver, que faz bem ver, não só porque nos lembra o quão importante é valorizar os momentos felizes que temos o privilégio de viver uns com os outros, construindo memórias felizes, como também nos incita a lançar um olhar mais atento, tolerante e carinhoso, sobre as pessoas que sofrem da doença de Alzheimer – para as quais viver perdeu quase todo o sentido.
Maria Bita, 12.º LH1