quarta-feira, 24 de abril de 2019

Já não se vive a inocência


O tempo. Aquilo que não para e que, por vezes, deveria. Ou não. “Quanto mais rápido isto passar, melhor!”, como ouvimos e dizemos muitas vezes. Mas o tempo, aconteça o que acontecer, ignora porque o tempo será sempre apenas isso, apenas tempo: uniforme, certo e intocável. Com ele vêm, no entanto, mudanças e, à medida que a Terra gira em torno de si mesma e completa voltas na periferia do Sol, a vida das pessoas que passam na Terra vai acontecendo. As coisas e as pessoas que se conheciam há 50 anos já não são as mesmas, já não pensam da mesma maneira e já nem sequer sentem da mesma forma. Onde estão os filhos das crianças que há 50 anos brincavam pelas ruas das suas aldeias? Ninguém os vê, ninguém sabe.

Nos últimos anos temos vindo a assistir a uma mudança na vida das pessoas, em termos gerais. Muitas delas abandonam a sua zona de conforto no seu ambiente rural, onde podem ter nascido e crescido, para começar uma vida nova noutro sítio, numa cidade onde o caos encontrou casa e a paz não se conhece. As crianças que vivem nestes ambientes não têm tanta liberdade e espaço para fazerem aquilo que uma criança deve, efetivamente, fazer: brincar na Natureza. Os espaços verdes são, por vezes, escassos e a insegurança é um fator preocupante para qualquer pai e mãe, o que faz esta família procurar outras formas de divertir e instruir o seu filho.

E que caminhos se escolhem? Ora, muitas vezes, a solução, para certos pais, passa por entregar ao filho um instrumento eletrónico que o mantenha ocupado e calado durante um tempo. Isto leva-me a questionar: “Que mundo é este? Que mundo é este em que os próprios pais se esquecem que outrora foram crianças e que, enquanto crianças, tinham necessidades e essas necessidades nunca foram de um telemóvel ou de um tablet? Que mundo é este que se esquece de dar aos adultos do futuro o que eles precisam no presente?”

Pensemos nos adultos que seríamos agora se não tivéssemos tido a liberdade de brincar ao ar livre enquanto crianças. Provavelmente, não seríamos pessoas tão capazes nem tão aptas para lidar com as dificuldades da vida. Pensemos nisto. E depois decidamos que tipo de pais e mães queremos ser.
Mariana Pina Camarneiro
(12.º CT3)

Boletim Bibliográfico n.º 86 | Primavera



terça-feira, 23 de abril de 2019

Aldeias


Já não há alegria a correr por entre as ruas das aldeias. Já não se ouvem os gritos de pais preocupados porque os seus filhos caíram numa vala e esmurraram os joelhos. Já não se veem meninos e meninas a conviver e a chatear a cabeça aos idosos que os observam, sentados naquelas cadeiras de madeira, mesmo à frente das suas casas. Aldeias já não são aldeias.

As crianças preferem, agora, passar os seus tempos livres no conforto das suas casas, longe de todo o tipo de perturbações que a Mãe Natureza lhes possa proporcionar. Coitados, não sabem o que perdem! Mas que culpa têm eles disso? Nenhuma, pois é da responsabilidade dos seus pais a educação que lhes é dada. Os papás é que decidiram dar-lhes telemóveis, computadores e “videogames” para as mãos, tendo eles apenas oito anos de velhice.

Há quem diga que até pode ser bom para as crianças passarem mais tempo em casa: passam mais tempo com a família, é menor o risco de ficarem com um braço partido e poupam a pouca paciência que resta aos velhos que fazem a sesta à porta de casa.
Também há quem diga (eu) que tal opinião não tem qualquer sentido: os pais trabalham durante o dia; logo, as crianças, desesperadas por alguma companhia e atenção, apegam-se à tecnologia. 

Além disto, faz parte da infância ter constantemente os joelhos esmurrados até porque o que não nos mata torna-nos mais fortes! Já para não referir o aborrecimento que os velhinhos vão sentir quando apenas tiverem as moscas e mosquitos como companhia.
A verdade é que, infelizmente, aldeias já não são aldeias.
Mariana Duque
(12.º CT3)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Andar suja?




Quando vejo uma criança suja, posso, imediatamente, deduzir que é uma criança feliz.

Quando era mais nova, ia com a minha avó e o meu primo para a terra dela, a tão conhecida “terra abaixo da ponte”. Esta é uma terra enorme atrás da minha casa onde passa um curso de água, ou melhor, uma vala, que foi uma excelente piscina onde não só nadávamos nós, como também nadavam os peixes de que eu tinha tanto medo. Íamos para lá duas vezes por semana e era diversão garantida. 

À segunda e à quinta-feira lá íamos nós regar aquela imensidão de alfaces e tomates e outras hortícolas, de que nunca consegui saber o nome. Lembro-me tão bem de quando ela ligava o motor e começava a água a chegar ao pé de mim vinda de todos os lados… De repente, parecia que estava numa festa de verão onde os convidados eram terra e água. Tanta terra e tanta água no meu cabelo e na minha roupa!...

Chegava a casa e quando a minha mãe me via, apetecia-lhe colocar-me toda na máquina de lavar. Mas quando chegava ela dizia-me sempre: 
- Ó Mariana, que trabalho é esse?!
E eu com uma doce face respondia-lhe de imediato:
- Mas, mãe, sou tão feliz assim!

E é verdade: era a pessoa mais feliz do mundo.

Estar sujo não significa que sejamos pobres ou que não nos preocupemos com a nossa saúde (imagino que todos aqueles grãos de terra tenham algum impacto na minha saúde). Significa, sim, no meu ponto de vista, ser puro e ser feliz. Estar sujo (do modo que referi) é sinónimo de liberdade: sentia-me tão livre a correr terra acima, terra abaixo com o meu primo; sentia-me feliz porque, se ganhasse essas corridas, não poria a mesa para o jantar. E eu ganhava quase sempre!...

Sentir-me assim é tão bom que se torna um sentimento inexplicável.
Mariana Moreira
(12.º CT1)