terça-feira, 16 de junho de 2015

Jim Crace


A ler…






Jim Crace nasceu em 1946 no Reino Unido e é unanimemente considerado como uma das vozes mais originais do seu país. Estudou Literatura Inglesa e publicou o seu primeiro trabalho literário em 1974. Nos 10 anos seguintes, escreveu vários contos e peças radiofónicas. Entre 1976 e 1986 trabalhou como jornalista freelancer e, a partir de então, passou a dedicar-se exclusivamente à ficção. É o autor multipremiado de vários romances, incluindo Continent, galardoado com o Whitbread First Novel Award de 1986 e o Guardian Fiction Prize; e Being Dead, o romance que foi distinguido com o National Book Critics Circle Award em 2001. O romance Colheita (Harvest) colocou-o como um dos favoritos e finalista do Book Prize de 2013.
Na biblioteca da Escola Secundária, poderás encontrar as seguintes obras do autor:







Encontramo-nos em Inglaterra, numa aldeia tranquila onde ainda se vive ao ritmo das estações e dos trabalhos agrícolas sazonais. Num final de verão, no entanto, o novo senhor das terras e  os seus homens chegam e confiscam os terrenos comunitários para iniciar a criação de ovelhas  e a produção de lã. A desconfiança, o medo, a revolta e a violência instalam-se e, em apenas  sete dias, assistimos à dissolução de uma ordem social quase paradisíaca face ao nascimento da era industrial. Mas qualquer coisa ainda mais inquietante se insinua no coração desta história  narrada pelo único homem que fica para a contar... Walter Thirks. A prosa encantatória e poética de Jim Crace serve esta belíssima narrativa na perfeição.




Baritone Bay, a meio da tarde. Um homem e uma mulher, nus, casados há quase trinta anos, jazem assassinados nas dunas. Os corpos tinham expirado, mas qualquer pessoa diria - só de os olhar - que Joseph e Celine ainda se amavam. Pois enquanto a mão dele a tocava, encurvada sobre a perna dela, o casal parecia ter alcançado esse estado de paz que o mundo geralmente nega, um momento de graça que desafiava até o crime que os vitimara. Qualquer pessoa que os encontrasse ali, tão perversamente desfigurados, seria não obstante forçada a admitir que algo do amor de Joseph e Celine tinha sobrevivido à morte das células. Os cadáveres tinham sido entregues ao tempo e à terra, mas ali estavam ainda um homem e a sua mulher, repousando serenamente, carne contra carne, mortos, mas ainda presentes. 

Entrevista a Jim Crace (excerto)

Mal concluiu A Morte nas Dunas, Jim Crace ficou doente, meses a fio. Tinha enterrado o pai, um funeral em prosa. E nessa morte sem consolo, descobrira que a vida é bela.
A entrevista já acabou, quando Jim Crace diz abruptamente: "Eu carrego uma culpa". Fica em silêncio do outro lado da linha, mas já é demasiado tarde, não pode voltar atrás. O dique rebenta, as palavras precipitam-se: "Carrego uma culpa, percebe? A minha mãe e eu não aguentávamos mais. O meu pai já estava doente há tanto tempo, nós tínhamos de fazer tudo, até levá-lo à casa de banho. Estávamos tão fracos e cansados que acabámos por mete-lo no hospital. E nesse mesmo dia ele morreu, no hospital, sozinho."
Foi em 1979, décadas antes de publicar o seu sexto romance, A Morte nas Dunas. "E apesar de logicamente saber que não o matámos – prossegue Jim –, uma parte de mim continua a pensar que o abandonámos. Estávamos cansados, no fim da linha, mas arrependo-me tanto de não termos aguentado mais 24 horas – para que que ele pudesse morrer connosco, na nossa casa. E eu nunca, mas nunca, perderei esse sentimento de culpa. Irá comigo até ao meu leito de morte, por mais que o racionalize, por muito que saiba que é idiota estar a punir-me."
Ainda viu o pai, cinco segundos, talvez nem isso. O tempo de uma despedida infame, apressada, antes do cadáver ser reduzido a cinzas. "Ele teve um funeral ateu, o que foi terrível. Não havia ninguém presente, nem canções, nem discursos, música ou flores. Ele tinha-nos dito: depois de ser cremado quero que deitem as cinzas fora. E porque nós gostávamos muito dele, fizemos o que nos tinha pedido. Foi um erro imperdoável."
Para saberes mais sobre este autor e a sua obra, existe muita informação em linha que podes consultar. Eis alguns exemplos: Goodreads, The Guardian, The Paris Review, The Independent, BookBrowse e London Review of Books, entre outros. 


Adélia Maranhão