domingo, 3 de junho de 2018

Ritmo da alma


 


Sinto as pernas a tremer, o corpo a tremer, toda eu a tremer. Espreito através da cortina para a audiência e a única coisa que o meu corpo me diz para fazer é desmaiar para não ter de enfrentar tudo aquilo. Sei, porém, por que ali estou. Tenho consciência de que trabalhei, que dei tudo de mim para merecer estar na maior sala de espetáculos de Portugal a fazer aquilo de que mais gosto – música.
Neste momento, as luzes acendem-se e alguém atrás de mim sussurra: “Vai e solta o que vai na alma!” E eu vou. Caminho em direção à guitarra que me espera como se espera o amor de uma vida. Sento-me, respiro fundo e os meus dedos afundam-se nas cordas que percorro. Assim que começo, a minha mente enche-se de memórias. Recordo-me do início, de como tudo começou. Parece que ainda agora ouço as músicas que também me ensinaram a ler, a escrever e a cantar; ou aquelas ao som das quais o meu corpo descansava ao fim de um dia cheio de aventuras; ou até mesmo aquela melodia que insiste todas as manhãs em me arrancar do meu cantinho.
Para mim, a música é uma forma de expressar o que me vai na alma. O seu poder arrebatador conquista-me todos os dias, seja para apelar à concentração nos estudos ou para me vir trazer a paz de espírito de que necessito. Acredito que todos nós temos aquela música que nos descreve em determinadas alturas da vida e, ao escutá-la, alguma coisa dentro de nós se acalma, como se fosse possível que algo imaterial nos compreendesse.
Quantas declarações de amor já foram compostas e anunciadas ao mundo através da música? Quantas vidas já se viveram para dar a conhecer, através da música, aquilo que é, de facto, a vida? Quantos sorrisos por esse mundo fora foram dados, atirados, sentidos, devido à música? Quantas paixões?! Quanta alma há nisto tudo! Aqui, sentada, perante esta plateia, esta é a minha declaração de amor.
Por fim, paro e baixo a cabeça. O silêncio instala-se nas centenas de metros quadrados da sala, mas, de repente, as palmas começam a ouvir-se, primeiro tímidas e depois cada vez mais fortes.
Antes de sair, olho uma última vez para a plateia que ainda aplaude e recordo uma frase que o vocalista da banda inglesa U2 uma vez disse: “A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas”. E retiro-me, sabendo que estou a fazer a minha parte.
Mariana Camarneiro

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