domingo, 8 de maio de 2016

Muito para além das aparições

... a ler



O livro Em teu ventre foi escrito por José Luís Peixoto, um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética encontra-se traduzida em vários idiomas, tendo já recebido vários prémios nacionais e internacionais, facto que traduz o notável reconhecimento que tem tido por parte da crítica especializada e do público em geral.  
 




A ação desta novela decorre em 1917, de maio a outubro, período durante o qual tiveram lugar as aparições de Fátima. A protagonista é precisamente a pequena Lúcia, uma das três crianças a quem uma Senhora mais brilhante que o sol terá aparecido. No entanto, a narrativa não vai centrar-se no mistério nem nas questões de fé que envolvem este episódio, mas sim privilegiar o quotidiano familiar desta criança, integrando-a no ambiente da época, fornecendo, desta forma, um retrato do Portugal rural do início do século XX, atormentado pela guerra e ávido de esperança.

Assim, o narrador vai contando factos ocorridos ao longo dum período de seis meses, mas este relato não é linear. É feito de instantes, centrados ora em Lúcia, ora noutras personagens que gravitam à sua volta e com as quais ela se relaciona: Maria Capelinha, as irmãs mais velhas, os primos Jacinta e Francisco, o padre, entre outras. Mas são as relações estabelecidas com a mãe que o narrador nitidamente evidencia, destacando a complexidade, a contradição, muitas vezes: a mãe ralha, a mãe é dura, até cruel, mas é a mãe que a protege da multidão asfixiante, é o rosto da mãe que Lúcia procura, no desespero. E desta maneira, o narrador atribui maior força e protagonismo à figura maternal como, de resto, acontece nos discursos na primeira pessoa, que invadem a ação. Constituem uma outra voz, a mãe do autor, entidade ficcional, que comenta os factos narrados e faz deles pretextos para uma memória, uma acusação, um desabafo tardio, uma crítica.  

Outro facto que contribui de forma determinante para a originalidade da estrutura desta obra é a inserção de momentos poéticos muito belos, sob a forma de versículos, onde são feitas reflexões profundas sobre a força das palavras, os valores, o mundo e também, mais uma vez, sobre a maternidade, tema particularmente relevante na obra e logo anunciado no título.

Ora, é certo que esta pluralidade de tipos de discursos e de vozes constitui um desafio para o leitor: exige uma leitura mais atenta e a capacidade de relacionar textos tão diversos, sem perder o fio condutor da história, o que nem sempre é tarefa fácil. Contudo, esta diversidade faz também com que o livro não se limite à evocação árida e linear de uma época e de um acontecimento, construída com base em pesquisas e com um leve toque ficcional.

 O que verdadeiramente encanta neste livro, o que fica depois da leitura é a força e a profundidade das muitas reflexões (“As palavras são imperfeitas/ quando tentam dizer aquilo/ que é maior do que elas”), a verdade das relações humanas entre mãe e filha e a ternura de alguns momentos perspetivados pela sensibilidade de uma criança de dez anos que adora brincar com pedrinhas e que, obedientemente, corre à capoeira para buscar um ovo que a mãe lhe pediu para a sopa, mas pede perdão à galinha - porque sabia que estava a tirar-lhe, para sempre, algo muito querido. São estas delicadezas de pensamento que fazem deste livro muito mais do que uma recriação de um episódio do início do século XX. 

 Maria Bita, 12.º LH1

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