quinta-feira, 1 de junho de 2017

Até ao Fim da Terra de David Grossman

... a ler


Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem receber, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os “notificadores”. Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, o melhor amigo de outrora de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles.
Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana – uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz? E, no limite de Israel e de si mesmos, Ora e Avram descobrem-se um ao outro, a si próprios e à sua condição de israelitas irreversivelmente exilados. Mas é também no fim da terra conhecida, na fronteira com o inimigo, que se podem restaurar alguns caminhos há muito bloqueados.

Ao imaginar prodigamente uma família no amor e na crise, Grossman cria um dos maiores romances antiguerra do nosso tempo.

“Ora, disse Avram, saboreando o nome, e a doçura derramou-se-lhe pela boca e pelo corpo todo, O-ra.”

“A luz do dia espreita, eles estão estendidos nas margens de um campo (…). Só ela e ele no mundo, mais ninguém (…). Nesse momento, Avram abriu os olhos. Viu Ora sentada à sua frente, encostada a uma mochila enorme.”

David Grossman

Opiniões sobre a obra
“Muito raramente, poucas vezes numa vida inteira, abrimos um livro que, quando fechamos, nada pode continuar a ser o que era. Derrubaram-se muros, transpuseram-se barreiras, abriu-se em nós uma dimensão do sentir, do próprio existir, que antes não tínhamos. Até ao Fim da Terra é um livro dessa magnitude.
David Grossman é talvez o escritor mais talentoso que alguma vez me foi dado ler; talentoso não apenas pela sua imaginação, energia e originalidade, mas porque tem acesso ao indizível, porque é capaz de olhar para dentro de uma pessoa escreve romances sobre o que significa defender essa essência, essa luz sem par, contra um mundo apostado em extingui-la. Até ao Fim da Terra é o mais poderoso, demolidor e indómito de quantos livros já escreveu sobre tal defesa. Lemo-lo e sentimo-nos dissecados, desmembrados, tocados na essência do que somos; devolvidos, como se ao fim de uma longa ausência, à condição de seres humanos.”NICOLE KRAUSS
 
“Livro avassalador pela sua força e intensidade, esta é a obra-prima de David Grossman. Flaubert criou a sua Emma, Tolstói a sua Anna, e agora Grossman dá-nos a sua Ora – uma personagem viva e autêntica como não há outra na ficção recente. Devorei este longo romance num estado de transe febril. É pungente, belo, inolvidável.” PAUL AUSTER

“David Grossman evoca na perfeição a paixão amorosa e a sensualidade, a amizade masculina e as delicadas nuances do quotidiano num país enfraquecido pela violência e pelo medo.” DIE WELT
Boas leituras.
Adélia Maranhão
 

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