domingo, 3 de junho de 2018

Saudade


Saudade, um sentimento com o qual não temos a capacidade de lidar, algo que nos domina e passa a fazer parte de nós, mesmo que a nossa vontade não o permita. Saudade, a dor latejante das inevitáveis partidas.

Na minha ótica, é um sentimento aprazível, que nos domina e nos torna mais felizes, na medida em que nos ajuda a reviver determinados momentos da nossa vida ou até mesmo a relembrar pessoas que, de alguma forma, nos marcaram. Simultaneamente, poderá tornar-se um sentimento inclemente, algo que se torna difícil de suportar e de controlar, o que acontece, muitas vezes, quando nos encontramos distantes, a todos os níveis, de alguém que amamos incondicionalmente e não temos qualquer tipo de meio que nos permita a aproximação, acabando por nos restar apenas as melhores recordações.

Assim, será difícil, no universo grandioso de que todos nós fazemos parte, conhecer alguém que não tenha perdido o chão quando invadido por esse tal sentimento, com aparência de muralha intransponível. Não há colete à prova de saudade nem forma de blindar a nossa vida dos efeitos insuportáveis que causa aquilo que vai e nem sempre volta.

Porém, a saudade nua e crua é o símbolo que todos nós possuímos alma, de que todos nós temos sentimentos e temos, além disso, a capacidade de valorizar aqueles que connosco se cruzam e partilham momentos e emoções.

Bruna Cardoso, 10.º CT2

Ritmo da alma


 


Sinto as pernas a tremer, o corpo a tremer, toda eu a tremer. Espreito através da cortina para a audiência e a única coisa que o meu corpo me diz para fazer é desmaiar para não ter de enfrentar tudo aquilo. Sei, porém, por que ali estou. Tenho consciência de que trabalhei, que dei tudo de mim para merecer estar na maior sala de espetáculos de Portugal a fazer aquilo de que mais gosto – música.
Neste momento, as luzes acendem-se e alguém atrás de mim sussurra: “Vai e solta o que vai na alma!” E eu vou. Caminho em direção à guitarra que me espera como se espera o amor de uma vida. Sento-me, respiro fundo e os meus dedos afundam-se nas cordas que percorro. Assim que começo, a minha mente enche-se de memórias. Recordo-me do início, de como tudo começou. Parece que ainda agora ouço as músicas que também me ensinaram a ler, a escrever e a cantar; ou aquelas ao som das quais o meu corpo descansava ao fim de um dia cheio de aventuras; ou até mesmo aquela melodia que insiste todas as manhãs em me arrancar do meu cantinho.
Para mim, a música é uma forma de expressar o que me vai na alma. O seu poder arrebatador conquista-me todos os dias, seja para apelar à concentração nos estudos ou para me vir trazer a paz de espírito de que necessito. Acredito que todos nós temos aquela música que nos descreve em determinadas alturas da vida e, ao escutá-la, alguma coisa dentro de nós se acalma, como se fosse possível que algo imaterial nos compreendesse.
Quantas declarações de amor já foram compostas e anunciadas ao mundo através da música? Quantas vidas já se viveram para dar a conhecer, através da música, aquilo que é, de facto, a vida? Quantos sorrisos por esse mundo fora foram dados, atirados, sentidos, devido à música? Quantas paixões?! Quanta alma há nisto tudo! Aqui, sentada, perante esta plateia, esta é a minha declaração de amor.
Por fim, paro e baixo a cabeça. O silêncio instala-se nas centenas de metros quadrados da sala, mas, de repente, as palmas começam a ouvir-se, primeiro tímidas e depois cada vez mais fortes.
Antes de sair, olho uma última vez para a plateia que ainda aplaude e recordo uma frase que o vocalista da banda inglesa U2 uma vez disse: “A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas”. E retiro-me, sabendo que estou a fazer a minha parte.
Mariana Camarneiro

Caos pontual


?

No passado fim de semana, dia 16 de setembro, na festa de São Deuzivaldo, que teve lugar na localidade de Rabo de Peixe, um extraordinário fenómeno ocorreu, inesperadamente.
Para enorme espanto de miúdos, graúdos, beatas e alguns suínos (literais e metafóricos) uma bizarra multidão agrupou-se junto da capela de Santa Gregória do Pão, causando euforia e providenciando os gaiteiros com um novo tema musical: os sinais de pontuação e os diacríticos vieram à patuscada da aldeia!
No meio de tantos outros camaradas, veio o Sr. Ponto Final, com a linda D. Vírgula e o seu pequeno rebento, Ponto e Vírgula. Deliciaram-se com um estupendo entrecosto e enchidos e não deixaram de notar o quão “contente” o Sr. Acento Agudo havia ficado em tão curto espaço de tempo (com um subtil recurso a bebidas alcoólicas, é claro). Do outro lado da tasca, o Trema, sedutor por natureza, tentava engatar o Til: “Tu ligas os meus pontos”, dizia. Resultou.
A certa altura, o Sr. Anastácio, pai da rapariga das bebidas, envolveu-se numa rixa com o Acento Grave, que tentava conquistar a pobre miúda. Escolheram-se lados e em breve já saltavam dentes. Era o caos total. O Ponto de Interrogação não percebia nada.

                                                                              Alice Brito e Mafalda Murta, 10CT2