[leituras] palavras "derivadas" d'um dia de abril
as portas que abril abriu
A SACA DE ORELHAS |
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Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes
1 Não te ataques com os atacadores dos outros. Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção. 0 mesmo deves fazer com os açaimos. E com os botões. 2 Não te candidates, nem te demitas. Assiste. Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira. Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia. 3 Tira as rodas ao peixe congelado, mas sempre na tua mão. Depois, faz um berreiro. Quando tiveres bastante gente à tua volta, descongela a posta e oferece um bocado a cada um. 4 Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre um caixote com serradura à tua espera. Pode haver. Se houver, melhor... Esta deve ser a tua filosofia. 5 Tudo tem os seus trâmites, meu filho! Não faças brincos de cerejas sem te darem, primeiro, as orelhas. Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia. 6 Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que te puseram em cima da cabeça? Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da. É provável que te sintas logo muito melhor. Sai, então, de baixo da pedra. 7 Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra. Poderias atrapalhar os trabalhos. Os de pedra sobre pedra, entenda-se. Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro. Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa. 8 Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia. Oxalá o consigas! [...] 11 Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença: Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.
© ALEXANDRE O′NEILL
A Saca de Orelhas, 1979 |
No País dos Sacanas
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
Jorge de Sena, in 40
Anos de Servidão
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