Requiem à música portuguesa

Cheguei a casa no dia de Sol mais cinzento que vivi. Abri a porta, caminhei até ao meu quarto, peguei num vinil, coloquei-o com todo o cuidado no gira-discos e deixei a agulha fazer o seu trabalho. Deitei-me na cama e deixei-me levar por aquela harmonização do mundo.

Entrei assim numa viagem, uma viagem pela alma de alguém que nunca conheci, mas que mesmo assim despertou em mim os sentimentos mais puros que um homem é capaz de sentir. Permaneci deitado durante uma hora e meia e no final, depois de ouvir aquela cadência perfeita que resolve todas as dissonâncias da vida, senti-me um pouco mais leve.

Levantei-me, peguei na minha guitarra e apenas com a Lua a iluminar o quarto deixei sair pelos dedos tudo o que tinha sentido naquele dia. Quando dei por mim, tudo o que escureceu aquele dia tinha desaparecido em cada nota que ecoava naquele quarto.

A música tem esta capacidade estranha de nos fazer transcender, de nos levar numa viagem impossível de replicar. A música salvou-me várias vezes e eu, como músico, sonhei, um dia, em poder salvar outros com a minha música. No entanto, cresci e percebi que, para os donos e senhores deste país, a música, principalmente a portuguesa, como qualquer outra forma de arte, é um alvo a abater.

Ano após ano, vejo jovens prodígios portugueses a sair deste país e a mostrar lá fora que há quem faça boa música em Portugal. Enquanto isso, cá dentro fazem-se manifestações pela arte e pela cultura, pedem-se apoios, ouvem-se as histórias das centenas de artistas que vivem na pobreza, pede-se apenas a mínima valorização dos artistas portugueses. E tentam calar-nos, oferecendo uns míseros dois por cento do Orçamento de Estado; e, enquanto isso, fecham o maior centro de produção musical do Porto.

Estão a matar a música e nem nos dão tempo de fazer um Requiem que nos faça chorar o fim da arte e de Portugal.


Simão Cera

 

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