quarta-feira, 29 de abril de 2015

A menina dança?



                                          E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

Friedrich Nietzsche


E a paixão foi nascendo. Uma troca de olhares gregos e profundos. Um sorriso quente e irresistível. Um envergonhado convite à dança, enleio de paixão latente, que, pouco a pouco, foi desvelando que a dança já não o era apenas.  Eram dois corpos que se tornavam num só, quando ele lhe pagava na mão e a levava, quando os sons iniciais soavam arrepiantes, quando se olhavam profundamente... e um primeiro beijo descuidadamente roubado perguntava Is this love?




Eram jovens, muito jovens, tão jovens quanto loucos. Dança p'ra mim, pedia-lhe. E ela deixava-se levar pelo ritmo, pelo olhar meigo e sedutor, e gostava de sentir-se olhada, amada, the one that he wanted...





E era a dança essa loucura viciante, a kind of magic, que fazia desaparecer tudo em redor, que os levava a outra dimensão, tão juntos, tão um. Sim, porque ela sentia-os inseparáveis. E dançavam, dançavam, dançavam... até à sensualidade do tango...





... até à vibração que lhes queimava o corpo, o sangue, a alma...






Mas, nas voltas da vida, ele não era o Pedro, ela não era a Cinderela. E o final não foi feliz, como na história.
E a dança? Ah!... Isso ele conseguira: a dança viciara-lhe o corpo, a alma... e ficara. Vivia-a de memórias, como  Silent Wings , I can see us in our dreams and we're dancing / I can almost hear the song, e voava nas lembranças da felicidade. Não mais dançara, não mais conseguira, não mais se atrevera...

A semana terminara plena de trabalho e canseiras, vazia de alegria e carinho. Na solidão do lar, achou-se frente ao espelho. Que diabo! Ainda era bonita!...
Vestiu-se, maquilhou-se e voltou a olhar-se no espelho. Sim, sentia-se bem e, subitamente, sentiu uma vontade louca de caminhar pelas ruas da cidade, talvez entrar num bar, talvez uma bebida, ouvir música, recordar , (re)viver... A noite estava deliciosamente amena e atraente. E, afinal, andar entre o bulício de sexta-feira à noite conseguia devolver-lhe um pouco de alegria... e era música para a alma. 
Música? Aquela música era-lhe familiar. Há quanto tempo não ouvia a doce meiguice daquelas palavras!...
Levada pela saudade e pelo encanto, entrou. Sabia-lhe bem uma bebida, como noutros tempos. Acabara de pousar o copo e saboreava gostosamente aquele som inebriante... 
A menina dança?  Não, não era o título do livro que lhe segredava, no cabelo sedoso, bem junto ao ouvido e a deixava completamente paralisada. Não conseguia voltar-se.
A menina dança?  voltou a percorrer-lhe o corpo como fogo, como só outrora o fazia aquela voz ardente e meiga. Fechou os olhos aos lábios que não via, ao fogo do corpo atrás de si e apenas sentiu os braços que a enleavam pela cintura fina... Não teve forças para resistir... e deixou-se levar para a pista, "just like" dance me to the end of love...





Dance, baile, enamore-se, sinta-se feliz consigo, por si, pela Vida.

E dance, dance, dance... 


Leonor Campos de Melo

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